A chuva e os reservatórios

Ontem em meu trabalho, recebi uma equipe de TV para falar sobre as chuvas em São Paulo e o racionamento de água. Não encontrei uma versão online da reportagem. Assim que eu encontrar, compartilho por aqui. Mas basicamente, o que vou escrever é o que falei para a repórter e ainda vou poder acrescentar um pouco mais.

Na Região Sudeste, norte da Região Sul e sul das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, a Estação Chuvosa começa em meados de setembro e vai até o finzinho de março. Percebam que marquei bem o nome: estação chuvosa. Para definir nosso clima tropical, não faz sentido falar em verão, outono, inverno e primavera. Ok, astronomicamente falando, claro que faz sentido. Só que como estamos muito perto da linha do Equador, a intensidade da radiação solar que chega até nós não varia dramaticamente ao longo do ano. Ou seja, a diferença entre a quantidade de radiação solar que chega até essa região mencionada (Região Sudeste, norte da Região Sul e sul das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste) no inverno é menor do que no verão, claro. Mas não é tão menor assim, quando comparamos para um morador do Uruguai, por exemplo. Por lá, a diferença entre a intensidade da radiação solar no verão e no inverno é maior. Isso tem a ver com a inclinação do eixo da Terra. A ilustração abaixo  não possui escala de tamanho e nem de distância, além de ter a órbita da Terra exageradamente elíptica, mas conseguimos tirar importantes informações desse modelo didático. Há um período do ano em que o Hemisfério Sul está mais favorecido em termos de intensidade de radiação solar quando comparado com o Hemisfério Norte (isso ocorre aproximadamente entre Dezembro e Março, e é o verão do Hemisfério Sul). E entre Julho e Agosto, o Hemisfério Norte é o favorecido, recebendo mais radiação solar que o Hemisfério Sul:

Earth-tilt-animation

Figura 1: Movimento de rotação e translação (ilustração sem escala de tamanho ou distância e com órbita exageradamente elíptica)

Para não fugir do assunto, se você quiser saber mais sobre as estações do ano, leia este post.

O ponto é que a região próxima a linha do Equador é favorecida o ano todo, com a intensidade de radiação solar que chega até a superfície não variando tanto entre verão e inverno. Como diferenciar as estações pela temperatura não ajuda muito, usamos a chuva para descrever o clima das regiões tropicais: temos a estação seca e a estação chuvosa. Nesse post (que é um dos mais lidos do Meteorópole :)), falo sobre a diferença sobre tempo e clima e também falo sobre a diferença entre os climas de regiões bem distintas. No post famoso, uso um climograma feito a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP, que descreve um pouco do clima de São Paulo-SP:

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

Figura 2: Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

As barras vermelhas indicam a média mensal de precipitação (chuva). Percebam que as barras são destacadamente maiores entre Setembro e Outubro.  Já a variação da temperatura média não é tão marcante. Quero dizer, percebemos que a temperatura média é menor entre os meses de junho e agosto, mas elas a diferença não é tão destacadamente maior quando em outras localidades que destaquei nesse post.

Em um outro post sobre o início da Estação Chuvosa, destaquei um gráfico de um trabalho da Facultad de Filosofia y Letras, da U.B.A. Nesse trabalho argentino, foram usadas normais climatológicas de 1930-1960 e médias entre 1951-1960, dependendo da disponibilidade de dados de cada estação meteorológica. Fizeram então o mapa abaixo, com as médias mensais de precipitação de diversos locais da América do Sul. Sei que a resolução não está muito boa, mas as barrinhas pretas indicam os totais mensais de precipitação. Percebam que na área que marquei em vermelho, todos os gráficos possuem esse formato em “U”, indicando máximo de precipitação entre Setembro e Março. Encontrei o mapa abaixo em um material que usei durante a graduação e que pode ser consultado aqui.

chuvas_americadosul

Figura 3: Médias mensais de precipitação em diversos pontos da América do Sul. Fonte: UBA/Master

Agora que já demos um pequeno panorama sobre as chuvas em boa parte do Brasil, vamos falar do abastecimento de água em São Paulo-SP. Cada cidade do país tem um ou vários reservatórios que abastecem a cidade. Vou focar em São Paulo, uma vez que moro nessa cidade.

De acordo com a SABESP, na Região Metropolitana de São Paulo, o sistema de abastecimento é integrado: 8 complexos são responsáveis pela produção de 67 mil litros de água por segundo, para atender 33 municípios atendidos pela Sabesp e outros 6 que compram água por atacado (Santo André, São Caetano do Sul, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Diadema e Mauá). Os números de cada um desses 8 complexos podem ser consultados no site da SABESP. O maior deles é o Sistema Cantareira. Mês passado, escrevi esse post sobre a importância de economizar água.  E mostrei um gráfico da SABESP compartilhado pela Aline Tochio:

1621816_10200464114405968_1764990824_n

Figura 4: Armazenamento do Sistema Cantareira nos dias 04 de fevereiro entre os anos de 2003 e 2014. Fonte: SABESP

Percebam que nos dias 04 de fevereiro dos últimos 12 anos, o nível dos reservatórios do Sistema Cantareira esteve muito crítico nos anos de 2004 e em 2014. Para atualizar a situação do Sistema Cantareira e dos outros sistemas de abastecimento, compartilho esse link do ótimo Apolo11. Eles criaram um um plugin que pega os dados do site da SABESP assim que eles são divulgados e então as informações são colocadas em gráficos para que os leitores possam consultar. Tirei um print da tela hoje, dia 18/03 por volta das 7h da manhã:

Apollo11-mananciais

Figura 5: Nível de água nos reservatórios da RMSP. Fonte: SABESP-Apolo11

A imagem acima foi atualizada 17/03 às 09h00min. Nela, observamos que o Sistema Cantareira é o com menor nível de água nos reservatórios. E de acordo com a SABESP, é o maior sistema de abastecimento da RMSP.  E quando observamos as variações no Sistema Cantareira nos últimos 20 dias, percebemos que os reservatórios foram só esvaziando. Não houve chuva o suficiente para abastecer os reservatórios. A água foi apenas sendo retirada para consumo. Além disso, os meses de Dezembro/2013, Janeiro/2014 e Fevereiro/2014 foram também pouco nublados e muito quentes. Além do consumo, a água também evaporou.

apolo11-cantareira

Figura 6: Nível nos reservatórios do Sistema Cantareira. Fonte: SABESP-Apolo11

Mas não se enganem! A evaporação é um processo natural. O grande problema aqui é que não choveu e as pessoas continuam usando água. Continuam usando muita água. Nosso governador, por interesses puramente eleitoreiros, chegou a negar o racionamento. Moradores de Guarulhos já estão sofrendo com o racionamento. Ouço relatos de pessoas em diversos pontos de São Paulo-SP (amigos, parentes, colegas, etc), dizendo que a água não está chegando na torneira com a mesma pressão.

O que o Alckmin está fazendo é vergonhoso. Ele precisa dizer a verdade para a população. Esses dados precisam ser divulgados e explicados, para que as pessoas tomem a iniciativa de economizarem água por conta própria. Muitas pessoas que conheço já estão economizando. Abaixo, algumas dicas da própria SABESP para que as pessoas possam economizar em casa:

– tome banhos rápidos e feche a torneira ao ensaboar;
– lave a louça de uma vez e feche a torneira ao ensaboar;
– não lave a calçada e o quintal, use a vassoura;
– ao lavar o carro, use um balde;
– acumule roupas para lavar na máquina de uma vez só;
– deixe a torneira fechada ao escovar os dentes e fazer barba.

Leia mais nesse post.

Devemos fazer nossa parte, mas não devemos nos conformar.  Além das chuvas escassas nos últimos 3 meses (vou falar sobre isso na sequência), o investimento no setor precisa ser maior. O desperdício precisa ser evitado antes mesmo da água chegar ao consumidor. Em média, 40% da água limpa de perde antes de chegar ao consumidor. Em algumas regiões do país, esse número chega a 70%. Um sistema eficiente, moderno e com manutenção fariam esses números diminuírem. Em Tóquio, o número é de apenas 7%. Parece que a abundância de água em nosso país faz com que as pessoas não deem valor a este importante recurso. No entanto, precisamos lembrar que ele é finito. Se não protegermos as áreas de mananciais, reservatórios de água limpa ficarão cada vez mais poluídos. Diversas projeções para o futuro mostram que com as mudanças climáticas, teremos dificuldades em obter água potável aqui na América Latina, de acordo com o IPAM. Bom, mas este é um assunto para outro post, pois esse aqui deve ter ficado enorme.

A mensagem final, repetindo: economize água. Mas cobre soluções por parte dos políticos. Nesse ano de eleições, leiam as propostas dos candidatos e veja quais deles possuem políticas para modernizar o sistema de abastecimento de água.

As chuvas e o abastecimento

Como sei que muitos dos meus leitores gostam de números, vou falar brevemente sobre os totais de chuvas do último verão usando os dados da Estação Meteorológica do IAG-USP, ou seja, dados de São Paulo-SP. O trimestre composto pelos meses Dezembro/2013, Janeiro/2014 e Fevereiro/2014 que chamaremos de verão foi o segundo mais seco desde 1933. Somando a chuva desses três meses, tivemos 352,5mm. Só é superado por DJF 1940/1941, quando choveu 345,7mm. Para compararmos, a média climatológica entre 1933-2013 é 634,8mm. Ou seja: em DJF 2013/2014 choveu 55% do esperado.

Analisando cada um dos meses separadamente, temos:

– Dezembro/2013:  choveu 72,1mm e a média é de 185,9mm. Foi o 2° mês de dezembro mais seco desde 1933. Choveu apenas 39% do esperado.

– Janeiro/2014: choveu 199,3mm e a média é 231,9mm. Foi o 28° mês de janeiro mais seco desde 1933. Choveu 86% do esperado.

– Fevereiro/2014: choveu 81,1mm e a média é 212,5mm. Foi o 4° mês de fevereiro mais seco desde 1933. Choveu apenas 38% do esperado.

Como vocês podem notar, estamos com um déficit hídrico. Por essa razão os reservatórios, principalmente os do Sistema Cantareira, estão com níveis baixíssimos de água armazenada (Figuras 5 e 6). Os meses mais chuvosos, de acordo com a média (Figuras 2 e 3) são os meses entre Dezembro e Fevereiro. Como esses meses foram tiveram chuva abaixo do esperado, não se espera que a situação melhore nos próximos meses, uma vez que eles são meses secos. Ou seja: o racionamento  vai ocorrer (já está ocorrendo, só ouvir a população). Não tem jeito. E os políticos vão culpar a meteorologia (como Kassab culpou as chuvas pelas enchentes em 2010). Transferem a culpa para a natureza, quando deveriam tomar ações organizadas de mitigação.