Chuva artificial em São Paulo vai custar R$4,5 milhões



Vou colocar todas as casas depois da vírgula: R$4.500.000,00

Isso é muito dinheiro, não? E se fosse um dinheiro empregado em uma técnica reconhecidamente eficaz, não seria desperdício. Mas o que dizer de uma quantia em dinheiro empregada em um método controverso, cujos resultados não mostram eficácia?

Vamos supor que você precise comprar um eletrodoméstico. Um liquidificador que funciona por energia solar. Só que você chega em casa de noite e o equipamento não armazena energia. Além disso, você vai usá-lo dentro de casa. Seus amigos já disseram que o liquidificador também não é muito bom, porque se passa uma nuvem na frente do disco solar, ele pára de funcionar. Eles também te avisaram que se você deixar seu próprio corpo entre o liquidificador e o disco solar ele também não funciona direito. Você pesquisou em revistas especializadas sobre liquidificadores e todos os especialistas disseram que apesar de realmente funcionar se não tiver nuvens e se você não colocar seu corpo entre o aparelho e os raios solares, não é uma compra recomendada, porque é cara e você só poderá usar em condições muito específicas. Você compraria o produto? Desperdiçaria o seu dinheiro?

A SABESP não se importa em gastar R$4.500.000,00 em semeadura de nuvens. Parece que não ouviram as palavras dos meteorologistas, que em sua grande maioria são bastante céticos com relação a esse assunto. De acordo com o Prof. Dr. Augusto Pereira, do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP, o método é incipiente. Ele foi autor de um artigo que analisou a precipitação na área da bacia do Rio Jaguari na estação chuvosa de 2003/2004. Nesse período, utilizou-se a técnica de semeadura de nuvens. Os resultados inclusive mostraram uma redução na quantidade de chuva na região estudada, quando compararam com a média e com a estação chuvosa anterior. Claro que não vamos aqui advogar o contrário e dizer que a semeadura de nuvens na verdade provoca redução na chuva, não é isso. Essa variabilidade no resultado pode indicar uma variabilidade natural. Apesar dos comportamentos médios (sabemos quando é a estação chuvosa e quando é a estação seca), algumas estações chuvosas são mais ou menos chuvosas que a média.

O Prof. Augusto Pereira foi consultado pela jornalista Vanessa Barbosa, autora desse completo artigo na Revista Exame.

chuva_artifical_20140210-103349_bigA imagem acima, super didática, foi tirada do site Apolo11, um dos pioneiros na popularização científica aqui no Brasil (do qual sou grande fã). Eles escreveram um artigo explicando o que é semeadura de nuvens.

O método já foi usado em outras situações e observei que os contratos nunca são renovados. Ora, se o método fosse realmente eficaz,o convênio continuaria. Em maio de 2012,  estavam aplicando esse método em algumas regiões do sertão da Região Nordeste. Escrevi um texto sobre o assunto, criticando o método e sugerindo a aplicação do dinheiro em outras iniciativas, como campanhas de educação e conscientização, escavação de poços e construção de reservatórios de água da chuva.

A técnica utilizada para fazer chover chama-se semeadura de nuvens. Outros usam o nome bombardeamento de nuvens ou nucleação artificial. A técnica, que começou a ser desenvolvida na década de 40, consiste em procurar uma nuvem Cumulus (Cu), que já tem bastante gotículas de água e é a nuvem que dá origem às nuvens Cb – Cumulonimbus – que são as nuvens de chuva. Assim que acham uma nuvem Cu promissor, com o auxílio de uma aeronave, lançam na base da nuvem escolhida substâncias higroscópicas, ou seja, substâncias que ajudam a aglutinar água. As gotículas da nuvem ficam então muito grandes e sucumbem à força de atração gravitacional, precipitando.

A substância higroscópica mais comum empregada nessa técnica é o cloreto de sódio. Isso mesmo, nosso querido NaCl (sal de cozinha). Também usam iodeto de prata, gelo seco e até água mesmo (como é o caso da técnica que vão empregar nos reservatórios do Sistema Cantareira, aqui em São Paulo).

Essa técnica ficou famosa em 2008, pois a aplicaram na China, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Pequim. Lá o objetivo foi um pouco diferente: como durante os jogos muitas modalidades são aplicadas ao ar livre, eles fizeram o bombardeamento de nuvens nas vizinhanças de Pequim para provocar chuva nesses locais e assim evitá-la nos locais onde os jogos estavam ocorrendo. Não choveu durante a cerimônia de abertura dos jogos e parece que a chuva não foi um grande problema para a prática das modalidades ao ar livre. Tudo correu bem. No entanto, é difícil dizer que a não ocorrência de chuva foi natural ou se o método foi eficaz. O How Stuff Works, publicou este ótimo artigo explicando o que é semeadura de nuvens e como ela foi usada nos jogos olímpicos.

Durante os Jogos Olímpicos de Pequim, usaram uma espécie de canhão para semear as nuvens. Foto: HSW
Durante os Jogos Olímpicos de Pequim, usaram uma espécie de canhão para semear as nuvens. Foto: HSW

A SABESP deveria investir em programas de conscientizadação sobre o uso racional da água, em tecnologias para evitar o desperdício nos encanamentos pela cidade (até mencionei sobre os vazamentos aqui) e na preservação das matas ciliares. Esse é um trabalho muito grande e que só é visto depois de muitos anos.  Soluções aparentemente instantâneas, que sempre são propostas em momentos de grande dificuldade, raramente são eficazes.  A semeadura de nuvens é a solução pronta que os dirigentes estão procurando, para que os resultados sejam observados nos seus mandatos (é o que eles esperam).

Cuidar das matas ciliares certamente será um gasto superior aos R$4.500.000,00 e que levará muito mais tempo para ver resultados. Só que é um método que funciona, atestado por diversos ambientalistas. Nossa sociedade vive muito de remendo e de soluções rápidas, quando precisamos de revoluções e de muito trabalho e esforço coletivo.