Palestras do Dia Meteorológico Mundial



O Dia Meteorológico Mundial é uma data para comemorarmos a meteorologia e ocorre anualmente no dia 23 de março. As instituições de ensino e pesquisa normalmente organizam ciclos de palestras, coffee breaks e mesas redondas nesse dia. Conforme comentei aqui, o tema desse ano foi  Comprometimento dos Jovens com o Tempo e com o Clima. Fui conferir algumas palestras no IAG-USP.

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Assisti duas palestras. A primeira delas, foi dada pela Josélia Pegorim. Sou grande fã dessa meteorologista, provavelmente a mais famosa dentre os ouvintes de emissoras de rádio. Ela costumava falar na rádio Eldorado. Com muito carisma, Josélia sempre fala a previsão do tempo de maneira muito direta e bem humorada. Como ela tem muita experiência, ela palestrou sobre as dificuldades na difusão da informação dentro do panorama atual. O título da palestra era “Tão Mobile quanto o tempo”. E o título deve-se ao fato de que o acesso à internet através da tecnologia móvel (celulares e tablets) tem superado o acesso ‘clássico’. Esse é o panorama atual.

O que quero dizer com panorama atual? Já perceberam que muitos adolescentes e jovens não acessam a internet através de um PC ou Notebook? A tecnologia móvel é a realidade deles. Muitas operadoras de celular já oferecem planos exclusivos para quem acessa apenas as redes sociais. Isso mesmo, muitos adolescentes e jovens sequer abrem a página do buscador, não utilizam o navegador. Com anos de experiência na Climatempo, Josélia falou dos desafios em compartilhar informações sobre o tempo e o clima através das redes sociais.

E esse é um problema que tenho no blog. O Meteorópole está na contramão disso tudo. Apesar do blog possuir uma fanpage no Facebook, a fanpage serve basicamente para divulgar os links das postagens do blog. Estamos em um momento estranho (esse adjetivo é por minha conta): já observaram que adolescentes e jovens não leem? Ok, claro que os nerds fanáticos por livros e textos longos ainda existem, felizmente! Mas já notaram que a maioria das pessoas que possuem um perfil no Facebook compartilham apenas imagens com frases bem curtas? A Josélia inclusive usou um exemplo de uma recente publicação da fanpage da Climatempo:

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Uma bobeira, se formos pensar…rs. Foi ideia de alguns meteorologistas que estavam de plantão na empresa na noite do dia 19 de Março, antes do Equinócio de Outono. E essa “bobeira” teve mais de 10 mil compartilhamentos. Vivemos a era da imagem, da informação absurdamente rápida. E como tudo, há vantagens e desvantagens:

Vantagens: a informação rápida permite que dados sobre pontos de alagamento e informações sobre locais com risco de deslizamento, por exemplo, seja rapidamente compartilhada. Isso possibilita redução de riscos de perdas humanas e materiais.

Desvantagens: ninguém absorve nada. Eu sei, essa é minha opinião. Mas as pessoas não digerem sobre o assunto, não checam fontes e julgam rapidamente. Julgar muito rapidamente pode ser perigoso, pode nos fazer cometer erros e injustiças.

Esses pontos que levantei são bem simples, mas acho que nos fazem refletir melhor sobre o mundo atual. Além disso, a Josélia deixou bem claro que a Climatempo é uma empresa privada e por essa razão, visa o lucro. Certamente eles estão enfrentando os desafios das mudanças recentes no Facebook (texto indicado pelo Rubinho, muito bom). Não sou da área de mídias sociais, mas basicamente agora é assim: a fanpage do Meteorópole tem quase 1000 apreciadores. Só que quando observo as estatísticas de quem viu uma determinada postagem, esse número dificilmente passa de 30. Para que eu tenha mais visualizações, eu teria que pagar para o Facebook. O Sr. Zuckeberg encontrou mais uma forma de ganhar dinheiro. Ele não está errado, o Facebook não é caridade. Mas essa mudança quebrou as pernas de muita gente que trabalha com mídias sociais. A fanpage da Climatempo tem cerca de 1,2 milhões de apreciadores. Considerando que apenas 10% (e acho que estou sendo generosa nessa porcentagem) dos apreciadores vejam uma determinada postagem, eles ainda teriam 120 mil visualizações. Como a Climatempo é uma empresa e como o Facebook é uma vitrine muito boa, deduzi a empresa deverá investir (se já não está investindo) em divulgação nesta rede social.

Outro desafio levantado pela Josélia é a necessidade de melhorar a previsão do tempo. Quando disse isso, a palestrante desafiou os alunos ali presentes que desejam seguir a carreira acadêmica a pesquisar maneiras de deixar a previsão do tempo mais precisa e mais adequada à realidade tropical. A maioria modelos meteorológicos que usamos foram desenvolvidos em países localizados em latitudes médias (países europeus e Estados Unidos). Aqui nos trópicos, a teoria Quasi-Geostrófica não funciona, por exemplo, e ela é base de muitos modelos meteorológicos. Muitas aproximações usadas para resolver as equações de Navier-Stokes (equações do movimento) foram desenvolvidas para funcionar bem nos subtrópicos. Já temos muita gente trabalhando nisso, adequado os modelos meteorológicos existentes para a realidade tropical. Precisamos de mais pessoas engajadas nisso e de maior incentivo.

Um incentivo e um exemplo que certamente são representados pela segunda palestra que assisti, da Profa. Dra. Maria Assunção Faus da Silva Dias. Uma pesquisadora que certamente é exemplo para as mulheres. Somos minoria na área científica, então ver uma pesquisadora de renome internacional e uma importante comunicadora e divulgadora da meteorologia (a Josélia) palestrando no Dia Meteorológico Mundial é uma grande honra.

A Profa. Assunção, como normalmente é chamada pelos alunos, falou sobre os grandes desafios da previsão do tempo. Sua palestra tinha como título “Alguns desafios da Meteorologia no Século XXI”. Alguns modelos globais já pretendem fazer simulações com resolução de 10m. Imaginem calcular variáveis meteorológicas (temperatura, umidade relativa, precipitação…) para o mundo inteiro, em pontos de 10 em 10m. Esse desafio pode ser possível em breve. Os supercomputadores tem cada vez mais melhorado sua capacidade de processamento. Além disso, temos também melhorado a capacidade de armazenamento de dados. Porque fazer cálculos a cada 10m, com uma resolução temporal de 10 min (por exemplo), vai trazer a tona um enorme desafio de armazenamento de dados. Hoje fala-se muito no conceito de Big Data. Fui introduzida a esta terminologia há pouco tempo e pretendo ler mais a respeito.

Com tantos dados assim, teremos um enorme desafio para poder visualizá-los e para poder extrair informações importantes desses dados. No mercado de trabalho, não adiante eu dar um HD cheio de dados para o meu cliente. Vou ter que visualizar esses dados, tratá-los, discutí-los e extrair deles um produto que atenderá as necessidades do meu cliente. No final, o que as pessoas querem saber é: vai chover? S/N. onde? quando? E o por que? na verdade não importa para a maioria das pessoas. No Meteorópole exploro muito esse por que?, porque sei que tem gente  que se interessa. E quero compensar a tal desvantagem da informação rápida, que mencionei anteriormente.

O comunicado oficial da Organização Meteorológica Mundial sobre o Dia Meteorológico Mundial de 2014, feito pelo secretário-geral Michel Jarraud, destacou um importante ponto que coloco aqui:

Today, people between the ages of 15 and 24 make up a sixth of the world’s population. About 85 per cent of these 1 billion young men and women live in developing countries. Compared to their peers of only 50 years ago, the young people of today are on average healthier, more educated and skilled. Technologies permeate their lives, enabling them to better interact with the world around them. Yet many young people still suffer from poverty and discrimination, inequality and exploitation; many of them still lack access to education, health and other basic services.

Atualmente, pessoas entre 15 e 24 anos são 1/6 da população mundial. Cerca de 85% desse 1 bilhão de jovens homens e mulheres vivem em países em desenvolvimento. Comparando com os jovens de apenas 50 anos atrás, a juventude de hoje é em média mais saudável, mais educada e mais preparada. Tecnologias permeiam suas vidas, possibilitando que eles interajam melhor com o mundo a sua volta. Ainda assim, muitos jovens ainda sofrem com a pobreza e a discriminação, desigualdade e exploração: a maioria deles ainda não tem acesso à educação, saúde e outros serviços básicos.

Ainda recentemente, a UN disse que precisamos de mais meteorologistas. Destaco o seguinte trecho:

Seeking to increase awareness among young people about climate change and mobilise them as champions for action, the UN marked this year’s World Meteorological Day with a call for more young people – especially women – to become meteorologists, a profession which makes a vital contribution to the safety and well-being of society.

Buscando aumentar a disseminação do conhecimento sobre as mudanças climáticas dentre os jovens para mobilizá-los como agentes de mudança, as Nações Unidas [A WMO é ligada à ONU] marcou o Dia Meteorológico Mundial de 2014 como um chamado para que os jovens – especialmente as mulheres – tornem-se meteorologistas, uma profissão que faz uma contribuição vital para a segurança e para o bem-estar da sociedade.

Reparem o que foi dito: especialmente as mulheres. Os indicadores globais mostram que em muitos países do mundo, as mulheres ficam em segundo plano em muitos assuntos. Quando o assunto é educação e acesso à cultura, não é diferente. Mencionei pra vocês que recentemente li o livro Cabul no Inverno, da jornalista Ann Jones. O regime Talibã impedia as mulheres de estudar. O resultado visto até hoje são mulheres que ficaram até 10 anos em casa sem participar do dia a dia, sem participar das decisões do país. Muitas dessas mulheres trabalhavam fora antes do regime. Muitas professoras de inglês, como menciona Jones ao longo do livro, acabaram esquecendo o idioma, uma vez que ficavam apenas dentro de casa e nem tinham a possibilidade de praticar. As mulheres são impedidas de estudar. Em muitos países, pais, irmãos e maridos impedem que as mulheres estudem e trabalhem. Por isso fico de cabelo em pé quando ouço falar que certas religiões incentivam que suas fiéis sejam submissas aos seus maridos. Bom, esse é um ponto.

O outro ponto, e aqui me refiro também a sociedade ocidental, é que as meninas não são estimuladas a seguirem carreiras científicas. Reparem como os garotos garotos os brinquedos mais legais: carrinhos, foguetinhos, robozinhos, Lego, kits de química, etc. Esses brinquedos estimulam o pensamento lógico. As meninas ganham bonecas, panelinhas, casinhas, etc. São basicamente brinquedos domésticos, que condicionam as meninas a executarem determinadas tarefas. Sendo assim, pensar em popularização da ciência (no caso específico  da Meteorologia, mas também de outras áreas) é pensar também na democratização do acesso. Essa democratização deve levar em conta conhecimento para todas as classes sociais (crianças pobres merecem ensino de qualidade e oportunidades de lazer e cultura iguais às das crianças ricas). pois isso fornece a possibilidade de ascensão de classe social.  Mas também temos que pensar na democratização pelo gênero. Sim, meninos e meninas tem que receber os mesmos estímulos. Se você é pai, educador, avó, avô, padrinho, madrinha, tio, etc, estimule as meninas a desenvolverem o gosto pela ciência, o amor pela natureza e presenteie com brinquedos que estimulam o raciocínio. Diga não ao sexismo!

Josélia Pegorim, em sua apresentação, falou das ‘moças do tempo’, comunicadoras que fazem a previsão do tempo, formato repetido em praticamente todos os telejornais. São moças jovens, magras e em sua maioria brancas. Josélia disse que esse formato ‘Barbie’ está esgotado, que precisamos usar outras formas de divulgar a previsão do tempo. Eu diria que o formato Barbie está esgotado mesmo. Chega de dar Barbie para suas meninas. Brincar com Lego é bem mais legal. E aproveitando o gancho, faço propaganda da loja de brinquedos da minha amiga Bárbara, que tem muito brinquedo educativo de madeira (aqueles do meu tempo, hehehe). A Bárbara inclusive incentiva seu filho a brincar de panelinha (ela escreve sobre maternidade no Uma Mãe das Arábias). Sim, quem sabe não teremos um chef internacional? Os papéis de gênero oprimem meninas e meninos também.

E para ajudar a empoderar as mulheres, deixo uma música de uma de minhas cantoras favoritas: