Onde sua religião não pode te levar



Recentemente li “17 Equations That Changed the World” (17 Equações que mudaram o mundo), selecionadas e comentadas pelo matemático britânico Ian Stewart. No capítulo sobre Teoria da Informação, se não me engano, Stewart escreve uma frase muito interessante:

“Paeans of praise for the information age ignore the uncomfortable truth that much of the information rattling around the internet is misinformation. There are websites run by criminals who want to steal your money, or denialists who want to replace solid science by whichever bee happens to be buzzing around inside their own bonnet.”

Tradução inglês britânico-samanthês:

“É pra glorificar de pé que a era da informação ignora desconfortável verdade de que grande parte das informações espalhadas por essa internet velha sem fronteiras trata-se na verdade de desinformação. Há sites criados por criminosos que querem roubar o seu dinheiro, ou negacionistas que querem substituir a ciência sólida por qualquer merda sem sentido que esteja ocupando suas mentes.”

Mais uma vez, vejo um site que comprova exatamente o que Ian Stewart quis dizer: esse cara tá dizendo que a vacina contra o HPV não é uma boa escolha para os seus filhos. E quem é esse sujeito? Eu sei lá. Ele não é médico, biólogo, farmacologista ou profissional de qualquer área relacionada (e mesmo se fosse, não está imune de ser um pseudocientista). Segundo perfil dele no twitter, ele é publicitário.

O cidadão, um ser humano irresponsável que julga saber mais do que os pesquisadores, diz saber a verdade sobre a vacina HPV. Ele chega a sugerir que os pais não vacinem suas filhas. A verdade que eu sei é que no Brasil 4800 mulheres morrem anualmente de câncer de colo do útero e essa vacina vai ajudar a diminuir esses números.

Em um certo momento, ele pegou dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention), em um link que mostra as estatísticas de efeitos adversos de vacinas. Toda vacina pode causar algum efeito adverso. Não vou entrar em detalhes, porque não é minha área e diferentemente do Sr. Publicitário Sabe Tudo, conheço os limites do meu conhecimento. As vacinas são desenvolvidas e são liberadas para a população quando seus efeitos adversos são os mínimos possíveis. É claro que todos nós somos indivíduos diferentes e a vacina pode eventualmente ocasionar algum efeito adverso em um ou outro indivíduo. Isso pode acontecer, mas as vacinas são liberadas apenas quando as chances de isso acontecer forem muito pequenas.

E vale correr esse risco? Claro que vale. A vacina contra o HPV, a vacina contra o sarampo, contra paralisia infantil, etc. A propósito, a paralisia infantil foi erradicada graças a vacinação.  Não vou linkar os absurdos que li pela internet porque não vou contribuir para a divulgação da desinformação. Mas cheguei a ler absurdos como “cientistas não sabem como as vacinas funcionam”. É pra chorar, realmente.

Essa desinformação é propagada por quem não entende nem o básico de como uma vacina funciona. E por quem nem entende como age o HPV. Eu prometi que não ia linkar desinformação, mas só para vocês terem uma idéia: algumas religiosas estão boicotando a vacinação, impedindo suas filhas de tomarem a vacina. Um dos argumentos dessas religiosas é de que a vacinação estimularia que as meninas (garotas entre 11 e 13 aos estão sendo vacinadas) iniciassem sua vida sexual cedo. Essas mulheres acham que vão colocar um cinto de castidade nas meninas? Elas não entenderam que suas filhas vão descobrir o sexo a qualquer momento (se já não descobriram!). Mas para essas pessoas, sexo é considerado algo sujo, que suas garotinhas virginais não conhecem e que se conhecerem, serão impuras e indignas. Santa ignorância! Maldita noção deturpada de honra. E o peso é sempre maior sobre os ombros das mulheres.

Lamentável.
Lamentável.

No site da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, há um informativo muito importante que deveria ser lido por todos os pais. Destaco a seguinte parte:

 Segundo a Dr. Luisa Lina Villa, bióloga, diretora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia das Doenças do Papilomavírus Humano – HPV, “é importante que as adolescentes recebam a vacina contra HPV o mais precocemente possível, de preferência antes de se tornarem sexualmente ativas, ocasião em que a vacina é potencialmente mais eficaz.”

A vacinação ocorrerá até 10 de abril em todo Estado de São Paulo e o público alvo são meninas de 11 a 13 anos. Leia mais aqui. E para saber mais sobre a polêmica envolvendo essa vacina, leia esse ótimo post do Science Blogs.

Há alguns anos, tomei essa vacina. Foram duas doses (se não estou enganada) e foi muito caro. Tomei porque sabia que era importante para mim e me protegeria de uma grave doença. Fico imensamente satisfeita que atualmente a vacinação seja gratuita.

Em caso de dúvidas sobre a vacinação, leia muito. Entenda como funciona uma vacina, converse com médicos, leia reportagens, etc. Não acredite em teorias da conspiração, não ouça o que o seu líder religioso te diz a esse respeito. Sobre assuntos relacionados à medicina de um modo geral, sempre recomendo o site do Drauzio Varella. Vacina contra a ignorância, precisamos de uma dose diária disso.

P.S.: Desabafei essas coisas em meu perfil no Facebook, no começo da semana. Como com o tempo o Facebook parece “perder” os posts, resolvi republicá-lo aqui.

P.S.2: Meu amigo Rodrigo postou um mapa interativo do danos das campanhas anti-vacinação. O mapa mostra surtos de doenças que poderiam ter sido evitadas, mas devido a desinformação, os pais deixaram de vacinar os filhos e pequenos focos de surtos apareceram. Como bem colocou o Rodrigo em nossa fanpage: Vacinação não é só salvar cada indivíduo. Tem um efeito coletivo também e seu filho pode ficar doente por conta da ignorância dos outros. De certa forma estas pessoas estão colocando o coletivo em risco. 

P.S.3: Lembrei de um caso que ocorreu há alguns anos no Bairro do Butantã. Fui procurar mais informações a respeito e encontrei essa reportagem da Revista Veja (a reportagem é boa, acreditem!), em que destaco um trecho

No Brasil, surtos do gênero ainda são pequenos. No estado de São Paulo, foram registrados, em 2011, 26 casos de sarampo. Desses, 60% ocorreram em pessoas não vacinadas — sete em crianças menores de um ano, cinco em indivíduos não vacinados por opção e quatro casos sem vacina documentada. Já na capital paulista foram 13 casos, com 10 ocorrendo em função da falta de vacina. O surto teve início em uma creche no bairro do Butantã, em seis bebês menores de um ano (idade indicada para a primeira dose), passando para quatro crianças com idades entre cinco e 10 anos (que não haviam sido imunizadas). “Esses surtos costumam acontecer em bolsões pequenos, porque essas crianças não vacinadas frequentam as mesmas escolas. Mas há sempre o risco, porque o vírus continua em circulação”, diz Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.