Índice de calor



No frio, a gente fala muito em sensação térmica. Ano retrasado (caramba, esse blog tá ficando velho e eu também rs) escrevi um texto sobre o assunto. Confira aqui. Mas acho que os leitores brasileiros já esqueceram o que é o frio. Faz tanto tempo que a temperatura não fica agradável que eu nem me lembro quando foi a última vez que usei uma calça.

Quando falamos em calor, não é correto usar o termo sensação térmica. Esse vale apenas para dias frios. No calor, usamos o termo Índice de Calor. É uma forma de medir o desconforto térmico por calor intenso, levando em conta a umidade relativa e a temperatura. É uma tabela de fácil consulta:

Índice de Calor. Fonte: Cátia Braga/Cemtec-MS
Índice de Calor. Fonte: Cátia Braga/Cemtec-MS

Eu aprendi isso recentemente (é vivendo tantos dias com calor a gente aprende alguma coisa rs). Quem me ensinou foi a amiga Cátia Braga, que também é meteorologista. Se você gosta de Meteorologia, deve segui-la no Facebook. E e para quem  mora no Mato Grosso do Sul, digo que segui-la é uma questão de utilidade pública. Como ela trabalha no CEMTEC, ela compartilha informações meteorológicas sobre esse Estado.

Sendo assim, em um certo horário do dia em que a temperatura é 35°C e a umidade relativa é 50%, teremos um índice de calor de 45°C. E reparem que quanto maiores os valores  de temperatura e de umidade relativa, mais elevado será o índice de calor. A umidade relativa elevada aliada a temperatura elevadas é o que dá aquela sensação de abafamento. Por isso que na Região Norte o calor é intenso, pois lá encontramos essas características o ano todo.

Claro que uma pessoa que mora em Manaus desde criança talvez tenha se acostumado. Mas se alguém da Região Sul mudar para lá, certamente vai sentir a diferença.

Moro em São Paulo-SP. Do tanto que falo de minha cidade, talvez vocês devem achar que eu a amo loucamente. Não é bem assim, na verdade, rs. Mas enfim, nesse verão, tenho certeza que mesmo que não acompanha as previsões do tempo e do clima, mas é observador, deve ter reparado ao menos em dois fatores:

– Não temos notícias sobre enchentes ou deslizamentos. Claro que não ter notícias sobre esses assuntos é uma coisa muito boa. Só que a ausência de notícias não é porque removeram pessoas de áreas de risco e realizaram obras eficientes de contenção. O Prefeito Haddad deve estar comemorando e o Kassab deve estar morrendo de inveja. O fato é que choveu abaixo da média em novembro/2013, dezembro/2013 e em janeiro/2014. E nesses primeiros dias de fevereiro/2014, também choveu pouco e de maneira bem irregular.  A estação chuvosa deveria ser … chuvosa. E a chuva está bem pouquinha. Já estão falando seriamente em racionamento de água. Portanto, é hora de conscientizar-se para economizar não apenas agora, mas lembrar que a água é um recurso natural que deve ser usado de maneira racional.

– Os dias tem tido pouquíssimas nuvens. Sabe aquelas nuvens que parecem uma pipoquinha? Elas mal aparecem no céu. Chamamos nuvens assim de Cumulus (a sigla é Cu, sério) e não vê-las no céu é um mal sinal para quando esperamos chuva. São elas que dão origem às nuvens de tempestade, Cumulonimbus (Cb). E como perfeitamente destacou o Gustavo Escobar nesse link do CPTEC/INPE:

Durante o verão,  principalmente em regiões tropicais, a chuva e a temperatura tem um comportamento inversamente proporcional. Isto significa que, quando a nebulosidade é significativa e chove, a temperatura diminui e quando a nebulosidade é escassa a temperatura aumenta. A falta de nebulosidade favorece o aumento da incidência da radiação solar sobre a superfície da terra, trazendo como consequência direta um aumento na temperatura do ar. Esta é a explicação do porquê da ocorrência de temperaturas tão elevadas na Região Sudeste do Brasil.

– Todos estão desejando e/ou comprando aparelhos de ar condicionado. Comentei isso ontem em meu perfil do Facebook e vários amigos também observaram a mesma coisa:

O calor está impossível. Recordes sendo quebrados em várias estações meteorológicas de vários Estados da Região Sul e Região Sudeste. E ando observando que vários amigos e conhecidos estão adquirindo aparelho de ar condicionado. Nunca tinha visto isso antes aqui em São Paulo-SP, nunca tinha visto tanta gente comprando ou desejando um aparelho desses.

Ainda comentei também:

Antes a gente falava em ar condicionado residencial e eu pensava logo em Rio de Janeiro, interior de São Paulo ou Rio Grande do Sul (onde o verão é normalmente bem marcado, com temperaturas bem altas em várias cidades). Aqui em São Paulo-SP era raro saber de alguém que tinha ar condicionado em casa. Os prédios mais antigos daqui nem possuem aquela “abertura” para o aparelho, como vi no Rio de Janeiro, por exemplo.

O Marco Jusevicius, colega meteorologista, ainda fez uma importante colocação sobre a demanda de energia elétrica:

E essa demanda toda de energia elétrica vai ser para sempre… Ou o governo se coça e agiliza os empreendimentos no setor (dando condições para que eles sejam feitos, e não atrapalhe como hoje é feito) ou os próximos verões (independente se forem rigorosos como esse ou não) terão risco como este está mostrando.

As pessoas estão comprando esses aparelhos muito caros e que consomem muita energia elétrica. O sistema elétrico está preparado para um aumento tão repentino no consumo? Além disso, há cerca de 10 anos nosso país vem passando por uma onda de prosperidade (\o/). Vemos muitas pessoas que antes não tinham geladeira e que agora puderam finalmente adquiri-la. Mais do que isso: há uns 15 anos, algumas cidades possuiam vilarejos sem energia elétrica. Esse número caiu muito e quase 100% das residências brasileiras possuem energia elétrica. Só que os investimentos na geração de energia parecem insuficientes. E como mais de 70% da energia gerada no Brasil vem de Hidrelétricas, dependemos muito de estações chuvosas bem chuvosas e de investimento em tecnologia de armazenamento de água e de geração mais eficientes.

Alem disso, o Prof. Alexandre Costa ainda fez uma observação bem pertinente:

Tá só começando…

E o que ele quis dizer com isso? Que esse calor intenso (assim como o frio intenso nos EUA, principalmente no início do mês passado) podem ser um indício do aquecimento global. Em seu blog, o Prof. Alexandre fala sobre o assunto sob o ponto de vista científico e político.