Dúvida do Leitor – Temperatura Ambiente

Oi Leilon me mandou uma pergunta que talvez seja comum:

Onde se mede a temperatura de uma cidade: dentro ou fora de casa?

Eu já respondi essa dúvida de maneira indireta em alguns posts, como nesse que falei sobre termômetros de rua.

A minha resposta para a pergunta do Leilon é: depende. Para algumas aplicações industriais e comerciais, é necessário colocar um termômetro em alguns ambientes, para medir a temperatura daquele local. Muitas vezes trata-se de um ambiente controlado, como um frigorífico ou um local com materiais sensíveis. Essa medição mede uma temperatura extremamente local, que tem pouca ou nenhuma relação com a temperatura atmosférica externa, já que o ambiente pode estar completamente modificado para uma atividade industrial. Cabe aos engenheiros definir como medir essa temperatura e como utilizar esses dados, para otimizar a eficiência de um ar condicionado ou de uma câmera frigorífica, por exemplo.

No contexto de um laboratório (um laboratório de química, por exemplo) o termo temperatura ambiente normalmente refere-se a um valor em torno de 20°C e 21°C. Esse valor representa um ambiente não muito frio e não muito quente (claro, considerando que a umidade relativa esteja entre 40-60%). Acredito que é uma temperatura em que os químicos consigam trabalhar usando aqueles jalecos maneiros (até pedi pra Jaqueline me desenhar de jaleco, acho super legal!). E claro, uma temperatura em que a maior parte dos reagentes e outros produtos utilizados no laboratório não perca suas propriedades. Alguns materiais terão que ser mantidos em locais refrigerados, mas se a temperatura ficar em torno de 20-21°C a quantidade de substâncias que precisarão de refrigeração será menor.

Mas, se estivermos falando de temperatura atmosférica externa, aquela que sofre influência do ciclo diurno (nascer e ocaso do Sol), que sofre influência da aproximação de frentes frias e outros sistemas meteorológicos e que sofre a influência das estações do ano, então estamos falando de meteorologia. É a temperatura que vai nos ajudar a definir o tempo de um local (ou seja, vai ajudar você a definir se deve ou não levar um casaco em sua caminhada pelo parque) e depois de vários anos de medidas (normalmente pelo menos 30 anos) vai te ajudar a definir o clima do local e será possível construir um climograma com as médias mensais de temperatura. E com um pluviômetro, será possível colocar também as médias mensais de chuva:

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

Climograma de São Paulo. Temperatura (linha azul) e precipitação (barras vermelhas). Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

E para medir a temperatura atmosférica, esse valor de interesse da meteorologia, existem regras. Quem organizou essas regras foi a Organização Meteorológica Mundial (OMM ou WMO, sigla em inglês). Essa organização, sediada na Suíça, possui um guia que pode ser consultado gratuitamente. Cada capítulo corresponde à medida de uma variável meteorológica e um dos capítulos é dedicado exclusivamente à temperatura. O termômetro (que pode ser eletrônico ou de mercúrio) deve estar bem calibrado, deve estar instalado acima de 1,00m do solo no interior de uma casinha chamada abrigo meteorológico.

Abrigo meteorológico aberto. Vários instrumentos em seu interior, incluindo alguns termômetros. Foto: funcionários da Estação Meteorológica do IAG-USP

Abrigo meteorológico aberto. Vários instrumentos em seu interior, incluindo alguns termômetros. Foto: funcionários da Estação Meteorológica do IAG-USP

 Essa casinha deve ser de madeira e pintada de branco. O chão da casinha é vazado, assim como suas paredes, que consistem em venezianas. A manutenção desse abrigo deve estar em dia, sem goteiras ou rachaduras que comprometam sua estrutura. As portas só são abertas quando a medição é feita (no caso dos termômetros de mercúrio, em que o valor precisa ser observado por um técnico e anotado em uma caderneta). As portas desse abrigo, também compostas por folhas de venezianas, devem estar voltadas para Sul aqui no Hemisfério Sul e para Norte no Hemisfério Norte. Dessa forma, o Sol nunca  incidirá diretamente no interior do abrigo.

O abrigo também deve ser instalado numa área cercada, o cercado meteorológico. Na fotografia acima, vocês podem observar essa cerquinha. Isso evita a aproximação de pessoas não autorizadas e de pequenos animais. A área também deve ser gramada e distante de obstáculos (construções muito altas, árvores muito altas e frondosas, etc). Todas essas especificações estão no CIMO Guide que mencionei anteriormente.

Para quem quer material em português sobre o assunto recomendo esse link da EMBRAPA, esse material do INMET (que fala um pouco sobre os principais instrumentos de uma estação meteorológica) e recentemente vi um livro muito bom que também trata do assunto, é o Meteorologia e Climatologia Florestal, do Ronaldo Viana Soares e Antônio Carlos Batista. São notas de aula que viraram livro e me foi apresentado pelo Marcos, um futuro Engenheiro Florestal que conheci recentemente. Ele estava fazendo treinamento na Estação Meteorológica do IAG-USP e me contou várias coisas interessantes sobre sua profissão.

Há outros materiais sobre o assunto pela internet, todos derivados do CIMO Guide. Então vale a pena consultá-lo se você pretende fazer uma estação meteorológica particular (como o Renan fez) para interesse pessoal ou para ensinar outras pessoas. Se  bem que quem tem uma estação meteorológica por interesse pessoal acaba aprendendo e ensinando outras pessoas também. Não há como desvincular as duas coisas e elas acabam sendo as mesmas. Nas últimas semanas conheci alguns professores de Geografia e de Ciências, aprendendo a fazer observações meteorológicas para ensinar outros alunos. A replicação do conhecimento. Isso é tão lindo :). Já que fugi do assunto completamente, meu amigo Guilherme Martins foi destaque essa semana no site da NCAR, porque ele aprendeu a utilizar os programas da instituição (muitos deles gratuitos e open source, voltados para meteorologia e ciências da Terra de modo geral) e passou a organizar workshops, ensinando outras pessoas a aproveitar o potencial das ferramentas :). Inclusive o Guilherme tem um site com vários tutoriais de NCL, GrADS, programas gratuitos que ajudam a organizar e mostrar dados meteorológicos (através de mapas ou gráficos).

Essas regras da OMM são seguidas em todas as estações que pertencem à rede da OMM. Cada estação é inclusive identificada com um código e manda dados várias vezes por dia para o órgão central de seu país (aqui no Brasil, o INMET), que em seguida os manda para o OMM. Se um fazendeiro ou um professor de geografia pretender instalar uma pequena estação meteorológica em sua fazenda ou escola, recomenda-se que ele tente seguir todas essas regras para manter a integridade dos dados. No caso do professor, para ensinar também a importância do cuidado na obtenção de dados científicos.

O objetivo do abrigo é fazer com que o instrumento fique protegido e com que o dado corresponda apenas à temperatura do ar, sem a influência do resfriamento devido à chuva ou da expansão do mercúrio devido à incidência direta da radiação solar. No  post em que falei sobre termômetros de rua (e complementa este post, pode ajudar o Leilon e outros leitores a compreender mais) , um comentarista chamado Marco Aurélio escreveu:

Confio mais nos termômetros de rua. Não me interessa saber a temperatura em um lugar abrigado e distante. Geralmente estou como o termômetro, exposto a mesma radiação, então o q ele registra, salvo descalibracoes, é mais próximo do que sinto na realidade….

Pois é, mas a atmosfera não quer saber se você sente calor ou frio. Não estou sendo grosseira não, é a realidade. E para medir a temperatura do ar de maneira científica, é necessário tomar esses cuidados. Agora se você só quer ter uma ideia do frio/calor (que são sensações biológicas), então pode até ‘confiar’ nos termômetros de rua. Na verdade, se a gente fale em frio/calor deve pensar nos conceitos de índice de conforto térmico e índice de calor.

Meteorologistas (e cientistas em geral, vamos ser justos) são muito obcecados com medidas de qualidade. As pesquisas dependem de bons instrumentos, mão de obra qualificada para manuseá-los e correta instalação. Por isso a OMM possui essas regras e elas precisam ser seguidas. Nossa obsessão saudável chega ao ponto de invalidar um recorde de maior temperatura porque a estação meteorológica que o registrou, na Líbia, não seguia as especificações.