Mas que diacho é essa internet!



Uma colega minha, que é jornalista, certa vez me disse que não gosta de blogueiros. Acho que entendi (mais ou menos) o que ela quis dizer. É uma discussão que de vez enquando ressurge: jornalistas são profissionais da área de comunicação, enquanto alguns blogueiros não agem com esse profissionalismo. Só que isso não é um problema apenas de quem escreve blogs.

Eu gosto da ferramenta blog. Eu não gosto muito do termo blogueira(o), mas acabo utilizando algumas vezes por não ter outro melhor. A ferramenta blog pode ser usada por jornalistas, meteorologistas, empresários, engenheiros, astronautas, padeiros, etc. Um blog é uma forma de comunicação. Acho estranho me rotular como meteorologista e blogueira. Eu sou uma meteorologista que por acaso tem um blog.

Quando escrevemos um texto e o tornamos público, estamos sujeito a todo tipo de avaliação. Estamos expostos e vulneráveis. É possível controlar um pouco essa exposição, minimizando a vulnerabilidade. Por aqui, procuro minimizar a vulnerabilidade tentando escrever posts bons. Quanto melhor possível. Quando dou minha opinião sobre um assunto, estou sujeita a posições contrárias ou favoráveis. Essa semana conversávamos sobre o assunto “cotas”. Eu tentava argumentar com um sujeito que ele estava enganado (basicamente ele dizia que cotas eram uma medida racista, etc). Não vou colocar toda a discussão aqui, mas o sujeito basicamente atendia todos os requisitos dessa reportagem.

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Logo abaixo, após ele ter dito que era contra as cotas porque elas eram uma medida racista, decidi entrar na conversa:

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Depois disso, não participei mais da discussão. Não vale a pena discutir com quem não sabe nem argumentar seus pontos de vista.

O que quero dizer? Se você quiser expor suas ideias na internet, esteja preparado para todo tipo de criatura que irá aparecer. É como uma viagem a Narnia. Você vai encontrar faunos e castores bacanas. Com sorte, você vê até Aslan. Mas também vai encontrar todo tipo de criaturinha desagradável.Você vai encontrar gente que vai ascrescentar na sua vida, que vai saber trocar ideias bacanas. Que vai te respeitar, que vai respeitar o próximo e que vai tentar raciocinar sobre a origem dos problemas do mundo. Por outro lado, vai encontrar gente com discurso retrógrafo, com ideias ultrapassadas e que se considera dona da verdade.

Honestamente, nem é preciso expor as ideias na internet para perceber que parece Narnia. Se você apenas gosta de ler, mas não tem interesse em começar um blog, já deve ter notado a enorme quantidade de chorume internético, assim como já teve acesso a material de boa qualidade.

Certamente já deve ter encontrado também muita gente que fala daquilo que não conhece direito (e nem tem vontade de conhecer). Ontem eu falava sobre esses portais de notícias falsas (veja aqui) e acabei encontrando um site que me pareceu um daqueles agregadores de conteúdo, que existem na internet apenas com o objetivo de gerar views (e consequentemente, dinheiro com publicidade).  Parace também que é um site vinculado a algum preparatório de concursos públicos, não entendi muito bem.  O site tinha copiado integralmente a ‘notícia’ do furacão (veja aqui). A única modificação foi o fato de usarem outra imagem para ilustrar a ‘notícia’:

um tornado. errado de novo.
Um tornado. Errado de novo.

Um tornado! Pois é, errado de novo. Até achei graça porque essa imagem é usada por um colega meu, Mario Festa, em suas apresentações sobre meteorologia. Ele apresenta a imagem no exato momento em que fala sobre tornados.

Para piorar, o mesmo site possui um guia de como se defender de um furacão. O autor do post diz que são dicas da Defesa Civil, mas não vi nenhum link para verificar. Ele começa o post com alguns problemas:

Um furacão ou tornado São redemoinhos de vento formados na baixa atmosfera, apresentando-se com características de nuvens escuras, de formatos afunilados, semelhantes a uma tuba, que descem até tocar a superfície da terra, com grande velocidade de rotação e forte sucção, destruindo em sua trajetória grande quantidade de edificações, árvores e outros equipamentos do território.

O tornado supera a violência do furacão, mas sua duração é menor e a área afetada é de menor extensão.

Tornados e furacões são fenômenos diferentes, com escala temporal e espacial diferentes e com locais de formação diferentes. Além disso, é difícil saber qual é mais destrutivo, uma vez que depende do tornado e depende do furacão. Depende da área onde o fenômeno ocorre (se é povoada ou não, se foi evacuada, se os edifícios são resistentes, etc). Enfim, não dá para dizer qual fenômeno é o mais forte, pois cada caso é um caso. Não dá pra fazer um Supertrunfo aqui.

O autor continua dando dicas de segurança e de como agir diante de tornados. Parece que ele decide

Em seguida, o autor continua o texto e parece que ele decidiu que vai falar sobre tornados. Ele prossegue dando algumas dicas muito úteis, realmente. Fiquei desconfiada e descobri que ele copiou o texto inteiro do site da Defesa Civil. No site da Defesa Civil de Jaraguá do Sul – SC, as mesmas informações são divulgadas (as mesmas, igualzinho, o autor copiou e colou tudo). Tornados costumam acontecer na Região Sul do Brasil, por isso esse texto é divulgado no site da Defesa Civil deste município. Se vocês fizerem uma busca, vão observar que esse texto é divulgado em sites da Defesa Civil de diversos municípios brasileiros, pois trata-se de uma informação padronizada para prevenir e mitigar danos associados aos tornados.

Acabei misturando dois assuntos nesse post. É normal, sei que linearidade não é muito o meu forte. Mas o que eu quero dizer é:

– Estamos sujeitos à muitas coisas na internet: gente que não sabe discutir, trolls, stalkers, gente que copia textos, etc

– Não importa se você cria ou não conteúdo: vocẽ vai se deparar com essas coisas. E sim, provavelmente você vai ficar revoltada.

– No entanto, ainda vale o risco. Aprender coisas novas, aprofundar conhecimentos e conhecer gente interessante são coisas que deixam qualquer pessoa feliz.