Vórtice Polar? O que é isso?



Eu não entendo muito bem o que acontece com alguns jornalistas. Eles querem uma explicação para o frio e para o calor. Querem informar a população.

Até aí, tudo bem. Daí quando dizemos que o calor/frio é normal para aquela época do ano, eles perguntam se há algum fenômeno misterioso por trás. Claro que oscilações interanuais como El Niño e La Niña podem fazer com que um verão tropical seja mais ou menos chuvoso, ou mais ou menos quente, por exemplo. Mas elas não alteram as características básicas daquela estação.  Essas características básicas são as médias, calculadas com observações ao longo de vários anos no mesmo local. Ou seja, as normais climatológicas.

As normais climatológicas (que  são calculadas com dados em um período de 30 anos) podem mudar. Por exemplo, atualmente há duas normais de temperatura da Estação Meteorológica do IAG-USP. Uma é calculada de 1933-1960 e a outra de 1961 até 1990. Haverá outra em breve, calculada de 1991 até 2020. O que foi observado? As normais subiram. Ou seja, a média de temperatura entre 1961 até 1990 é maior que a calculada entre 1933-1960. O que causou isso foi o aumento da urbanização, talvez alguns ciclos de vários anos (manchas solares, por exemplo) e também as mudanças climáticas. O ser humano está aumentando a temperatura média do planeta através de emissões de gases de efeito estufa (emitidos em suas atividades industriais, de produção de alimentos, degradação ambiental, desmatamento e deslocamento).

A impressão que tenho é que jornalistas adoram um impacto. Eles não gostam de ouvir que o calor intenso dos últimos dias é normal (gente, é verão!) ou que o frio intenso nos EUA (principalmente no nordeste desse país), também é normal (gente, é inverno!). São situações que você espera nas respectivas estações do ano desses respectivos lugares. São situações observadas todos os anos.

Aqui já me perguntaram se o calor intenso é culpa do El Niño. Eles ficam meio decepcionados quando digo que na verdade estamos em uma situação de neutralidade (sem El Niño ou La Niña) e quando isso ocorre, as chuvas ficam próximas ou abaixo da média. Com chuvas irregulares, há pouca nebulosidade. Sem nebulosidade, os raios solares tem total liberdade para chegarem até a superfície da Terra e aquecê-la. E voilà, temos dias com temperaturas superiores a 30°C, porque é verão e o Hemisfério Sul já está recebendo mais radiação solar mesmo.

Talvez os jornalistas e tantos outros profissionais passem tanto tempo dentro de salas fechadas com ar condicionado que não percebam que o verão do Hemisfério Sul é  em Dezembro, Janeiro e Fevereiro. Tem até blogueira de moda confusa, que acha que o verão é em julho, porque fica assistindo desfile de moda de Paris, Milão ou qualquer outra cidade européia.

Tem também a questão do desinteresse científico. Muitos acham que Meteorologia é uma adivinhação e não compreendem que é uma ciência. É uma pena mesmo. Felizmente há diversas iniciativas que visam mudar isso, mas talvez elas ainda sejam insuficientes, pois não alcançam a maioria das pessoas.

Enquanto cá no Hemisfério Sul a gente fica ouvindo perguntas sobre o calor, no Hemisfério Norte as perguntas são sobre o frio intenso. E essas perguntas do frio chegaram até aqui também. O frio apertou lá nos EUA bem no final de Dezembro e começo de Janeiro. Muitos brasileiros vão para lá para fazer turismo e compras. Atingiu uma área economicamente importante dos EUA e fechou aeroportos importantes. Muita gente vai para Nova York. Claro, a pergunta tinha que chegar até aqui. E eis que surgiu uma nova explicação mágica para o frio: o Vórtice Polar.

Ouvi um jornalista falar sobre isso. Provavelmente ele deve ter lido algum alerta meteorológico que citava esse termo. Como era novo para o vocabulário ele, ele deduziu que fosse um fenômeno novo também (olha o erro de lógica aí). Eis que começam a falar que o frio nos EUA é culpa do Vórtice Polar.

Então a NOAA, agência americana responsável por atividades de oceanografia e meteorologia, em sua página no Facebook, criou uma imagem bem didática para esclarecer a população e popularizar conhecimento:

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Link original da imagem aqui. Vou traduzir os pontos da imagem acima, para que o conhecimento também seja espalhado aqui no Brasil e quem sabe chegue até os jornalistas:

– O Vórtice Polar é um ciclone de altos níveis (fica em alturas mais elevadas da atmosfera) e está presente sobre os dois pólos de nosso planeta;

– Ele sempre está presente. Só que ele enfraquece no verão e ganha mais força no inverno.

– No inverno, esse ciclone pode “quebrar-se” e partes dele podem ser transportadas em direção ao Equador,  junto com a corrente de jato (os jatos polares e os jatos subtropicais são ventos de escala planetária, que sempre estão presentes). É exatamente o que está acontecendo agora nos Estados Unidos.

O que o vórtice polar não é:

– Não é algo novo

– Não está na superfície da Terra: ele é um padrão da alta atmosfera!

– Não é algo que pode ser observado visualmente, como tornados, nuvens afuniladas, tempestades, trovoadas, etc.

– Em si esse fenômeno não é perigoso para os seres humanos. No entanto, o frio associado a ele certamente é perigoso.

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Sabe o que eu acho? Que a palavra vórtice (ou vortex, em inglês) foi muito empregada em filmes de ficção científica e fantasia. Talvez isso tenha feito com que as pessoas não entendam seu real significado. Vórtice, nada mais é do que um nome muito genérico dado a qualquer coisa que gira (normalmente um fluido que gira sob a ação de alguma força). Redemoinhos, tornados, demônios de poeira, trombas d’água e até furacões são considerados vórtices.