Resenha de Cabul no Inverno



Eu mencionei esse livro tantas vezes nas redes sociais, nessa postagem sobre as palestras que assisti no Dia Meteorológico Mundial, no Discurso Retórico e em conversas com amigos, que eu jurava que já tinha escrito um post resenhando o livro.

cabul

Li esse livro há algumas semanas e acho que devo tê-lo lido em apenas 5 dias. O curioso é onde peguei esse livro: em uma vending machine do Metrô de São Paulo. Nessa máquina, qualquer livro custa R$5,00 (o aumento foi recente e é absurdo, até o começo de fevereiro era apenas R$2,00). De qualquer maneira, R$5,00 é um bom preço para um livro. Não é toda máquina que tem bons livros ou livros que me agradam, já que há títulos diferentes em cada estação do metrô. Na máquina do Metrô Consolação, por exemplo, há livros em inglês, o que é ideal para quem quer praticar esse idioma.[1]

Pois então, na época paguei apenas R$2,00 em um ótimo livro. Acho que foi o melhor custo-benefício da minha vida.Quando removi o plástico que cobria o livro, percebi que o preço original dele era R$12,90. Depois vi que esse é o preço no site da Livraria Cultura.

Ann Jones é uma jornalista norte-americana, acostumada a realizar trabalhos voluntários. Depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 e após a intervenção militar dos EUA no Afeganistão (a quem quero enganar… após a GUERRA que os EUA travaram contra o Afeganistão), Jones decidiu ir ao Afeganistão para ajudar.  Ela trabalhou em duas frentes: distribuição de roupas, comida e outros donativos para mulheres encarceradas e aulas de inglês para professores do ensino médio. Durante o período que ficou lá, Jones escreveu esse livro relatando tudo o que viu e o que viveu.

Jones observou tudo sob um olhar feminista. Quando foi a prisão feminina, ela observou o quanto o local era precário. Escreveu, divulgou a situação nos EUA, para então encontrar parceiros que ajudassem a melhorar o presídio. A maioria das mulheres encarceradas estava lá por adultério, o que pra nós é absurdo. E muitas vezes, de acordo com nosso olhar ocidental, era até difícil definir se foi adultério. Por exemplo: o homem divorciou-se da mulher, mas não havia testemunhas. Então a mulher casa-se com um outro homem. O primeiro homem então, enraivecido e tomado pelo ciúmes, denuncia a mulher e o segundo marido. Há casos também de mulheres que foram estupradas, mas a interpretação absurda das leis entende que ela cometeu adultério e deve portanto ser presa.

Para entender esses absurdos, precisamos lembrar que o Afeganistão segue a Sharia, que é um conjunto de leis islâmicas. No Afeganistão, não há separação entre a religião e o direito. Não há separação entre o Estado e a religião. Então as leis estão submetidas às leis Islâmicas. É como se no Brasil decidissem seguir a Bíblia. E se isso acontecesse, consigo imaginar pelo menos 3 coisas:

– Homossexuais iriam para a prisão (ou receberiam “tratamento psicológico” para deixarem de ser homossexuais). Ou seja, na menos pior das hipóteses, a homossexualidade seria considerada doença.

–  Mulheres que falassem na igreja seriam penalizadas dentro da lei;

–  Mulheres que não fossem submissas aos maridos seriam presas, medicadas, tidas como portadoras de distúrbios psicológicos ou penalizadas de alguma outra forma.

Como a Sharia não é um conjunto “fechado” de leis, no sentido de que uma determinada lei pode permitir interpretações muito diferentes, as leis são aplicadas de maneiras completamente arbitrárias. Então Jones relata que algumas mulheres ficam anos na prisão e do nada são libertadas no Dia do Perdão. Outras não são perdoadas e padecem anos na prisão. Algumas tem penas de poucos meses e outras são esquecidas na prisão. Ao longo do livro, a autora conta vários casos de mulheres que ela conheceu. Por ser escritora, durante essas visitas à prisão, ela recebeu a tarefa de contar a história dessas mulheres.

Jones também dá aulas de inglês. Com o fim do Regime Talibã (embora talibãs ainda existem, só saíram do poder), as mulheres que antes eram impedidas de trabalhar estão voltando ao mercado de trabalho. Muitas professoras precisam de cursos para aperfeiçoar e para lembrar aquilo que foi esquecido. No ensino de idiomas, a interação entre os alunos e o professor é muito importante. Há exercícios de conversação e atividades que exigem que o aluno fale um pouco de si. Em uma sociedade em que a amizade entre indivíduos do sexo oposto é mal vista, Jones fala dos desafios que enfrentou. O objetivo da autora nessa atividade era atuar como multiplicadora: ensinar professores que então ensinarão os alunos.

Ao longo do livro, Jones fala sobre a história do Afeganistão. Sobre o domínio britânico e soviético. Sobre as lutas internas pelo poder e sobre as sangrentas disputas tribais. Essas informações sobre a história do país ajudam a compreender porque os afegãos são daquela maneira e porque o país tornou-se o que era em 2004 (ou 2005, não estou lembrada) que foi quando a autora viajou para lá.

A verdade é que a paz não chegou de vez no Afeganistão. Em um recente ataque a um hotel, 13 pessoas morreram. Nessa reportagem, é mencionado que “nos últimos meses, aumentaram os ataques contra ONGs, instituições ocidentais e lugares frequentados por cidadãos de outros países”. Tenho a impressão que Jones meio que já previa isso. Já quase no final do livro, a autora critica a atuação das ONGs. Em muitos casos, há um imenso desperdício de dinheiro, ações desastrosas e pouco eficazes, além do claro benefício próprio. Muitas ONGs que atuam lá são fábricas de ganhar dinheiro. Muitos consultores internacionais ganham fortunas diárias, com valores da casa de 2000 dólares diários e hospedagens em ótimos hotéis. Esses 2000 dólares diários na verdade nem saem do país de origem do consultor. As ONGs americanas não compram quase nada no Afeganistão, trazem todos os suprimentos de fora. Ou seja, não estimulam a economia local. Jones faz críticas bem contundentes e fundamentadas.

Recomendo!

A versão que comprei era bem “simples” (paguei R$2,00). É bem o tipo de livro que gosto: papel barato e edição tamanho pequeno, que cabe na bolsa. É a tal versão “livro de bolso”. Eu não vi mais nas vending machines dos metrôs, mas não custa dar uma olhada. Essa mesma edição simples custa R.90 na Livraria Cultura. Uma edição em tamanho maior e com papel de melhor qualidade custa R$38,90.

P.S.: Post parcialmente publicitário, pois os links para o site da Livraria Cultura contém meu código de afiliada 🙂

 [1] UPDATE: Passei pelo metrô Jabaquara e notei que dei uma informação equivocada. A vending machine do metrô Consolação vende livros a R$5,00. Porém, na vending machine do metrô Jabaquara, os livros ainda custam R$2,00 e lá ainda tem Cabul no Inverno. Se você passa por essa estação e pretende ler o livro, vale a pena comprar lá!