Os Casarões da Avenida Paulista



Eu recebi um calendário de 2014 do Banco do Brasil e no verso do calendário há uma arte interessante, com a silhueta dos monumentos e construções mais famosos do Brasil (ok, o Pão de Açúcar, capoeira e tuiuiú não são exatamente monumentos, mas também estão lá). Observei que os monumentos mais famosos de minha cidade, São Paulo, são os mais feios.

Se você é desses paulistanos chatos-coxinha-amo-pizza, não se ofenda. Eu acho o MASP, a Ponte Estaiada e o Monumento às Bandeiras horríveis (sobre esse último, com todo respeito ao trabalho de Brecheret, detesto o significado do monumento, porque os bandeirantes foram genocidas). O prédio da FIESP não está no calendário, mas eu também acho feio. Eu adoro o acervo do MASP (vale a pena conhecer, principalmente pela coleção de Portinari), mas o prédio em si é horrível, na minha opinião.

Como o prédio da FIESP e o MASP ficam na Av. Paulista, comecei a pensar sobre essa avenida, a mais conhecida da cidade.

Quem não conhece a história de São Paulo e circula pela Av. Paulista talvez nem imagine que essa avenida um dia foi totalmente residencial. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, a avenida contava com diversos casarões. Muitos desses casarões eram propriedades dos barões do café e seus herdeiros.

Atualmente, apenas quatro casarões ainda permanecem em pé. O mais famoso é a Casa das Rosas, importante centro cultural, com exposições, saraus e outros eventos.

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Casa das Rosas, projetado por Ramos de Azevedo Foto: Folha de São Paulo.

Se você estiver passeando por São Paulo, vale a pena conhecer o local. Mais informações no site oficial.

Os outros casarões foram todos demolidos. Para vocês terem uma ideia, onde hoje é o MASP, era o Belvedere Trianon. Essa construção foi projetada por Ramos de Azevedo. Segundo o Prof. Mario Festa, colega meu, esse local funcionava como uma espécie de mirante, onde era possível ter uma bela vista da cidade. Abrigava também eventos da elite financeira paulistana.

Ou seja: apesar de feio, o vão do MASP é bem mais democrático e mais interessante. O Belvedere foi demolido na década de 50. Abaixo, a foto do monumento.

trianon antes do maspA foto não dá para entender bem, mas acho que é assim: aquelas árvores no alto da imagem são a área do Parque Trianon e a construção na frente dela é o tal do Belvedere. A Avenida Paulista está entre as árvores e a construção. Em primeiro plano, me parece que é o Túnel 9 de Julho (é o que dizem aqui).

Quem visita a Av. Paulista hoje e desce na estação de metrô Trianon-MASP pode ver o Parque Trianon de um lado e o MASP do outro lado.

Ainda ao lado do Belvedere, funcionava o antigo Observatório de São Paulo. Foi construído por José Nunes Belfort Mattos e inaugurado em 1912. José Nunes Belfort Mattos é aquele que teria observado neve em São Paulo, história essa que já mostrei que trata-se de um mito. Lá nesse Observatório,  executava-se serviços científicos variados, tais como: medições meteorológicas, medição da hora oficial do Estado de São Paulo, estudos de física solar, geomagnetismo e sismologia.

observatorioO observatório foi desativado em 1928. Como a cidade estava em pleno crescimento, alguns sensores eram afetados pela vida urbana. O sismógrafo é provavelmente o principal deles. Com o movimento dos bondes na avenida, havia um leve tremor que afetava o funcionamento desse instrumento. Pensaram então em uma nova área , mais remota, para construir um novo observatório. Foram então para o Parque do Estado, local onde atualmente é o Parque CienTec (e abriga uma coleção de construções art déco maravilhosa, que contrasta com o horrível prédio vizinho da Secretaria da Agricultura, construído na época da ditadura). A Estação Meteorológica do IAG-USP é uma espécie de herdeira do Observatório de São Paulo. A Estação conta com um pequeno museu, com mobiliário e instrumentos científicos que ficavam alocados no Observatório de São Paulo.

A foto acima foi tirada desse site, que possui fotos de outros casarões e um pouco da história da Avenida Paulista.

Eu gostaria que todos esses casarões estivessem em pé e cada um deles fosse um centro cultural diferente. Ou uma guilda diferente…rs. Eu certamente faria parte da guilda das bordadeiras :).