Relâmpago do Catatumbo: o que é isso?



Estima-se que cerca de 3 milhões de raios atinjam a Terra por dia. Fazendo as contas rapidamente,  são cerca de 3,15 bilhões de raios por ano. Só no Brasil, são de 50-100 milhões de raios por ano (a quantidade de raios varia de acordo com a fonte). Sendo assim, seriam 30 raios por segundo. A região mais atingida por raios são os trópicos. Nos trópicos, temos mais calor e umidade, essenciais para a formação de nuvens de tempestade.

Ano passado, publiquei um post dedicado ao tema. No post, apresento noções gerais do que são raios, relâmpagos e trovões.  O post certamente é um guia sem pretensões para quem pretende apresentar o tema aos seus alunos ou aos seus filhos. Também é uma referência para trabalhos escolares. Além desse post, escrevi um com informações de segurança durante tempestades. Vale a pena conferir.

Mas vamos voltar a falar em números. Números chamam a atenção (meteorologistas adoram números) e ajudam a compreender algumas características de certos fenômenos. A cidade de El Bagre, na Colômbia apresenta em média 270 dias com relâmpagos por ano.  El Bagre fica bem próxima à  linha do Equador, numa região do planeta que sofre a influência da Zona de Convergência Intertropical, região em que os ventos alíseos de sul e de norte se encontram, gerando movimento ascendente que favorece a formação de nuvens. Uso a cidade de El Bagre aqui como exemplo, de cidade tropical com grande quantidade de raios por ano. Outras cidades tropicais que também se destacam pela grande quantidade de descargas elétricas são:

– Tororo, Uganda: 251 dias com o fenômeno;

– Bogor, Java, Indonésia: 223 dias.

E o Brasil? O Brasil é um país com a maior parte do território dentro da região tropical  (com exceção dos Estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, norte do Paraná e sul de São Paulo):

mapa-br

Alguns municípios brasileiros destacam-se pela grande quantidade de descargas elétricas que os atingem. O ELAT-INPE possui uma lista com a quantidade de raios por município. Para consultá-la, clique aqui. Além disso, é possível navegar por um mapinha interativo (clique aqui e escolha a aba “Ranking”). Nesse mapa, você pode ver a localização da cidade e a quantidade de descargas por ano e por km². Ou seja: os pesquisadores pegam a quantidade anual de descargas que atingem uma determinada cidade em 1 ano e dividem pela área total daquela cidade (em km²). Em um levantamento feito em 2011, Porto Real (RJ) aparecia em primeiro lugar no ranking geral, com densidade de 27 raios por km² por ano, seguida por São Caetano do Sul (SP) com 23 raios por km² por ano.

A área do Brasil é de 8.514.876,599 km² e nosso país é atingido por cerca de 57,8 milhões de raios por ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A República Democrática do Congo é o segundo país nessa lista, com aproximadamente 42,2 milhões de raios  registrados por ano. Mas a área do território da República Democrático do Congo é de 2.344.858 km². Supondo que os raios fossem distribuídos igualmente no território desses países, teríamos:

– Brasil: aproximadamente 6,8 raios/km²

– República Democrática do Congo: aproximadamente 18 raios/km²

Ou seja, em termos de densidade (quando a gente divide pela área da cidade ou do país), a República Democrática do Congo apresenta maior densidade de descargas atmosféricas que o Brasil. No entanto, o Brasil possui mais raios (se levarmos em conta o total absoluto).

Após ter dado essa introdução maior do que eu esperava, vamos ao título do post.  Na região do Lago Maracaibo, na foz do Rio Catatumbo, rio localizado na Venezuela, ocorre um fenômeno muito curioso. São raios e relâmpagos muito intensos, localizados em uma região relativamente pequena (que é a foz deste rio). Esses relâmpagos são observados 140-160 dias por ano e normalmente ocorrem durante a noite. Em alguns casos, são 10h seguidas de atividade elétrica!


Visualizar Lake Maracaibo em um mapa maior

Quem mora em regiões tropicais sabe que essas tempestades de verão que normalmente estão associadas à relâmpagos duram pouco, cerca de 2h. Imaginem 10h de relâmpagos, com impressionantes clarões no céu. Os moradores da região nem precisam gastar dinheiro com os fogos de artifício de fim de ano.

Relâmpago de Catatumbo, na Venezuela. Foto de 19 de Agosto de 2008. Fonte: Wikimedia Commons
Relâmpago do Catatumbo, na Venezuela. Foto de 19 de Agosto de 2008. Fonte: Wikimedia Commons

 O ozônio (O3) é um gás presente na estratosfera, que compõe a chamada “camada” de ozônio. No entanto, temos ozônio na troposfera também. Na troposfera, o ozônio é um poluente muito oxidante, que irrita as mucosas, estraga vegetação e edifícios, etc.  Para vocês terem uma ideia de como o ozônio pode danificar algumas plantas, certas espécies de vegetais são usadas como bioindicadores, para ajudar a determinar a quantidade de ozônio presente na troposfera. Para que o ozônio troposférico se forme, é necessário que exista luz, para que ocorram as formações fotoquímicas. Não vou entrar em detalhes, mas quem quiser saber mais pode ler a seção 2.2.4.5.1 (pg 11) da dissertação de mestrado da Juliana Dallarosa. A atividade elétrica da atmosfera e a presença de óxidos de nitrogênio favorecem a formação de ozônio troposférico. E é aí que eu quero chegar: a quantidade de relâmpagos na foz do Rio Catatumbo é tão grande que é a região que mais produz ozônio troposférico no mundo.

Entre Janeiro e Abril de 2010, a região enfrentou uma grande seca. Foram meses sem ver o Relâmpago Catatumbo. Alguns acreditaram que o fenômeno tivesse se extinguido para sempre. Para a alegria dos turistas, o fenômeno re-apareceu meses depois. Talvez alguns ainda se lembrem , mas 2010 foi um ano bem difícil para a Região Amazônica e áreas vizinhas. A seca foi muito intensa por lá. Alguns especialistas afirmam ter sido a pior seca em 100 anos.

Garoto caminha no leito seco do Rio Negro, durante a seca de 2010. Fonte: G1.
Garoto caminha no leito seco do Rio Negro, durante a seca de 2010. Fonte: G1.

 

Felizmente a seca passou e o Relâmpago do Catatumbo pode ser visto mais vezes. De acordo com os meteorologistas, o encontro de ventos frios que sobram dos Andes e ventos quentes e úmidos que sopram da planície inundada pelo Rio Catatumbo favorece na formação das tempestades. Como a região é um pântano, matéria orgânica libera gases, principalmente o metano. Esses gases ionizam o ar, favorecendo na formação das descargas atmosféricas. A ionização deixa as descargas mais intensas e mais brilhantes. O vídeo abaixo, feito na região, mostra esse lindo espetáculo:

 A região virou uma espécie de ponto turístico para os amantes de tempestades. Por todo mundo, existem grupos de “caçadores de tempestades” ou “storm chasers”. Essas pessoas são aficionadas por tempestades. Alguns arriscam a própria vida para conseguir imagens de descargas elétricas, tornados, etc. Um desses caçadores relata uma viagem que fez para a região, em outubro de 2009. Ele conseguiu essa imagem interessante, mostrando um raio com tonalidade alaranjada. A coloração das descargas elétricas tem a ver também com o tipo de poluente encontrado na atmosfera. Provavelmente o tom alaranjado tem alguma relação com a elevada concentração de metano:

Foto de George Couronis, em outubro/2009
Foto de George Kouronis, em outubro/2009

O pesquisador Angel Muñoz, da Universidad del Zulia, acredita que uma substância chamada querogênio pode ter um importante papel na formação das impressionantes e duradoras descargas elétricas na foz do Catatumbo. O substrato do lago Maracaibo é rico em depósitos de petróleo. Além do metano liberado pela decomposição da matéria orgânica nos pântanos, gases do substrato do lago podem vazar e aumentar a ionização do ar. Isso explicaria porquê a quantidade de relâmpagos na região aumenta quando ocorrem terremotos na região. Os terremotos poderiam favorecer no vazamento do metano preso no fundo do lago.

 Leia Mais em:

Wikipedia

The Guardian