Maria Julia Coutinho como ‘garota do tempo’



A jornalista Maria Júlia Coutinho está se saindo muito bem como apresentadora da previsão do tempo no Bom Dia, Brasil. Ela está cobrindo a licença maternidade da jornalista Eliana Marques e está chamando a atenção pela competência, pelo figurino (lindos vestidos de cores fortes) e pela beleza. Além disso, é muito raro ver uma mulher negra em uma posição de destaque em um telejornal. Muitos vão mencionar Gloria Maria, Joice Ribeiro e Dulcinéia Novais, mas repare que a presença de mulheres brancas é muito maior. E a previsão do tempo é sempre um ponto de destaque em um telejornal. Eu tenho a impressão que serve como uma importante vitrine na carreira da comunicadora, a exemplo de Patrícia Poeta.

Fonte: O Globo
Fonte: O Globo

Pois bem, é maravilhoso ver a TV se desvincular nem que seja só um pouco do padrão eurocêntrico de beleza. Por isso, ver Maria Júlia na TV é muito importante. A representatividade é importante (Woopi Goldberg quis ser atriz porque se inspirou em Nichelle Nichols). Só que ao ler essa matéria do O Globo (inclusive foi de onde veio a fotografia), percebi que ainda temos muito o que avançar. As pessoas falam da forma física de Maria Julia. Falam bem da forma física dela, inclusive. Porque ela está dentro dos padrões esperados pela sociedade. Ela é magra e tem braços atléticos.

Nós ainda somos avaliadas na TV. Olham nossa forma física, nos conferem como um lote de mercadoria. Se estiver tudo dentro dos padrões esperados, somos aceitas e recebemos elogios. Isso não está certo. Não devemos julgar um livro pela capa.

A pressão sobre a aparência física é ainda maior sobre as mulheres. De quantos apresentadores de TV gordos você se lembra? E de quantas gordas? E numa sociedade em que beleza é associada apenas com juventude, repare quantos homens de meia idade apresentam telejornais. Repare que esses homens normalmente são acompanhados de uma jornalista, uma mulher, bem mais jovem do que eles. Para um homem de meia idade, há um ar de credibilidade. Uma mulher de meia idade não possui o mesmo privilégio. A mulher é mais fortemente vinculada à obrigatoriedade de beleza do que o homem. E não falam em beleza na maturidade. A beleza é sempre associada à juventude.

E nem vou entrar na questão da representatividade transsexual. A Daniela Andrade, mulher trans, falou em diversos posts da dificuldade de conseguir emprego (depois de muito tempo desempregada, ela consegui). Aprendi muito com ela. Ela sempre lembra o quanto os transsexuais (homens e mulheres) são empurrados para a marginalização. Siga a Daniela e aprenda também.

Eu sonho com o dia em que os apresentadores de TV, que comunicam notícias e também ajudam a formar opinião, sejam pessoas inteligentes, sensatas, que tenham conhecimento daquilo que estão falando e que sejam avaliadas exclusivamente pela sua capacidade.

Sonho com o dia em que nós mulheres não sejamos um objeto de adorno. Sonho com o dia em que nossos cérebros sejam admirados, não apenas as curvas de nossos corpos. Que nossos corpos sejam um fator secundário, abrindo espaço para que todas, de todos os tipos físicos, cis e trans, possam apresentá-lo da maneira que quiserem.

E exclusivamente no caso da apresentação da previsão do tempo: na minha opinião (e na opinião de muitos colegas de profissão) a apresentação da previsão do tempo deveria ser feita por um meteorologista (não importa o gênero, cor de pele e outros atributos físicos). Um meteorologista treinado em oratória, que saiba compartilhar o conhecimento sobre os fenômenos naturais, que saiba se comunicar com o público e que transmita informações com competência e propriedade, não importando se tenha os braços torneados ou não.