Depois não querem que eu fale mal da Veja



Eu já falei mal dessa revista várias vezes aqui (aqui por exemplo). Eu sinceramente queria ter coragem e descortesia o suficiente para dizer: não, não vou atender vocês.

A última foi lamentável. Eles me entrevistaram por telefone, perguntando sobre o frio  nos EUA. Fiquei horas falando sobre o inverno no local, falando que o Vórtice Polar era um padrão normal da nossa atmosfera, falei que uma interessante característica da América do Norte (e do Hemisfério Norte como um todo) é que há mais continente do que oceano. Falei que as correntes oceânicas distribuem o calor pela superfície da Terra. Falei que o vórtice sempre está lá, mas que intensifica-se no inverno o que assim favorecem o deslocamento de massas de ar frio (explicação bem simplificada).

Eu juro que falei tudo isso. Ainda tive que ouvir uma repórter questionando se não existia nada “anormal”. Porque parece que a galera ficou pirada com a animação do Washington Post:

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Meu nome é Vórtice Polar e eu saí correndo do Pólo Norte. Claro que a figura do Washington Post está bem errada.

Expliquei tudo, dentro de minhas limitações, claro. Ela poderia ter falado com outro especialista também, como muitos repórteres fazem. Daí que o resultado de minha conversa com a repórter da Veja é este. Onde eu sou uma louca que diz, dentre outras incongruências.

“As baixas temperaturas são uma combinação de diversos fatores como as massas de ar frio, latitudes e a divisão de águas entre os continentes.”

Sim gente, como bem disse o @melts10:

“Neste momento descobrimos que Moises é um forte candidato contra o aquecimento global!”

Mudando o clima da galera. Até nevou no Egito.
Mudando o clima da galera. Até nevou no Egito.

Estou muito chateada. Sempre que essas coisas acontecem, tenho medo de minha reputação como meteorologista ser abalada. Minha área é pequena, muita gente se conhece. O mundinho da meteorologia é meio cruel: se você queima o filme em um lugar, é provável que várias pessoas logo fiquem sabendo. Além disso, rola muita competição em alguns círculos, muita desunião. Muita gente não conhece meu trabalho para me julgar de outra forma, mas vai ver minhas palavras na Veja, que é uma revista famosa. Daí eu sou a louca da divisão de águas.

E que matéria mal escrita.

Acontece que esses jornalistas são pressionados a escreverem correndo, porque a notícia precisa ser entregue “em primeira mão”, e as reportagens saem assim, horríveis. Não há tempo de pesquisar melhor, de conversar novamente com o profissional para tirar dúvidas, de ligar para outro profissional para ouvir o assunto sob outro ponto de vista, etc.

Hoje um outro reporter veio me entrevistar. O assunto é índice UV. Já sou normalmente insegura. Espero que eu não fique com cara de louca, que minha explicação saia boa e que a edição não acabe com minhas palavras.