A Ciência em Star Trek – Treknology



Eu tenho um livro muito bom que ganhei há alguns anos da minha amiga  Bela: The Physics of Star Trek. Já mencionei brevemente esse livro aqui e ainda não fiz uma resenha porque li bem antes de começar esse bloguinho, mas eu falarei mais sobre ele em posts futuros.

A Física de Star Trek, de Lawrence M. Krauss. AO prólogo é escrito por Stephen Hawking (que participou de um episódio de Star Trek: TNG, onde  joga poker com Data, Isaac Newton e Albert Einstein).
A Física de Star Trek, de Lawrence M. Krauss. O prefácio é escrito por Stephen Hawking (que participou de um episódio de Star Trek: TNG, onde joga poker com Data, Isaac Newton e Albert Einstein).

Ah sim, o escritor de The Physics of Star Trek, Lawrence M. Krauss é físico, um dos pioneiros na pesquisa da matéria escura e um conhecido popularizador da ciência. Também defende a separação entre ciência e religião. Um sujeito fantástico! The Physics of Star Trek aborda os conceitos físicos empregados em Star Trek e explora as possibilidades de termos um dia aquilo que vemos nas séries e nos filmes da franquia. Recomendo o livro. Foi publicado há alguns anos em português também,  pela Makron Books.

Pois então, lembrei desse livro que li há algum tempo depois que a Sybylla recomendou esse post, com imagens de uma matéria do Space.com. A matéria é  “Inside the Science of Fictional Treknology”. A matéria não deixa de ser um resumo de  alguns pontos de The Physics of Star Trek, pois ilustra as principais tecnologias que nós trekkers (ou trekkies, para não confundir que gosta de praticar caminhada – no meu caso gosto das duas coisas rs) gostaríamos de ver por aí.

Quem é fã de ficção científica sempre imagina se os avanços tecnológicos imaginados no filme/livro/série um dia existirão na vida real.

Os fãs de Star Trek alimentam seus sonhos com velocidade de dobra, teletransporte, phasers, sintetizadores de alimentos (já pensou acabar com a fome da humanidade e eliminar qualquer custo para a produção de alimentos?), etc.

Se eu pudesse escolher uma invenção do universo Star Trek para que se existisse no mundo real, magicamente, eu certamente escolheria o sintetizador de alimentos.

Tem a ver o que eu dizia outro dia: os fãs de Star Trek quase acreditam que a coisa toda é real (porque desejamos que seja). rs

A maioria das séries e filmes de ficção científicas possuem um consultor da área de ciências. A prática mostra que não dá para ser muito fiel aos elementos científicos. O filme 2001 – Uma odisséia no espaço, por exemplo, é muito coerente cientificamente falando, mas é muito cansativo e entediante para alguns (incluam-me aqui, por favor). Apesar de apreciar a obra de Kubrick e apreciar o excelente trabalho em 2001, o filme é chato para os meus padrões (pronto, dei minha opinião insignificante e se algum fã do cineasta aparecer por aqui, tchau, bjs).

Eu digo que não dá para ser totalmente fiel as leis da física porque elas limitam a criatividade. O Universo dediciu colocar uma placa de limite de velocidade, impedindo que você viaje a velocidades superiores a velocidade da luz (na real: acelerar até a velocidade da luz já é muito complicado). Esse limite de velocidade torna qualquer viagem interestelar muito complicada. Imagine que o exoplaneta HD 189733b (onde chove vidro) está localizado a 63 anos-luz da Terra. Se pudéssemos viajar na velocidade da luz, uma nave demoraria 63 anos para chegar até lá. Os astronautas envelheceriam e ficariam entediados. Chegando no planeta, poderiam improvisar uma bengala de vidro.  É por essa razão que os escritores de ficção científica precisam inventar alguma forma de chegar a lugares distantes. Vou dar três exemplos clássicos:

1) Portal, buraco de minhoca

Em Star Gate, usam um portal, um buraco de minhoca provavelmente, para viajar entre mundos. No livro Genesis, de J. Edwards (da Exo Novella Series), o mesmo acontece. Genesis é uma nave (e temos uma capitã, oba \o/) que levará a tripulação até o planeta Gliese 581c. Um wormhole (ou buraco de minhoca) é construído para facilitar a viagem, uma vez que a estrela Gliese 581 está localizada a cerca de 20,5 anos-luz da Terra.

Em Star Trek mesmo o buraco de minhoca aparece. Em Star Trek- DS9 temos uma estação espacial que está localizada em um local estratégico, perto do recém descoberto buraco de minhoca Bajoriano. Esse buraco permite que se chegue ao Quadrante Gama mais rapidamente.

Via-Láctea dividida em quadrantes, de acordo com a série Star Trek. A Terra estaria entre os quadrantes alfa e beta. Fonte: Wikimedia Commons
Via-Láctea dividida em quadrantes, de acordo com a série Star Trek. A Terra estaria entre os quadrantes alfa e beta. Fonte: Wikimedia Commons

Várias séries e livros usam o buraco de minhoca para justificar viagens espaciais muito longas. A verdade é que atualmente o conceito é ainda teórico. Aparece nas equações, mas nunca foi observado no universo ou criado artificialmente. Os escritores aproveitam-se desse conceito e aplicam sua criatividade. Simplesmente fantástica essa união entre ciência e ficção que não por acaso chamamos de ficção científica.

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Buracos de Minhoca. Fonte: thegalaxycluster.tumblr.com – Space.com

E em outra série que adoro, os wormholes são criados artificialmente pela astúcia de Quinn Mallory. Claro que estou falando de Sliders (série que permito que falem mal apenas após a terceira temporada rs).

2) Velocidade de Dobra

Em Star Trek, usam a velocidade de dobra. Resumidamente, enquanto a nave se desloca,  existe um mecanismo que permite que as linhas do espaço fiquem mais próximas umas das outras na frente da nave e por continuidade as linhas de espaço ficam mais distantes atrás da nave.

A analogia que fazem é: imagine uma formiga que se desloca por uma tira de papel de 20cm. Ela precisa percorrer 20cm, do ponto A até o ponto B.  Se eu dobrar a folha de modo a aproximar os pontos A e B (mas sem uni-los), a formiga não terá alternativa e terá que fazer o que fazia antes: ela terá que percorrer os 20cm na folha. A formiga é capaz de se mover apenas no espaço bidimensional, que é a folha de papel. Nessa configuração, um mosquito poderia ir do ponto A até o ponto B mais rapidamente (pois ele é capaz de se mover no espaço tridimensional).

Como não sou física, não me arrisco a falar muito mais do que isso. Eu teria que falar de Teoria da Relatividade (o que aprendi com muita dificuldade em Física 2 – e olha que era apenas o básico). Por isso recomendo esse link do ótimo HSW que explica um pouco melhor o conceito.

Na teoria da Dobra Espacial (há cientistas estudando a probabilidade disso, são Cochrane e Alcubierre), a nave seria envolta por uma bolha de "espaço normal". Na frente da nave, as linhas do espaço ficariam comprimidas e atrás dele, elas ficariam espaçadas. Fonte: Wikimedia Commons
Na teoria da Dobra Espacial (há cientistas estudando a probabilidade disso, são Cochrane – risos- e Alcubierre), a nave seria envolta por uma bolha de “espaço normal”. Na frente da nave, as linhas do espaço ficariam comprimidas e atrás dele, elas ficariam espaçadas. Fonte: Wikimedia Commons
Velocidade de Dobra: Como Funciona. Fonte: Space.com
Velocidade de Dobra: Como Funciona. Fonte: thegalaxycluster.tumblr.com – Space.com
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Velocidade de Dobra e correlação com a velocidade da luz. Fonte: thegalaxycluster.tumblr.com – Space.com

 

Como a dobra espacial faz com que o espaço seja “dobrado”, no cálculo da velocidade, teremos uma velocidade aparente muito maior que a da luz. A tabela acima, que veio daqui, mostra a relação com a velocidade da luz. E mostra também que Roddenberry e sua equipe não foram o primeiro a pensar na possibilidade de viagens muito mais rápidas que a da luz. E.E. Smith, escritor de ficção científica da primeira metade do século XX, criou essa possibilidade em sua série Skylark of Space.

3) Estase, hibernação.

Os fãs de Kubrick certamente sabem do que estou falando. Em 2001: A Space Odyssey (1968), os cientistas estão em uma nave a caminho de Júpiter.  Como eles não viajam em dobra e nem há um buraco de minhoca, a viagem está prevista para demorar vários meses. Os cientistas estão em hibernação criogênicas, dentro de câmeras.

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Câmera de hibernação de 2001.

Os fãs da ótima série Perdidos no Espaço (cujo filme de 1998 me causa vergonha alheia até hoje: eles tinham uma bela possibilidade nas mãos e deu tudo errado, é como deixar o chocolate  Talento Dark cair no chão cheio de micróbios). Tá, no filme de 1998 eles também exploram os buracos de minhoca, falando em hypergate. Então eles misturam duas formas de viajar no espaço. Se eu não me engano, na série original (da década de 1960) não falam em hypergate.

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Alguns acreditam que a hibernação poderá ser utilizada em viagens para Marte, por exemplo.

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Mesmo sendo fruto da criatividade e da imaginação, um conhecimento em ciências pode ajudar a justificar as elucubrações. Em Star Trek – TNG (a série da franquia que mais acompanhei) temos Nareen Shankar, que possui diplomas de Física e Engenharia, que atuou consultor científico dos roteiristas. Shankar também contribuiu com outra série que adoro: CSI – Crime Scene Investigation (ok, gosto apenas das primeiras temporadas rs). Ele e outros profissionais usaram reais descobertas científicas para justificar o universo Star Trek.

Vamos ao link que a linda Sybylla compartilhou. Descaradamente, destacarei algumas imagens e colocarei aqui.

Tem tudo a ver o que eu dizia outro dia: os fãs de Star Trek quase acreditam que a coisa toda é real (porque desejamos que seja). Eu quero que todas essas coisas sejam reais. Ah sim, de acordo com o Universo Star Trek, Zefran Cochrane, inventor do motor de dobra espacial, teria nascido em 2013 (ok, há uma pequena inconsistência aqui, pois alguns dizem que ele teria nascido em 2030, mas enfim…rs). Bom, se foi em 2013, Cochrane nasceu este ano (é, a gente quer mesmo que seja verdade rs). O fato é que os governos precisam investir em educação e cultura, para que as crianças que nascem todos os dias possam desenvolver seus talentos nas mais diversas áreas, para quem sabe a humanidade consiga desenvolver sintetizadores de alimentos, motores de dobra espacial e principalmente: para que evoluamos e aprendamos a respeitar nossos semelhantes.

[para fechar o post na mesma vibe do parágrafo acima, convido todos a ouvirem a linda música Sal da Terra, de Beto Guedes]