Esfera Armilar – O que é isso?



Durante minhas férias, fui no Museo Galileo, localizado em Florença, Itália. Foi o melhor museu que já fui em toda minha vida. A visita renderá vários posts, mas no de hoje quero falar especificamente sobre parte do acervo desse museu: as esferas armilares.

Você já reparou na bandeira de Portugal? O brasão português, que é inspirado no brasão do Reino de Portugal, possui alguns elementos interessantes (e como em cada brasão, cada elemento possui um significado). Mas eu quero chamar a atenção para o globo dourado no fundo do brasão. É uma esfera armilar.

A Esfera Armilar é um elemento importante no brasão de armas português desde o século XV. Foi utilizado nas bandeiras de várias colônias, incluindo o Brasil. A Esfera Armilar é um instrumento de navegação que foi de grande auxílio aos portugueses durante a Era dos Descobrimentos. Não há dúvidas que este instrumento ajudou Portugal a expandir os seus domínios.

Abaixo, a bandeira portuguesa da atualidade, com a Esfera Armilar.

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Fonte: Wikimedia Commons

O interessante é que antes, a bandeira portuguesa não possuía uma esfera armilar. Possuía apenas o escudo da frente, com algumas variações. Até o esquema de cores do fundo era diferente, porque cada cor está associada a uma casa real. A bandeira atual com a esfera armilar, pelo que pesquisei, data de depois de 1830 quando o Brasil já era independente (não que a independência tenha sido “real” num primeiro momento, mas foi simbólica, pelo menos) e quando Portugal já não era uma grande potência da navegação. Eu acho – e aqui é pura suposição minha mesmo – que a inclusão da esfera armilar foi uma forma de lembrar do passado glorioso de conquistas.

Eu também acho – e aqui é mais uma conjectura minha, esse é o lado bom de ter um blog – que essa esfera armilar e toda essa lembrança de tempos áureos deve ter servido como elemento de propaganda ultranacionalista durante a ditadura portuguesa.

A Esfera Armilar era usada na bandeira das colônias, como mencionei acima. O escudo de armas do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves era assim:

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Fonte: Wikimedia Commons

 

Os domínios do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves eram:

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Fonte: Wikimedia Commons

Como a gente aprende na escola, os portugueses foram por um bom tempo os líderes na tecnologia da navegação. Essa liderança possibilitou a conquista de territórios ultramarinos em praticamente todos os continentes. A esfera armilar, era portanto, o símbolo dessa tecnologia.

E depois da independência,  a bandeira do Império do Brasil ficou assim:

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Fonte: Wikimedia Commons

Percebam que mesmo na bandeira do Reino do Brasil também podemos ver uma esfera armilar.

A esfera armilar até hoje é símbolo de navegação . O ícone “Rede” do menu do meu aparelho de Blu Ray é uma esfera armilar :).

Mas esse não é um post sobre bandeiras ou ícones. Apenas achei que seria uma ótima introdução para o assunto.

Esferas Armilares foram maravilhas da tecnologia. Através de observações astronômicas minuciosas feitas por diversos astrônomos em diferentes épocas da história da humanidade, foi possível montar um banco de dados com informações sobre o movimento dos astros em torno do Sol e sobre o movimento aparente da esfera celeste. O movimento aparente da esfera celeste é aquele uma pessoa fixa em um ponto da Terra pode observar.

Para uma pessoa fixa em um ponto da Terra, o Sol move-se (ele nasce e ele se põe). A mesma observação  é feita para a Lua e para as Estrelas: elas também nascem e se põe. Além disso, o Sol muda seu movimento aparente no céu ao longo do ano. O arco descrito por sua trajetória inclina-se para o Norte no verão do Hemisfério Sul (e vice-versa).

Estou usando o termo movimento aparente para vocês não me chamarem de Claudia Ptoloméia.

As estrelas também possuem um movimento aparente. E desde a Antiguidade, o ser humano acho interessante relacionar o movimento aparente do Sol com o movimento aparente das estrelas. As constelações do Zodíaco são as constelações que aparecem ao longo de 1 ano e estão centradas na eclíptica (nome dado ao caminho aparente do Sol na esfera celeste).

E a posição das estrelas era muito usada durante a Era das Navegações. Hoje temos GPS e os navegadores não precisam mais usar um astrolábio ou uma esfera armilar, mas naquele tempo esses instrumentos eram muito importantes, pois possibilitavam a navegação durante a noite. Durante o dia, tudo bem, tinha o Sol. Mas durante a noite, conhecer o posicionamento dos astros era uma questão de sobrevivência.

A Esfera Armilar é um instrumento composto por diversos anéis. Cada anel move-se separadamente e representa um dos elementos do cosmos. Nao consegui encontrar uma fonte confiável sobre quem teria inventado a esfera armilar. É muito provável que tenham sido os chineses, já que existem documentos mostrando que no século I a.C. os chineses já desenvolviam tal instrumento.

O anel mais externo normalmente serve para indicar a declinação das estrelas fixas  na esfera celeste. A pequena esfera no centro do conjunto representa a Terra. Entre essa pequena esfera e o anel mais externo, existe um conjunto de anéis, braceletes ou argolas. A palavra armila significa bracelete, daí vem o nome do conjunto.

A pequena esfera no interior do conjunto é atravessada por um eixo, que representa o eixo de rotação do nosso planeta. Presos e concêntricos a este eixo, temos anéis que representam os paralelos (Trópico de Câncer, Trópico de Capricórnio, Linha do Equador Terrestre, Circulo Polar Ártico e Circulo Polar Antártico). E presos a este eixo temos também circunferências que representam os meridianos.

Um anel mais grosso, muitas vezes ricamente decorado, representa cada uma das constelações do Zodíaco. Elas eram fundamentais para a localização durante a noite, como mencionei anteriormente.

Algumas esferas armilares ainda contavam com outros anéis, representando o movimento de cada um dos planetas do Sistema Solar conhecidos na época (normalmente Vênus, Marte e Júpiter). Essas eram as esferas armilares ptolomaicas. E não é por acaso primeira vez que vi uma esfera armilar foi no Museu de Marinha, em Lisboa. Não pude fotografá-la. pois na verdade o local era um pouco escuro e eu era menos interessada por navegação naquela época. No entanto, fotografei a coleção de astrolábios e a foto não ficou nada boa:

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A maior coleção de astrolábios náuticos do mundo está no Museu de Marinha, de Lisboa.

 Aqui, você pode ler sobre o Museu de Marinha de Lisboa, que possui um grande acervo do período das navegações e portanto, tem tudo a ver com a história de nosso país. Também vi alguns itens relacionados à nevagação (vi astrolábio, um globo celeste lindo e acho que tinha esferas armilares também) no Museo Storico Navale di Venezia. A entrada nesse museu é muito baratinha (menos de 3 euros) e vale muito a pena. Fica fora dos roteiros turísticos típicos da cidade. Muita gente vai para Veneza e não sabe que a cidade um dia foi uma importante potência da navegação (quando era a Republica de Veneza).

Mas vamos voltar a falar do museu mais legal do mundo (Museo Galileu). É o museu mais legal do mundo pois possui áreas interativas, possui uma enorme exposição de equipamentos didáticos do passado, possui um acervo com itens de Galileu Galilei (inclusive alguns de seus dedos – juro! – e a luneta que ele usou para descobrir os satélites jovianos mais massivos), possui uma imensa quantidade de frascos de vidro e de outros equipamentos de labotatório, etc. E finalmente, possui instrumentos de navegação, globos terrestres e esferas armilares.  Algumas dessas esferas eram “portáteis” (menos de 50cm de diâmetro) e outras eram enormes. Olhem a foto que tirei da maior delas:

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Fotografar no interior do Museo Galileo é permitido, mas claro que as fotos nunca saem boas, já que a iluminação em muitas salas do museu é mínima, para proteger materiais fotossensíveis que compõe o acervo. Além disso, essa esfera armilar especificamente era enorme. No final do meu passeio pelo museu (que demorou umas 6h), comprei um catálogo.  Na página 24 do catálogo, havia uma foto dessa esfera e algumas informações:

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Impressionante esfera armilar, considerando todo o arranjo, tem altura de 3,7m e largura de 2,45m. Foi construida por Antonio Santucci no final do século XVI. Fonte: Catálogo do Museo Galileo

 

Essa impressionante esfera armilar, considerando todo o arranjo, tem altura de 3,7m e largura de 2,45m. Foi construida por Antonio Santucci no final do século XVI. O curioso dessa esfera armillar é que ela é ptolomaica (apresenta um conjunto de ciclos e epiciclos, conforme menciono adiante). Tudo isso torna o arranjo ainda mais complexo e intrincado (e provavelmente mais pesado). Santucci fabricou essa esfera para Ferdinando I de’ Medici, descendente do famoso Cosimo de’ Medici  – ou Cosimo, il Vecchio. Cosimo de Medici foi um dos mecenas (o principal deles) que ajudou a desenvolver o Renascimento florentino. Já Ferdinando I tinha um apurado gosto para as ciências. Ele encomendou essa esfera para que fosse um objeto de decoração, parte de sua coleção da Galleria degli Uffizi (em uma sala temática, com uma coleção de Cosmologia). Embora aparentemente os anéis se movimentem sem nenhum problema, não era um objeto para o uso em campo.

Na esfera armilar de Santucci, o globo terrestre é ricamente decorado, conforme podemos ver na imagem abaixo, que apresenta o objeto em detalhes:

Detalhe da Esfera Armillar de Santucci. Fonte: Catálogo do Museo Galileo
Detalhe da Esfera Armillar de Santucci. Fonte: Catálogo do Museo Galileo

Santucci foi um famoso construtor de esferas armilares. Mais ou menos na mesma época que executou esse trabalho para Ferdinando I de’ Medici, Santuci construiu uma esfera armilar muito semelhante para o Rei Filipe II, da Espanha. Essa outra esfera foi encomendada para a Biblioteca do Escorial, onde está até hoje.

Agora vamos falar de uma esfera armilar que foi de fato utilizada em campo. Na página 18 do catálogo,  é apresentada em detalhes uma outra esfera que compõe o acervo. Tem  cerca de 33cm de diâmetro e foi construída por Girolamo della Volpaia em meados do século XVI:

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Esfera Armillar de Girolamo della Volpaia. Fonte: Catálogo do Museo Galileo

 

Temos:

– Solstitial colure: Coluro Solsticial

– Tropic of Cancer: Trópico de Câncer

– Celestial Equator: Equador Celeste

– Earth: Representação do Globo Terrestre

– Antartic Polar Circle: Círculo Polar Antártico

– Celestial South Pole: Pólo Sul Celeste

– Celestial North Pole: Pólo Norte Celeste

– Artic Polar Circle: Círculo Polar Ártico

– Local meridian ring: Armila que representa o meridiano local

– Equinoctial colure: Coluro Equinocial

– Observer’s horizon ring: Anel que representa a linha do horizonte do observador, do astrônomo que está manuseando a esfera

– Eclipitic: Eclípitica

– Tropic of Capricorn: Trópico de Capricórnio

A figura abaixo ajudará a identificar cada um dos elementos listados acima, referentes à esfera armilar de Girolamo della Volpaia:

Coluro equinocial e Solsticial. A figura acima ajudará a identificar cada um dos elementos listados da esfera armilar de .. . Fonte: Wikimedia Commons
Coluro equinocial e Solsticial. A figura acima ajudará a identificar cada um dos elementos listados da esfera armilar de Girolamo della Volpaia . Fonte: Wikimedia Commons

De acordo com o catálogo do museu, as esferas armilares já eram mencionadas por Ptolomeu no século II d.C. (elas provavelmente foram inventadas bem antes, pelos Chineses). É o mesmo Ptolomeu que menciono acima ( Claudio Ptolomeu). Ele acreditava em sistema geocêntrico. Para fazer com que sua hipótese se encaixasse com as observações astronômicas, Ptolomeu desenvolveu um complexo sistema de círculos e epiciclos. Para entender melhor o que Ptolomeu propôs, encontrei a seguinte animação:

Ou seja, o cara era doido por círculos. Eu imagino que quando ele viu ou ouviu falar sobre uma esfera armilar pela primeira vez, ele ficou muito deslumbrado e acabou contribuindo para o desenvolvimento desse instrumento.

Ainda de acordo com o catálogo do Museo Galileo, essas esferas eram muito utilizadas no ensino de astronomia. Ou seja, além de um material de campo, eram também um material didático, uma representação do cosmos que ajudava o estudante de astronomia a compreender o movimento dos astros. Naquele tempo, o estudante de astronomia fatalmente trabalharia com navegação.

 E na página do Museo Galileo você pode fazer um passeio virtual. A esfera armilar de Santucci está na sala III. A maior parte dos instrumentos de navegação, as esferas armilares e os globos terrestres estão na seção “Representação do Mundo”, que compreende as salas  III e IV. Há um vídeo com um tour por essas salas.