O frio intenso nos Estados Unidos tem algo a ver com as mudanças climáticas?



Nos Estados Unidos há um forte movimento (incentivado pela imprensa e grandes empresários do ramo petrolífero) que tem como objetivo desacreditar o aquecimento global. Desacreditam os modelos meteorológicos, fazem pouco das simulações e espalham a ignorância científica pela população.

Nos últimos dias, o mundo dividiu-se em duas pessoas:

Tipo 1: Pessoas que usaram esse mesmo argumento e disseram que na verdade ele é uma evidência das mudanças climáticas.

Tipo 2: Pessoas que alegaram ter um grande argumento contra o aquecimento global. Um argumento que, segundo eles, derrubaria de vez as tais mudanças climáticas. Trata-se do frio intenso nos Estados Unidos. Segundo esses disseminadores da ignorância, o frio intenso prova que o aquecimento global é uma mentira.

Meu amigo João Dias compartilhou esse interessante link. E eu não poderia concordar mais: um evento individual (ou seja, essa onda de frio especificamente) não diz nada sobre o aquecimento global.  Esse único evento não corrobora e nem coloca em cheque o aquecimento global.

Para comentar esse artigo que meu amigo compartilhou, vou falar das duas visões (Tipo 1 e Tipo 2) separadamente. Esse post vai ser longo, prepare-se.

  • Comentando o Tipo 1:

O autor do texto que meu amigo compartilhou inclusive destaca duas manchetes sensacionalistas que apresentam a visão do Tipo 2. Vou colocá-las aqui para vocês lerem:

takeaway

 

 

climatecentral

Leia as reportagens associadas às manchetes acima aqui e aqui.  O grande problema com essas reportagens é que elas atribuem a onda de frio nos EUA ao aquecimento global. Com o aquecimento global, mais eventos extremos podem ocorrer, de acordo com as pesquisas. Esses eventos extremos podem ser ondas de frio, furacões muito intensos, tempestades mais intensas, etc. No entanto, não pode atribuir um único evento ao aquecimento global. Além disso, é inverno nos EUA e ondas de frio são esperadas. Há informações de que seria a onda de frio mais intensa dos últimos 15 ou 20 anos, só que variabilidade entre a mesma estação do ano em diferentes anos são esperadas. Por exemplo, aqui no Brasil notamos que existem anos com verões menos ou mais quentes e chuvosos do que outros anos.  Existem diversos ciclos que podem explicar essas variabilidades  (manchas solar, El Niño, La Niña, etc). Não vou entrar em detalhes do que pode explicar este episódio de frio porque realmente não sei. O que sei, como já devo ter me repetido várias vezes, é que esse episódio em si não pode corroborar ou destruir com as evidências do aquecimento global.

A revista Time ainda destacou:

“Global warming is sometimes thought of more as “global weirding,” with all manner of complex disruptions occurring over time. This week’s events show that climate change is almost certainly screwing with weather patterns ways that go beyond mere increases in temperature—meaning that you’d be smart to hold onto those winter coats for a while longer.” “O aquecimento global é às vezes visto como um “esquisitamento global, com todas as formas de perturbações ocorrendo ao longo do tempo. Os eventos dessa semana mostram que o aquecimento global está quase certamente prejudicando os padrões meteorológicos, muito além de meros aumentos na temperatura – o que significa que você deve manter aqueles casacos de inverno com você por muito tempo”

[o esquisitamento fica por minha conta rs]

Num primeiro momento, essas sugestões não fazem muito sentido. Se a temperatura está aumentando devido a emissão de gases de efeito estufa, deveríamos na verdade esperar menos ondas de calor, não?

Só que algumas pesquisas  trouxeram uma hipótese interessante: com o aquecimento polar, um padrão global de circulação atmosférica chamado corrente de jato ficara mais fraco, o que resultaria em mais ondulações. Para vocês entenderem a localização das correntes de jato, deixo a figura abaixo:

jetstream

Na figura acima, as linhas grossas onduladas cor-de-rosa mostram a corrente de jato subtropical e as linhas grossas onduladas azuis mostram a corrente de jato polar. Percebam que são padrões presentes nos dois hemisférios e sempre estão aí, são uma característica permanente da nossa atmosfera. Normalmente, essas correntes ganham força em um determinado hemisfério, quando é inverno nesse hemisfério. É uma das coisas que ajuda a explicar o aumento da frequência de frentes frias, mas isso é explicação para outro post.

Dica: a figura acima foi retirada do ótimo Physical Geography.

A grosso modo, as correntes de jato (subtropical e polar) tem relação com o transporte das massas de ar frio para latitudes mais baixas (perto da linha do Equador). No entanto, outro trabalho recente mostra que não há evidência observacional para essa hipótese.

O IPCC, grupo multidisciplinar de cientistas que estudam as mudanças climáticas e elaboram relatórios para os tomadores de decisão, estimam os impactos do aumento de gases estufa.  Uma das conclusões desses cientistas foi:

“É provável que ocorra uma diminuição na frequência de ondas de frio (períodos de frio intenso que duram até uma semana) na maior parte do Hemisfério Norte”

Quando é dito que vai ocorrer uma diminuição na frequência das ondas de frio, não significa que elas vão deixar de existir. É por isso que essa onda de frio está sendo tão comentada, justamente porque pode representar algo que está ficando cada vez mais incomum.

Pesquisadores da NOAA (Dica 2: Quando o assunto for meteorologia nos EUA, sempre olhem o site da NOAA, verifiquem os boletins dados por eles. Não confiem apenas nas informações dadas por sites de notícias), agência americana que monitora o oceano e a atmosfera, fizeram um levantamento de extremos de temperatura mínima entre os meses de dezembro e fevereiro, usando dados de 1911 até 2013. Como fizeram esse levantamento? Provavelmente pegaram dados de temperatura mínima várias estações meteorológicas e compararam com a média climatológica. As barras vermelhas representam a porcentagem de episódios de temperatura mínima acima da média e as barras azuis representam a porcentagem de episódios de temperatura abaixo da média climatológica. Há uma tendência de que episódios de temperatura mínima acima da média fiquem mais comuns que episódios com temperatura abaixo da média.

 

multigraph

Curiosidade: há alguns anos, uma colega minha apresentou um trabalho bem interessante em um congresso (veja aqui). A Amanda e seu orientador, Prof. Tércio Ambrizzi, concluiram que as temperaturas mínimas também tem tendência de aumento aqui em São Paulo-SP. Ou seja, madrugadas frias estão ficando incomuns mesmo no inverno (quando evidentemente são esperadas). Um dos gráficos dos boletins da Estação Meteorológica do IAG-USP indicam a mesma coisa:

Médias anuais de temperatura mínima para a Estação Meteorológica do IAG-USP (linha azul). A linha preta indica a tendência, claramente de aumento (cerca de 2,2°C de aumento, desde 1933 até 2012). As linhas laranjas indicam o desvio padrão das médias anuais. Cortesia da Estação Meteorológica do IAG-USP
Médias anuais de temperatura mínima para a Estação Meteorológica do IAG-USP (linha azul). A linha preta indica a tendência, claramente de aumento (cerca de 2,2°C de aumento, desde 1933 até 2012). As linhas laranjas indicam o desvio padrão das médias anuais. Cortesia da Estação Meteorológica do IAG-USP

 Um adendo: o comentário do Toshio para esse post me fez lembrar que esqueci de mencionar aqui algo importatíssimo! O trabalho da Amanda e o  gráfico acima, da Estação Meteorológica do IAG-USP, representam apenas a cidade de São Paulo. A cidade de São Paulo passou por um processo de urbanização intenso. Imaginem que em 1933, quase não haviam vias asfaltadas, prédios e os veículos eram muito poucos. O concreto, absorve muita radiação solar. As grandes metrópoles passaram a ter temperaturas mais quentes do que as áreas vizinhas que são menos urbanizadas. É o fenômeno da ilha de calor. E sobre a pergunta que o Toshio fez: vou escrever um post a respeito (vou precisar pesquisar mais antes disso).

 

  • Comentando o Tipo 2:

Acho que para mim é o tipo mais sem vergonha. Os comentários do Tipo 1 muitas vezes agem com boa intenção e até tentam apresentar alguma base científica, citando artigos de periódicos sérios. E dentro do Tipo 1 tem muita gente bem intencionada, inclusive ambientalistas sérios. Normalmente, o Tipo 1 é aquela pessoa que quando conhece os argumentos, passa a entender melhor o que é o aquecimento global.

Já os do Tipo 2 na maioria das vezes possuem interesses escusos em suas afirmações. Possuem interesse econômico na exploração de petróleo, na construção de casas e condomínios luxuosos (e claro, sem nenhuma preocupação ambiental), etc.

O Tipo 2 tem dinheiro. E dinheiro compra influência também. O negócio é tão sério que Fox News sugeriu que na verdade estamos entrando num resfriamento global. Nem é preciso dizer que a Fox tem interesse que esse tipo de informação seja divulgada.

Daí o Donald Trump, que frequentemente defeca pela boca, disse no twitter:

“Esta m**** cara de Aquecimento Global tem que parar. Nosso planeta está congelando, temperaturas baixas recordes e nossos cientistas do aquecimento global estão presos no gelo”

Essa frase irônica, grosseira e muito mal construída certamente tem lá seus admiradores. Muita gente deve concordar com ele. Reparem que esse fenômeno de gente que fala do que não sabe não é restrito ao Brasil. Todo mundo quer dar sua opinião sobre medicina, meteorologia, economia, política, etc. Acontece que o Donaldo Trump não está num boteco com os amigos (e mesmo se estivesse, meu pai me ensinou a não dar opinião sobre o que não conheço). Donald Trump, além de empresário influente, aparece muito na mídia. Ele tem seguidores, influencia a vida das pessoas. Quando você é uma personalidade pública, tem que tomar mais cuidado ainda com o que fala.

Mas acontece que eu não sou tão ingênua assim. Fiz uma pesquisa muito rápida e descobri que este senhor gosta muito de petróleo. Abaixo, algumas das frases atribuídas a ele:

  • No Cap-and-Tax: oil is this country’s lifeblood. (Dec 2011)
  • Jobs will slump until our lifeblood–oil–is cheap again. (Dec 2011)
  • Enough natural gas in Marcellus Shale for 110 year supply. (Dec 2011)
  • Libya: No oil, no support; no exceptions. (Dec 2011)
  • It’s incredible how slowly we’re drilling for oil. (Mar 2011)

A exploração de petróleo sempre está associada a grandes riquezas e desigualdade social. No mundo de hoje, acho que todos os grandes milionários investem nesse setor. Aqui no Brasil, nem preciso mencionar Eike Batista.

Eu fico tão revoltada com essas coisas. O homem é rico e famoso e usa sua influência para distorcer informações e transmitir ignorância. Quem concorda com ele, muitas vezes nem pensa sobre os objetivos escusos do sujeito.

Ah sim, o bônus: David Trump também já fez comentários  racistas . Eu estou destacando isso pois dia após dia percebo que certas coisas andam lado a lado. O twitter do cara é um festival de aberrações.

O aquecimento global vai ocorrer ao longo desse século e só pode ser determinado estatisticamente e com o uso de modelos climáticos que representam a física da atmosfera, uma vez que há muita variabilidade no tempo e no clima. Um evento sozinho não pode provar nada. Como o Prof. Alexandre Costa sempre deixa claro, o aquecimento real vai ser no futuro. A gente não consegue ver o aquecimento acontecer porque ele é gradual.

Além disso, a própria turma do Trump não está levando em consideração que está acontecendo em outras áreas dos EUA. Enquando o nordesde dos EUA enfrentam condições de frio estremo, com nevascas e uma série de transtornos, o oeste do país enfrenta um inverno com temperaturas acima da média, como bem pontou o autor desse texto. A Califórnia, por exemplo, desde o final de dezembro/2013 enfrenta um tempo seco e quente, o que ajuda a iniciar e propagar incêndios florestais.