Eu odeio a atitude “I’m too cool for school”



Abaixo, um texto que escrevi há alguns anos e estava arquivado. Aborda pontos bem atuais (e que vão ser atualidade por muito tempo) e decidi publicá-lo. 

papo-furado

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Eu participava ativamente de uma rede social chamada formspring.me. Essa rede é como os antigos “caderno de enquetes” que eram comuns quando eu tinha uns 12 anos. Nessa rede, era possível fazer qualquer pergunta, anonimamente ou não. No começo, vários amigos meus participaram dessa rede. Muitos perderam o interesse, graças a enorme quantidade de trolls no serviço. Mas eu persisti, para ver onde o negócio poderia chegar.

Comecei a navegar pelos perfis e notei a existência de um mesmo perfil de moças. Todas tinham a atitude “I’m too cool for school”. Muitas eram mais de 10 anos mais novas do que eu e algumas eram da minha idade. Diziam que tinham problemas psicológicos de nomes difíceis, diziam que tomavam diversos remédios, muitas diziam que já tinham tentando suicídio,  diziam ter gostos excêntricos, algumas não gostavam daquilo que é mainstream, algumas diziam que tinham experimentado toda sorte de comportamento autodestrutivo, outras diziam que tinham transtornos alimentares, outras se diziam “devoradoras de livros” e citavam escritores obscuros e polêmicos (de maneira bem superficial, muitas vezes), outras vangloriavam-se de sua “origem europeia”, outras davam respostas grosseiras e atravessadas a perguntas banais tipo “qual seu/sua escritor(a) favorito?”, etc. E a maioria delas dizia que não podia assistir às aulas da escola/faculdade ou não podiam trabalhar devido aos seus transtornos psicológicos ou sociofobia.

Excluindo evidentemente os casos de pessoas que realmente tem transtornos (e que precisam tratá-los, já que as doenças mentais e físicas podem ser incapacitantes), a maioria dos casos era claramente de pessoas que queriam arrumar desculpas imbecis para não saírem da internet ou queriam chamar a atenção.  Eu fiquei impressionada com esse meio, de muitas brigas virtuais, baixaria e perseguição. Algumas dessas moças eram “famosinhas” na internet e eu observava que rolava algo como ‘abelha rainha e seguidoras’. As seguidoras queriam “copiar” as famosas. Algumas talvez vissem algum glamour nessa vida.  Eu achava tudo aquilo assustador, já que não há qualquer glamour em doenças mentais ou físicas. Depois de ter visto várias brigas, baixarias e até crimes, claro que saí do serviço.

O que mais me incomodava nessas moças era a atitude “sou legal demais para a escola / sei de tudo / sou superior” e pior, ver que muitas garotas se espelhavam nisso.  Sonhavam em casar com um cara “rico excêntrico” ou “em ganhar dinheiro magicamente”. Acreditavam que o suporte familiar duraria para sempre e diziam que não viam problema algum em “ser sustentada”. De fato, não há problema em receber a ajuda dos pais. Mas há problema em não produzir nada.

Eu sentia muito dó dessas meninas, porque elas acreditavam que não precisavam produzir, não precisavam ser úteis. Achavam que nada se aprende nas escolas. Achavam que não precisavam fazer uma faculdade, ter um foco profissional, pois ler em casa era o suficiente para se instruir. Diga para um médico, meteorologista, arquiteto ou qualquer outro profissional que não precisa estudar.  A discussão acadêmica e a troca de experiências é importante  em qualquer área do conhecimento. Sempre vai existir um mestre e o aluno. Claro que as relações hoje são mais flexíveis, já o aluno pode questionar o mestre e pode questionar a estrutura do ensino, mas tudo isso é feito dentro da escola (e fora dela também, mas começa do lado de dentro). No entanto, achar-se inteligente demais a ponto de ignorar a escola e até ser rude com os professores (muitas se gabavam disso), é burrice. É coisa de gente ignorante que não consegue ter noção da própria ignorância.

Quando me afastei dessa rede, fiquei pensando nos pais e responsáveis por essas adolescentes. Por onde andam? A internet tomou o lugar da TV na vida dos adolescentes, sem sombra de dúvidas. Os pais certamente não sabiam o tipo de conteúdo que elas liam, acessavam, compartilhavam e o tipo de ideologia que estavam seguindo. Recentemente, comecei a seguir o @NaoSouRacista e observei que muito chorume é compartilhado por adolescentes. Certamente espelham-se em “humoristas”, que fazem piadas racistas e chamam de humor politicamente incorreto. E eu faço a mesma pergunta: cadê a paternitade/maternidade ativa? Onde estão os responsáveis? Onde está o diálogo dentro das residências? Onde estão os pais que deveriam motivar os filhos?

Se eu não tivesse estudado, se eu tivesse adotado essa postura arrogante, se eu tivesse dado ouvido ao “bichinho” da baixa auto-estima, não teria ingressado em uma das melhores universidades do país. Não teria um bom emprego e não escreveria aqui nesse blog. Sim, ter um bom emprego é importante. Algumas pessoas tem a ideia romântica de que trabalhar é ruim. Trabalhar demais é ruim, com toda certeza. Mas trabalhar honestamente, numa quantidade de horas que permita o descanso e atividades de lazer, numa atividade que você gosta e é bem remunerado, é um orgulho. Produzir coisas positivas, ajudar na evolução da sociedade (e na evolução própria, claro), é muito importante. Claro que devemos questionar as relações de trabalho, para isso existem sindicatos, mas não dá para viver fora dessas relações se você quiser ter uma existência digna (não estou falando para burgueses, estou falando para proletariado). A meritocracia é uma lenda e na corrida da vida, muitos já começam na frente. Eu achava incrivelmente estúpido ver moças que já começaram na frente deixando a corrida de lado, em nome de uma postura rebelde que mal sabiam articular.

P.S.: Antes que alguém me interprete mal, estou falando especificamente do caso dessas moças do formspring, pois foi o que presenciei. Claro que há meninos e meninas que sofrem influências negativas de “famosinhos da internet” e tenho certeza que isso ainda continua acontecendo (esse P.S. escrevi em 28/04/2014).