‘Fantasmas’ e ‘controle do clima’



A imaginação dos roteiristas de Star Trek é inacreditável. rs. Só em Star Trek a união entre “fantasmas” (ou o que parece ser um fantasma) e controle do clima é possível. Antes de falar sobre o assunto principal do post, quero dispersar um pouco e falar do atual “estado da arte”, quando o assunto é modificação do clima.

Teoristas da conspiração adoram falar que o HAARP é uma arma climática. Muito provavelmente, se você digitar “weather modification”,  “modificação do tempo” ou “modificação do clima”, em um determinado momento a busca apontará para um site de algum teorista da conspiração, dizendo que o HAARP é uma arma norte-americana usada para modificar o clima. Eu escrevi um texto sobre o assunto e eu recebo diversos comentários de pessoas que juram que eu estou enganada, que dizem que vou me arrepender do que estou falando, etc. Eu leio esses comentários, aceito (porque são engraçados rs) e nem respondo. Teve um comentarista que sugeriu que pessoas que tem uma visão cética e não acreditam em teorias da conspiração não questionam o real porquê das coisas. Na minha opinião, é exatamente o oposto: teoristas da conspiração querem um pacote pronto de ideias. A teoria da conspiração não é nada mais do que isso: oferece uma resposta pronta aos problemas.

Teoria da conspiração: só é legal quando é o Mulder.

Sou gato
Sou gato

A falta de conhecimento científico faz com que essas teorias da conspiração (nas mais diversas áreas do conhecimento) ganhem força. A jornalista Sharon Weinberger disse algo muito interessante: as teorias da conspiração acabaram tirando o foco do real objetivo do HAARP. Ou seja: todo mundo conhece o projeto através de teoristas da conspiração e não através de fontes confiáveis!

Além do HAARP, quando fala-se em modificação do clima/tempo também costumamos lembrar do cloud seeding (ou ‘semeadura de nuvens‘). Não há evidências científicas concretas de que a semeadura de nuvens funcione: os artigos são todos inconclusivos ou categóricos, afirmando que não funciona. Para chover, é necessário que nuvens se formem. E para que essas nuvens se forme, é necessário que haja vapor d’água na atmosfera (que passará para o estado líquido). Ora, do que adianta semear nuvens de lugares que já são muito secos (como parte da Região Nordeste Brasileira), em que a atmosfera tem uma natural tendência de movimento subsidente (de cima pra baixo), que seca a atmosfera e impede a formação de nuvens?

Essa ideia toda de semeadura de nuvens começou provavelmente com o Projeto o Projeto Cirrus, que fez parte de um projeto ainda maior, o Projeto Stormfury. O Stormfury foi um projeto que começou na década de 60 e terminou na década de 80. Foram quase 20 anos de projetos. Deve ter sido um projeto caro. Aviões, iodeto de prata, mão de obram, etc, tudo isso demanda muito esforço pessoal e financeiro. Depois de 20 anos de dados acumulados, não conseguiram determinar se as mudanças observadas nas tempestades eram provocadas pela intervenção humana ou se eram naturais.

Em um laboratório, é possível controlar todas as variáveis envolvidas em um experimento. Na atmosfera, isso é praticamente impossível. Em experimentos feitos em furacões durante as diversas etapas do Projeto Stormfury, foram verificadas mudanças na estrutura de furacões que foram semeados por iodeto de prata. No entanto, essas mudanças também já tinham observados em sistema em que não houve essa semeadura.

Os pioneiros em cloud seeding foram Vincet Schaefer e Irving Langmuir. Depois de testemunharem a formação artificial de cristais de gelo, os pesquisadores ficaram entusiasmados e acreditaram que isso teria potencial para modificar as condições meteorológicas. Schaefer descobriu que se jogasse gelo seco em uma nuvem, ela poderia gerar neve. Com relação aos furacões, os pesquisadores acreditavam que se jogassem iodeto de prata nas paredes do olho do furacão, calor latente seria liberado. Isso promoveria a formação de um novo olho. Esse segundo olho, maior que o primeiro, faria com que o gradiente de pressão da tempestade (baixa pressão no centro e pressão maior nas vizinhanças) fosse reduzido. Com a redução do gradiente de pressão, a intensidade do vento seria reduzida. E isso, claro, seria benéfico, pois reduziria os danos provocados pela tempestade. Acontece que essa hipótese não ficou bem comprovada, uma vez que muitos que não foram semeados apresentaram esse padrão de “dois olhos”.
Os pioneiros em cloud seeding foram Vincet Schaefer e Irving Langmuir. Depois de testemunharem a formação artificial de cristais de gelo, os pesquisadores ficaram entusiasmados e acreditaram que isso teria potencial para modificar as condições meteorológicas. Schaefer descobriu que se jogasse gelo seco em uma nuvem, ela poderia gerar neve.
Com relação aos furacões, os pesquisadores acreditavam que se jogassem iodeto de prata nas paredes do olho do furacão, calor latente seria liberado. Isso promoveria a formação de um novo olho. Esse segundo olho, maior que o primeiro, faria com que o gradiente de pressão da tempestade (baixa pressão no centro e pressão maior nas vizinhanças) fosse reduzido. Com a redução do gradiente de pressão, a intensidade do vento seria reduzida. E isso, claro, seria benéfico, pois reduziria os danos provocados pela tempestade. Acontece que essa hipótese não ficou bem comprovada, uma vez que muitos que não foram semeados apresentaram esse padrão de “dois olhos”. Fonte: Wikimedia Commons

Claro que o Projeto Stormfury serviu para alguma coisa: serviu para invalidar algumas hipóteses. Sim, nem sempre experimentos científicos funcionam como o esperado. Uma conclusão “negativa” é uma boa conclusão. O projeto também ajudou na compra de equipamentos e aparelhos para que a NOAA pudesse estudar tempestades. Além disso, muitos aviões utilizados durante o projeto ainda prestam serviços a NOAA.

Como a semeadura mostrou-se ineficaz, o Projeto Stormfury foi interrompido na década de 80. No entanto, até hoje algumas empresas usam as técnicas desenvolvidas durante o projeto e as vendem como grandes soluções para regiões secas. Infelizmente, muita gente ganha dinheiro com procedimentos que não foram comprovados cientificamente e isso não é apenas em meteorologia. Quem nunca ouviu falar de homeopatia, por exemplo?

Agora a parte lamentável da coisa: há algum tempo atrás, li que partidários de Hugo Chavez andaram dizendo que o HAARP era uma ‘arma ‘ e foi responsável pelo terremoto do Haiti (é gente, um terremoto…). Pois então, Fidel Castro também disse isso sobre o Projeto Stormfury, muitos anos antes. Aparentemente, Castro acreditava que o projeto visava transformar furacões em armas. Uma grande característica de regimes autoritários é aproveitar-se do desconhecimento da população para lançar rumores. Esses rumores sempre dão a entender que os governantes do país são “bonzinhos” e que o governo está trabalhando para que a população tenha acesso à benefícios. Os rumores muitas vezes também são nacionalistas. Nesses dois casos mencionados, Castro e Chavez quiseram mostrar que um inimigo estaria ameaçando a soberania de seus países.

Mas vamos agora para a ficção científica onde, tudo é possível. Isso é legal :). As leis da física são violadas sem nenhuma dó. Basta inventar um recurso novo, novas leis da física ou uma nova partícula subatômica ou uma explicação paranormal. E fica tudo certo e as pessoas se divertem.

Há diversos episódios de Star Trek em que a modificação do clima é um assunto bastante mencionado. Uma bomba especial pode transformar a vida em um planeta desabitado, como em Star Trek II: The Wrath of Khan (1982). O projeto é liderado pela Dra. Carol Marcus.

A Dra. Carol Marcus aparece no Star Trek- Into Darkness também, jovem, como um interesse romântico de Kirk e eye candy (Lembrando que od filmes novos representam uma realidade alternativa, Nero perturba geral e o planeta Vulcano é destruído) . Em Star Trek II: The Wrath of Khan, ela é mãe do filho de Kirk (dou spoiler sim, dá licença?rs ). O Projeto Gênesis consiste em uma bomba que gera vida em um planeta desabitado, de maneira semelhante a feita por Deus, de acordo com o primeiro livro da Bíblia, o Gênesis.  E claro, para haver vida como a conhecemos, é necessário existir uma atmosfera com composição muito semelhante à da Terra. E podemos dizer que houve uma modificação do clima.

Sempre associamos meteorologia com os impactos que ela tem na vida. Parece até difícil acreditar, mas podemos falar de meteorologia para qualquer planeta do Sistema Solar. A atmosfera marciana, por exemplo, é diferente da nossa, mas lá também há vento (e o vento é muito intenso), faixas com diferentes temperaturas (dependendo da distância dos pólos), etc.  Inclusive alguns estudos apontam que a atmosfera marciana pode ter sido muito parecida com a da Terra. Temos chuvas em mundos extra-terrestres também. Temos grandes tempestades. Dentre outros fenômenos. Sendo assim, a Dra. Carol Marcus modificou a atmosfera de um planeta para que ele pudesse abrigar vida.

A Carol Marcus da linha do tempo 'original'.
A Carol Marcus da linha do tempo ‘original’.

A modificação do clima é citada também em diversos episódios de Star Trek – Nova Geração. Na série, os humanos fundaram diversas colônias em mundos desabitados da federação. Diferentemente das colônias estabelecidas pelos europeus, a Federação é muito cuidadosa e faz um estudo completo do planeta antes de determinar se ele pode ser uma boa colônia. Um mundo já habitado por outra espécie de ser senciente, por exemplo, não pode ser colonizado.  Em algumas situações, equipamentos de controle e modificação do clima são instalados nessas colônias para que o conforto e a atividade dos novos moradores seja possível.

Um episódio bastante interessante, que relaciona “fantasmas” e “controle do clima” é  Sub Rosa, episódio da sétima temporada de  Star Trek – Nova Geração. Nele, uma colônia em um mundo chamado Caldos II é como a Escócia. Os moradores de lá, muitos de origem escocesa, escolheram aquele mundo para viver. Nem todos são escoceses, o que é muito interessante. Maturin, governador da colônia, nem humano é. Não é dito qual sua espécie, mas seu rosto mostra que ele evidentemente não é humano.  Ele visitou a Terra com os pais, quando era criança. Ficou encantado pelas Highlands escocesas e sentiu-se em casa. Decidiu que pertencia àquela cultura. O interessante é que conheço muitas pessoas que já me relataram sensações semelhantes: ficaram encantadas com a cultura de um determinado povo e decidiram mudar para o local onde aquelas pessoas vivem.

Maturin, governador de Caldos II
Maturin, governador de Caldos II

Caldos II usa o sistema de terraformação (ou terraforming), mencionado em diversos episódios de várias séries da franquia Star Trek. No universo trekker, Marte também é uma colônia de seres humanos e também passou pelo processo. Caldos II é um mundo que utiliza um dispositivo de controle do clima. O clima do local é ameno e confortável praticamente o ano todo, bem diferente da Escócia que conhecemos…rs. Há ciclos regulares com chuvas, o que possibilita a atividade agrícola.

A família da Dra. Beverly Crusher é de Caldos. Eles imigraram para aquele mundo há cerca de 200 anos. Sua avó, Felisa Howard acabara de morrer. Beverly vai ao funeral em Caldos II, com a presença de seus amigos mais próximos da Enterprise. Durante o funeral, ela vê um homem misterioso, muito atraente, de cerca de 35-40 anos. O Governador Maturin solicita que a Enterprise fique alguns dias a mais em órbita, pois o dispositivo de controle do clima está com alguns problemas e precisa de uma revisão. Enquanto isso, Beverly cuida das coisas de sua avó e tenta descobrir quem é o estranho misterioso. Ao mexer nos objetos deixados pela avó, Beverly lê alguns de seus diários. Ela descobre então que Dona Felisa Howard, que morreu aos 100 anos, tinha um namorado de cerca de 35-40 anos.

Quem nunca?
Quem nunca?

Bom, o dispositivo de controle do clima começa a funcionar de forma muito irregular. Uma intensa tempestade começa a se avizinhar da vila onde morava Felisa Howard. Esse dispositivo aparentemente tem um alcance impressionante, pois até a Enterprise, que está e órbita no planeta, sofre seus efeitos. Uma névoa toma conta de toda a ponte de comando.


Beverly acaba descobrindo uma relação entre a tempestade e o homem misterioso que esteve no funeral de sua avó. Esse homem – que se apresenta como um fantasma escocês de mais de 800 anos – é na verdade uma forma de vida parasita que tem afinidade com as mulheres do clã Howard. Após a morte de Felisa, ele passa a procurar Beverly.

Bom, eu posso terminar o post com algo bem piegas, do tipo: não existem fantasmas, assim como não existe modificação climática.  Não conseguimos provar a existência de fantasmas (parece que existem algumas tentativas de pesquisas nesse sentido, mas sempre esbarram na teoria e na metodologia, por razões óbvias) e até hoje não conseguimos mostrar uma forma concreta de modificar o clima (com os resultados esperados e que justifique o uso de tantos recursos financeiros). Conseguimos modificar o clima de um ambiente pequeno, usando climatizadores, umidificadores, aquecedores,  etc. Com o aquecimento global inevitável (e que já está acontecendo), vários tomadores de decisão já falam em medidas mitigatórias.  A redução de emissões de gases do efeito estufa é uma delas. No entanto, como o aquecimento é inevitável, talvez a tecnologia na área de “modificação do clima” daqui alguns anos consiga modificar o clima globalmente (ou numa grande área), reduzindo as temperaturas no verão e equilibrando a duração das estações seca e chuvosa.

 P.S.: Acabei de lembrar que escrevi um post sobre um meteorologista que serviu na Enterprise NCC-1701, Karl Jaeger. A Enterprise NCC-1701 é aquela da série clássica. :). Ou seja, há meteorologistas a bordo de naves estelares, pelo menos no universo criado por Roddenbery.