Filme recomendado – O Mordomo da Casa Branca



The_Butler

Antes de fazer a resenha breve desse filme, deixa eu contar uma história para vocês. Eu estava viciada em  Hay Day. Essa porcariazinha é mais um daqueles jogos em que você tem que administrar uma fazenda (o lote virtual que devemos carpir rs). Eu tinha instalado em meu tablet e percebi que minha vida cultural PAROU depois que instalei esse negócio. Em um acesso de fúria, desinstalei. E agora minha vida ganhou uma nova dimensão. Embora eu continue seguindo o Hay Day Depressão porque é um perfil muito engraçado rs.

Bom, depois que minha vida cultural deu uma nova guinada, digamos assim, consegui assistir dois filmes na semana passada, o que é um recorde pessoal. E um deles foi O Mordomo da Casa Branca (Lee Daniels’ The Butler). O título em inglês é meio petulante, não? Pois é, Lee Daniels é o diretor do filme. E provavelmente você o conhece de Preciosa (outro excelente filme). Alguns críticos argumentaram que ele não tem uma carreira tão grande e sólida para colocar o próprio nome em um filme. O fato é que Daniels conseguiu juntar um time de estrelas:

– Oprah Winfrey

– Forest Whitaker

– Mariah Carey (sim, a Mimi!!!)

– Cuba Gooding, Jr.

– Lenny Kravitz (sim, ele é demais!)

– Robin Willians (ótimo como o presidente Eisenhower)

–  Liev Schreiber (irreconhecível sem barba rs)

– John Cusack

– Jane Fonda

– Vanessa Redgrave

E olha, eu estou mencionando apenas os atores que eu reconheci. Não sou tão cinéfila quanto alguns amigos meus, que certamente reconheceram outras estrelas. O impressionante é que muitos desses grandes atores ou personalidades possuem papéis pequenos no filme. Mariah faz o papel da mãe do personagem principal, que na idade adulta e na maior parte do filme é interpretado por Forest Whitaker (na pele de Cecil Gaines). Apesar de aparecer em poucas cenas, a personagem de Mariah é muito interessante. Primeiro porque é difícil perceber que Mariah é afro-americana, já que ela é miscigenada com europeus e tem a pele bem clara. Sendo assim, fica obviamente subentendido que sua personagem é uma mulher miscigenada, mas que ainda assim trabalha nos campos de algodão. Ou seja, mesmo tendo a pele clara, é considerada negra. A personagem de Mariah é estuprada por seu patrão, algo que talvez ocorra recorrentemente. Essa violência a deixa mentalmente perturbada. Seu violento patrão mata seu marido na frente do filho, o protagonista da trama, o pequeno Cecil Gaines. A mãe do patrão (interpretada por Vanessa Redgrave), numa tentativa de compensar a violência, contrata Cecil como “house nigger”. Ou seja, ao invés de trabalhar nos campos de algodão, ele trabalha servindo dentro de casa.

A expressão “house nigger” é pejorativa e era usada para diferenciar dos “field niggers” (escravos que trabalhavam nos campos). Normalmente, os “house niggers” tinham uma vida mais confortável do que os “field niggers”. Em um discurso de Malcolm X, ele explica a diferença entre essas duas categorias, dizendo que os “house niggers” tinham uma vida melhor e uma tendência a auxiliar na estrutura de poder que favorece os brancos. A propósito, tem um pouco a ver com o filme: recomendo o canal Ask A Slave, em que  a atriz Azie Dungey interpreta Lizzie Mae, personagem fictícia (ou não…) que trabalha na casa de George Washington. No canal, os vídeos assumem um formato de webserie, atualmente na segunda temporada. Lizzie Mae responde perguntas e recebe convidados da época. O show é humor, mas é um humor que não consigo descrever. A gente ri da forma que Lizzie Mae conta seu dia a dia como escrava, mas ela faz com que o telespectador coloque-se no lugar dela e na verdade ria da forma que ela conta e não daquilo que ela sofre. Há situações em que o telespectador realmente ri de si mesmo.

Voltando ao filme: Cecil vai trabalhar na “casa grande” (ok, vamos usar um termo muito comum e relacionado com a escravatura no Brasil, mas que funciona bem aqui… no contexto norte-americano acho que seria master’s house, dá no mesmo). Lá, ele aprende a servir. No final de sua adolescência, ele sente voltade de ir para outros lugares. No filme, a patroa (interpretada por Vanessa Redgrave) apoia essa decisão. Ele despede-se da mãe, que é mentalmente perturbada. E vai sem rumo e sem nenhum dinheiro. Ele chega numa cidade grande com muita fome e quebra a vitrine de uma confeitaria. O gerente da confeitaria, que é negro e mora no lugar, encobre o crime e convence o dono do estabelecimento a contratar Cecil como ajudante. Ele fica um tempo por lá e ganha a confiança do patrão. Vai então trabalhar em um hotel de luxo até que é convidado para trabalhar na Casa Branca. E isso tudo passasse na década de 1950 e 1960, no auge do Movimento dos  Direitos Civis. Cecil é um completo alienado político, mas ele faz isso para se defender dentro do sistema que vive. Ele ouve cada absurdo nos locais que trabalha (discutem por exemplo se as crianças brancas devem ir para a escola com as negras) e normalmente pedem a opinião dele. Cecil sempre se esquiva de dar qualquer opinião a respeito, tentando deixar seus ‘mestres’ satisfeitos. É essa postura que garante que ele consiga um emprego na Casa Branca.

A essa altura da trama, Cecil já está casado (Gloria, interpretada por Oprah Winfrey) e tem dois filhos adolescentes. O mais novo é bem “disciplinado”, dentro do contexto de dominação branca e o mais velho é rebelde e questionador e participa de  diversos protestos quando entra para a faculdade. O filho mais velho de Cecil, Louis, participa do “Ônibus da Liberdade” (onde jovens brancos e negros divertem-se juntos, contrariando as leis de segregação de alguns Estados, como o Alabama, que separa os locais onde brancos e negros devem sentar-se em um ônibus) , participa de protestos em lanchonetes (uma forma de resistência pacífica: ele e outros colegas ficam imóveis na área destinada aos brancos, sofrendo todo tipo de agressão), participa de confrontos policiais, etc. O ativismo de Louis vai de Martin Luther King até tornar-se um Pantera Negra.

Claro que Cecil não está nem um pouco feliz com o ativismo de Louis. Isso ameaça seu emprego na Casa Branca, além de deixá-lo preocupado, pois muitos jovens negros ativistas são assassinados. Por muitos anos, Cecil corta relações com Louis. Esse não é o único problema doméstico de Cecil. Seu emprego o consome e ele tem pouco tempo para a esposa, Gloria, que sofre de alcoolismo. O único membro perfeito da família, segundo o pensamento de Cecil, é seu filho mais novo. Ele não se envolve em ativismo e entra para o Exército Americano, para lutar contra o Vietnã.

O interessante na trama é o passar dos anos. Cecil trabalha na Casa Branca durante vários governos. Acaba vendo as mudanças e as conquistas obtidas pela luta pelos Direitos Civis. No filme, ele deixa de trabalhar na Casa Branca durante a adminstração Reagan. A idade avançada e o pouco reconhecimento o fazem tomar essa decisão. Além disso, ele discorda da opinião de Reagan com relação ao Apartheid. De acordo com o filho de Reagan e com outros funcionários do alto escalão da Casa Branca da época, o filme comete imprecisões históricas nesse e em outros pontos. Segundo essas pessoas, Reagan não era tão indiferente com relação ao movimento pelos direitos civis.

Não vou contar como o filme termina, mas acho que o que contei já dá para ter uma ideia. Os críticos falaram que o filme é cheio de clichês e melodramas. Quando ele foi lançado, alguns críticos disseram que por ter esse apelo emocional, certamente seria indicado ao Oscar. Se não me engano, ele não teve nenhuma indicação. Mas é fácil perceber o porquê: 12 Anos de Escravidão, uma história mais bem estruturada e muito bem recebido pela crítica, tomou para si todos os aplausos.  Apesar de Steve McQueen ser um talentoso cineasta, ele me pareceu bem menos ambicioso em 12 Anos de Escravidão do que Lee Daniels em O Mordomo da Casa Branca. E o resultado de McQueen foi de longe, o melhor.

Barack Obama gostou muito d’O Mordomo da Casa Branca. De acordo como essa reportagem, ele quase chorou ao ver o filme.  “Fiquei com os olhos marejados ao pensar não só nos mordomos que trabalharam aqui na Casa Branca como em toda uma geração de pessoas que eram talentosas e capacitadas, mas que por causa (das leis segregacionistas) de Jim Crow, por causa da discriminação, tinham um limite até onde podiam chegar.”, teria dito Obama. Eu fiquei emocionada com o que ele disse. Transportando isso para a realidade brasileira, pense na quantidade de crianças marginalizadas pela pobreza que certamente tem talentos natos que poderiam desenvolver se tivessem acesso a alimentação, educação de qualidade, lazer e saúde.

O filme é ficção, mas é na verdade inspirado em uma história real. Gene Allen foi mordomo na Casa Branca e boa parte do que é abordado no filme tem relação com a vida de Allen. Só que Allen tem apenas um filho e não presenciou o estupro da mãe e o assassinato do pai, como a história de Cecil. O filme pegou a trajetória de Allen e acrescentou uma série de situações que aconteceram com diversas famílias negras norte-americanas. Tudo acabou ficando bem diferente da história de Allen, então criou-se um personagem apenas inspirado nele, que é Cecil.

O filme possui alguns clichês? Possui. É melodramático? É. Se você é emotivo, com certeza vai chorar. Ou vai soltar aquele suspiro no final. Mas no melodrama nos faz pensar e apresenta um pouco do panorama da segregação racial nos EUA. 12 Anos de Escravidão é melhor? Com certeza. Mas vale a pena ver O Mordomo da Casa Branca ainda assim.