Quente x Frio no Hemisfério Norte



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Via as imagens acima no ótimo Earth Observatory, da NASA (aqui). Esse site divulga imagens de satélite quase que diariamente, com excelentes explicações.

As imagens acima mostram as anomalias de temperatura do solo na Europa e na América do Norte, no período entre 1-7 de Janeiro de 2014. Essas imagens foram obtidas a partir do sensor MODIS do satélite Terra, operado pela NASA.  As temperaturas da semana de 1-7 de Janeiro de 2014 na Europa e nos EUA são comparadas com as médias do mesmo período de dados da última década (2001-2010). Sendo assim, a parte em azul mostra regiões que tiveram temperatura abaixo da média 2001-2010 no período de 1-7 de janeiro de 2014, enquanto as áreas em vermelho mostram as regiões com temperatura acima da média 2001-2010 no mesmo período. As partes em cinza (que são bem predominantes na imagem da Europa) são regiões em que a presença nebulosidade bloqueou o satélite de obter dados. Para que o MODIS obtenha dados de temperatura, é necessário céu limpo.

O Sol aquece o solo, que então vai aquecer a atmosfera. Sendo assim, estudar a anomalia de temperatura da superfície ajuda a entender o que está acontecendo com a atmosfera.

Observando o mapa europeu, notamos que a maior parte da Europa (com exceção do noroeste da Península Ibérica) apresentou temperaturas acima da média na última semana. Por outro lado, o mapa norte-americano mostra anomalias negativas de temperatura em uma faixa que vai do centro até o leste. Só que no oeste norte-americano as temperaturas estão acima da média também. Muitas pessoas olham para esses mapas e ficam em choque, uma vez que é inverno no Hemisfério Norte. O que estaria acontecendo?

A atmosfera é qualquer coisa, menos uniforme, como foi bem dito no EO:

Earth’s atmosphere is many things, but it is certainly not uniform. In many cases, while one part of the world freezes, another broils; while precipitation pummels one region, drought grips another. That’s what has been happening to the extreme in the northern hemisphere this week.

Tradução: A atmosfera é muitas coisas, mas certamente não é uniforme. Em muitos casos, enquanto uma parte do mundo está congelando, a outra está fervendo; enquando a precipitação intensa assola uma região, secas intensas podem atingir outra. É exatamente o que tem acontecido no hemisfério norte na semana de 1 a 7 de janeiro de 2014.

O frio intenso nos EUA foi destaque aqui no Meteorópole em duas postagens. Na primeira, tentei falar brevemente sobre o tal Vórtice Polar. E na segunda, falava sobre o frio intenso e o aquecimento global. Pois é… o assunto voltou. Com o objetivo de tentar comentar sobre o que está acontecendo.

Há um padrão global de ventos chamado Ondas de Rossby. São ventos de alta-altitude (ou seja, não é um fenômeno que ocorre na superfície). Esses ventos definem a corrente de jato e são importantes para determinar o tipo de tempo que teremos em uma certa área ao longo de um período de dias a semanas. Como toda a atmosfera, essas ondas são governadas pelas leis fundamentais da dinâmica dos fluidos e da termodinâmica. As equações que descrevem essas leis inclusive são utilizadas nos modelos meteorológicos, para realizar a previsão do tempo. Essas leis asseguram-se que o total de energia que circula por toda a atmosfera não mude, apesar das condições meteorológicas extremas em um ou outro ponto do planeta.

Esses primeiros dias de 2014 no Hemisfério Norte são um bom exemplo de como a atmosfera pode produzir condições meteorológicas extremas simultaneamente. Na América do Norte, uma massa de ar do ártico moveu para sul e deixou boa parte do Canadá e do Nordeste dos EUA com temperaturas muito baixas (além de trazer toda discussão sobre o vórtice polar, discussão essa que chegou até o Brasil e me deixou em maus lençóis). Ao mesmo tempo (embora o Donald Trump, cujo umbigo está enterrado nos EUA, ignore), a Europa enfrentou temperaturas elevadas para a época do ano. As festas de fim de ano foram mais chuvosas do que nubladas. Esse portal de notícias da Suécia destaca que o Natal naquele país foi relativamente quente. Estão discutindo inclusive se vai ter neve suficiente para que os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 (que serão sediados em Sochi, na Rússia) ocorra sem problemas.

O frio intenso nos EUA trouxe toda uma discussão sobre mudanças climáticas. Um inverno tão frio foi o prato cheio que os tais negacionistas precisavam. Por outro lado, a imprensa também foi rápida em associar esse evento de frio extremo às  mudanças climáticas, uma vez que há diversas pesquisas que concluem que as mudanças climáticas podem aumentar a frequência de eventos extremos

Paul Newman, pesquisador da Nasa, disse o seguinte:

“It’s tempting to link individual weather events like this to broader discussions of climate change, and there certainly are some interesting theories out there, but the science really isn’t mature enough at this point to make any meaningful connections,”

Tradução: “É tentador ligar eventos meteorológicos individuais como este com discussões mais amplas sobre as mudanças climáticas, e certamente há algumas teorias interessantes por aí, mas a ciência realmente não é madura o suficiente neste momento para fazer quaisquer conexões significativas”

Além de Newman, o meteorologista Jason Samenow também se pronunciou. Como ele lembrou muito bem, o frio intenso dos EUA não é significativo uma vez que a área atingida representa apenas 2% do planeta Terra. Ah, mas esse é um grande problema da imprensa. Algumas regiões do planeta recebem mais atenção do que outras. De repente, todo mundo olhou em direção aos EUA e esqueceu das temperaturas acima da média para o inverno na Europa. A propósito, o oeste dos EUA mesmo também tiveram temperaturas mais elevadas que a média na primeira semana do ano. Basta ver os mapas acima. A imprensa também pareceu esquecer que é inverno no Hemisfério Norte e o frio é esperado (parece que não ouviram a música de Sandy e Jr rs). Outro que também lembrou que os EUA não são o centro do mundo foi o presidente da AMS (American Meteorological Society):

“When weather events like this come along, it’s critical to remember that weather in the United States does not define the global trends.”

Tradução: “Quando eventos meteorológicos como estes ocorrem, é importantíssimo lembrar que o tempo nos Estados Unidos não definem as tendências globais”

O EO-NASA também lembrou que nós estamos cozinhando aqui no Hemisfério Sul. Há alguns dias. eles destacaram um mapa de anomalia de temperatura do solo de todo o cone sul, com dados adquiridos entre 19 e 26 de dezembro de 2013. Esses dados foram comparados com a média entre 2000-2012. Como nas outras figuras apresentadas, as áreas em vermelho representam temperatura acima da média e as áreas em azul representam temperatura abaixo da média.

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Podemos observar que boa parte do cone sul está experimentando temperaturas acima da média climatológica. Tão calor que o presidente uruguaio Pepe Mujica resolveu usar sandálias na posse de um ministro (no último dia 26/12):

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Heheheh. Adoro Pepe Mujica <3. Também li sobre um grupo de cariocas que organizaram um movimento a favor do uso de roupas confortáveis nos escritórios. Eu concordo totalmente. Não entendo a razão do uso de ternos ou terninhos. Roupas sociais em sua maioria não são confortáveis e exigem um uso maior do ar condicionado (gasto de energia, alergias, etc). Esse tipo de “código de vestimenta” precisa mudar, sinceramente acho absurdo ver as pessoas sofrendo de calor e consequentemente reduzindo sua produtividade.

E não é só aqui no Cone Sul. Olha lá na Austrália:

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Tudo bem que a figura é mais recente, é da última terça-feira. Trata-se do mapa de temperatura máxima (a maior temperatura do dia, normalmente registrada no período da tarde. No deserto australiano, no interior do país, as temperaturas ultrapassaram os 45°C. Observem que as máximas estão superiores a 30°C em quase todo território australiano. Que calor!

P.S.: Inevitável não pensar nesse refrão:

Aqui tá frio
Muito quente, aqui tá frio
Aqui tá quente, aqui tá frio
Muito quente, aqui tá frio

Dança da Manivela – Asa de Água