Evento do INCLINE fala do AR5, última versão do Relatório do IPCC.



Na última sexta-feira fui a um evento do INCLINE  que é o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas da Universidade de São Paulo (USP). Para saber das programações de novas pesquisas, acesse esse link.

Esse núcleo de pesquisas é interdiciplinar. Isso significa que há profissionais de diversas áreas do conhecimento: engenheiros, meteorologistas, geógrafos, biólogos, etc. A pesquisa em Mudanças Climáticas é interdisciplinar, não há como fugir disso. Meteorologistas e físicos explicam os resultados das observações e dos modelos climáticos. Geólogos e outros profissionais fazem trabalhos de campo para retirar testemunhos de gelo, por exemplo. Sociólogos estudam como as alternativas para adaptação poderão ser implantadas em diferentes grupos de diferentes panoramas culturais. Jornalistas e outros profissionais da comunicação divulgam os relatórios para a população. Eu poderia citar outros exemplos, mas certamente vocês já perceberam que pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento estão envolvidos na pesquisa sobre Mudança Climática.

As palestras e workshops do INCLINE costumam ser muito boas. Na da última sexta-feira, o tema do encontro foi Seminário Mudanças Climáticas: Impactos, Vulnerabilidade e Adaptação. Quatro pesquisadores que participaram da elaboração e/ou revisão do último relatório do IPCC (leia mais aqui) palestraram sobre o assunto. Vou falar de cada pesquisador e um pouquinho sobre cada palestra apresentada. Como o AR5 saiu esse ano, é claro que vou falar muito sobre ele, aqui e em outros blogs que colaboro.

Primeira Palestra: Do AR4 ao AR5 – o caminho percorrido

O Prof. Dr. Pedro Leite da Silva Dias, professor do IAG-USP e do LNCC/MCTI. O Prof Pedro, que me deu aulas durante a graduação, falou sobre o caminho percorrido entre o AR4 e o AR5. Como disse nesse post, o Quinto Relatório de Avaliação (Fifth Assessment Report  – AR5) é um relatório desenvolvido por mais de 300 especialistas, de 71 países. Anteriormente ao AR5, foram publicadas 4 versões do relatório (AR1, AR2, AR3 3 AR4). Esses relatórios foram publicados respectivamente nos anos de 1990 (com revisão em 1992), 1995, 2001 e 2007. Em 2014, como noticiei recentemente, foi publicado o AR5. O Prof. Pedro, que participa da elaboração desses relatórios há muito tempo (desde sua segunda versão, se não me engano), disse que eles estão melhorando. Essa melhora é natural, pois a cada ano novos artigos científicos sobre o tema são publicados, atualizando os relatórios do IPCC. Além disso, a cada relatório um ponto pode ser mais destacado. No AR5, por exemplo, a questão hídrica foi bem destacada. Várias regiões do planeta encontrarão dificuldade em encontrar fontes de água potável. As comunidades andinas, que dependem da água do degelo regular, serão prejudicadas se as geleiras continuarem se derretendo de maneira acelerada.

Outro destaque foi para a aceleração da variabilidade. Isso significa que nos últimos anos, os cientistas observaram maior ocorrência de eventos extremos: chuvas acima da média, secas extensas, tempestades severas, etc.

O Prof. Pedro também contou brevemente a história do IPCC (cuja sigla, significa Painel Internacional de Mudanças Climáticas, em português). O professor contou que quando fazia doutorado nos EUA na década de 1970 já ouvia falar em Mudanças Climáticas. No entanto, o intenso El Niño de 1983 despertou nos cientistas um maior interesse nessa questão. Esse El Niño causou impactos não apenas no clima (1983 foi o ano mais chuvoso desde 1933 em São Paulo-SP, de acordo com os registros da Estação Meteorológica do IAG-USP), mas também na economia. Esse fenômeno climático de proporções mundiais fez os meteorologistas pensarem na mudança climática. E assunto passou a ser mais estudado até culminar na organização do IPCC.

O Prof. Pedro, dinossauro no IPCC (como ele mesmo brincou), também mencionou que os cientistas que participam do painel são distribuídos em grupos de trabalho, de acordo com suas áreas de expertise:

  • Grupo de Trabalho I: avalia os aspectos científicos do sistema climático e de mudança do clima
  • Grupo de Trabalho II: avalia a vulnerabilidade dos sistemas socio-econômicos e naturais diante da mudança climática assim como as possibilidades de adaptação a elas (mitigação)
  • Grupo de Trabalho III: avalia as opções que permitiriam limitar as emissões de gases de efeito estufa

O Prof. Pedro, que é matemático e é um dos grandes estudiosos dos fatores não-lineares que alteram a previsão do tempo e do clima,  está no primeiro grupo. Os demais professores que apresentaram as outras três palestras daquela tarde de seminário atuaram no grupo de trabalho II (GT2).

 

Segunda Palestra:  GT2 – Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade – Prof. Dr. Jean Pierre Ometto.

Não pretendo escrever extensivamente sobre cada uma das palestras, mas certamente usarei coisas que aprendi na palestra para escrever novos posts. Sendo assim, vou tentar ser breve também ao falar sobre a segunda palestra, proferida pelo Prof. Dr. Jean Pierre Ometto, do INPE. Ele é do CCST (Centro de Ciência do Sistema Terrestre), laboratório do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No site do CCST, há uma lista de publicações em que o laboratório esteve envolvido.

O Prof. Jean Pierre foi revisor de alguns capítulos do AR5 publicados  grupo de trabalho II (GT2). A propósito, acho que somando os trabalhos dos três grupos de trabalho que compõe o AR5, devemos ter mais de 1000 páginas de publicações. Para baixá-las, basta clicar nos links abaixo:

Grupo I

Grupo II

Grupo III

Quem clicar nos links acima vai perceber que há diversos links, cada um referente a um capítulo que compõe os trabalhos de cada um dos grupos de trabalho. Ou seja, é muito material. E esse material precisa ser organizado e revisado por especialistas de cada área abordada.

O que logo de cara chamou a atenção na apresentação do Prof. Jean Pierre é que ele colocou o mesmo quadro que apresentei nesse post:

america_do_sul

Esse quadro é parte do Summary for Policy Makers of the AR5 WGII. É um resumo de todos os trabalhos, voltado especialmente para os tomadores de decisão. O Prof. Jean Pierre lembrou que não são apenas os políticos que são tomadores de decisão. Cada um de nós tem um papel ativo na tomada de decisões que podem mitigar os efeitos do aquecimento global. Nosso primeiro papel ativo é na hora de votar. Devemos escolher representantes que insiram a crise climática em suas propostas. Além disso, nossas próprias decisões cotidianas interferem no ambiente. Consumir de maneira consciente e mudar a forma de se deslocar são exemplos práticos de atitudes que vão ajudar o planeta.

O Prof. Jean Pierre também lembrou outro importante destaque do AR5: a rápida taxa de diminuição do gelo nos polos e nos topos das montanhas mais altas. Essas geleiras sempre diminuíram ou aumentaram, dependendo da estação do ano, claro. No entanto, observa-se que essas geleiras estão recuando numa taxa muito alta. Falamos sobre isso nesse post, quando mencionamos um trabalho do Prof. Paul Bierman, que fala sobre a persistência do gelo na Groenlândia.

Outra importante questão mencionada pelo Prof. Jean Pierre é com relação a escolha dos profissionais que participam do IPCC. Quem escolhe os profissionais dos 71 países envolvidos na elaboração do relatório são os governos de cada um desses países. São escolhidos os melhores profissionais das áreas envolvidas na questão climática, aqueles que possuem mais publicações científicas, ou seja, que têm participação ativa na área. Durante a elaboração do relatório, é feita uma análise do estado da arte da ciência climática. Artigos publicados em renomados periódicos científicos são lidos e analisados. Como o Rodrigo explicou aqui, são artigos revisados por seus pares (ou seja, artigos escritos por cientistas e revisados por outros cientistas especialistas na mesma área).

No AR5, quando é dito, por exemplo, que “há uma elevada probabilidade de que algo aconteça”, essa probabilidade é citada mencionando a quantidade de artigos independentes que chegaram a conclusão de que aquele determinado fato pode acontecer. Por exemplo, se em um grupo de 100 artigos independentes e revisados pelos seus pares, 95 dizem que as geleiras da Cordilheira dos Andes estão diminuindo e 5 dizem que estão aumentando, é sábio concluir que a probabilidade de que as geleiras estejam de fato diminuindo é grande.

Terceira Palestra:  GT2 – Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade – Prof. Dr. Maria Assunção Faus da Silva Dias

Antes de falar de sua atuação no GT2, a Profa. Assunção usou dados da Estação Meteorológica do IAG-USP para falar sobre a seca extrema do último verão 2013/2014. Essa seca foi destacada no Boletim Climatológico DJF 2013/2014 publicado pela Estação Meteorológica do IAG-USP (confira na íntegra aqui). O release desse boletim, com um resumo, encontra-se aqui.  Destaco os seguintes trechos:

O trimestre DJF2013/2014, período referente ao verão 2013/2014, foi caracterizado por um total de 352,5mm de chuva, total bem abaixo da média climatológica que é de 634,8mm. Em outras palavras, choveu apenas 55,5% do esperado. Foi o 2° verão mais seco da série histórica, sendo superado apenas por DJF1940/1941, o qual acumulou apenas 345,7mm.

Outro destaque de DJF 2013/2014 foi a ocorrência de temperaturas bastante elevadas. A temperatura média de DJF 2013/2014 foi de 24,1°C, acima da média climatológica 1933-2013 que é de 21,3°C. Ao levarmos em conta a temperatura média máxima, o trimestre DJF 2013/2014 teve 30,6°C (também acima da média climatológica, que é 27,2°C). E considerando a temperatura média mínima, o trimestre DJF 2013/2014 teve 18,8°C (acima da média climatológica, que é 17,5°C).  Tanto a temperatura média quanto a temperatura média máxima do trimestre foram as mais altas de toda a série climatológica.

A Profa. Assunção falou da seca do verão, responsável por aumentar os temores com relação a um “apagão” hídrico. E é evidente que falta d’água é muito pior que falta de energia elétrica (outro risco que temos quando chove menos que o esperado, já que nossa matriz energética é em sua maior parte composta por hidrelétricas). O ser humano depende de água para viver! O problema da falta d’água é ainda mais agravado pelos nossos problemas estruturais: saneamento básico ineficiente e que não atinge toda população, desperdício de água antes de chegar na casa do consumidor, desperdício de água causada pelo próprio consumidor, água desperdiçada na indústria, falta d’água atingindo a população mais vulnerável, etc. A Prof. Assunção mostrou dados de nível d’água nos reservatórios e dados de chuva da Estação Meteorológica do IAG, do Mirante de Santana e de outros pontos. O pessoal do INCLINE disse que disponibilizaria todas as apresentações, mas elas ainda não estão no site. Quando tiverem, certamente avisarei meus leitores 🙂 .

Além da falta de chuvas do último verão, a Prof. Assunção destacou as chuvas intensas no período de inverno. O inverno do ano passado, por exemplo, foi bem chuvoso aqui em São Paulo-SP. Os invernos costumam ser secos, com pouca chuva. Essa mudança de comportamento foi apresentada pela Prof. Assunção. Parece exagero de jornalista ruim, mas o clima realmente está ficando doido. E os meteorologistas estão agindo como psicanalistas da atmosfera, tentando entender a ‘loucura’ do clima.

Segundo a Profa. Assunção, as principais causas da falta d’água na Cantareira  são:

– Tipo e Quantidade de Chuva: além da necessidade de se chover em quantidade suficiente, essa chuva precisa cair nas cabeceiras dos rios que alimentam o sistema Cantareira e claro, na região do próprio reservatório. Chuvas isoladas não são suficientes.

– Demanda: lembrem-se que esse último verão foi seco e muito quente. Com o aumento de temperatura, a demanda por água também cresce. As pessoas precisam regar hortas, encher piscinas (infelizmente piscinas não são nada ecológicas), etc.

– Gerenciamento: investimentos maiores no gerenciamento e ampliação desses reservatórios deveriam já ter sido feitos há anos. Além disso, deve-se também investir em mecanismos que permitam evitar o desperdício.

Depois de dar um panorama sobre a seca na RMSP (Região Metropolitana de São Paulo), a professora sitou isso no contexto do IPCC, em que fala-se sobre o aumento na quantidade de eventos extremos. Ela falou sobre sua atuação no AR5 e mostrou diversos gráficos que o Prof. Jean Pierre também discutiu.

Quarta Palestra:  GT2 – Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade – Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge

Essa palestra para mim foi a mais diferente pois foi dada por um biólogo do IB-USP. A presença de outros profissionais (que não meteorologistas ou outros cientistas do clima) em eventos desse tipo mostra exatamente a interdisciplinaridade do tema. O Prof. Marcos mencionou sua participação na autoria do capítulo 27 do GT2. Esse capítulo está listado nesse link do GT2 e pode ser acessado diretamente nesse link. Esse capítulo foca nas mudanças esperadas na América do Sul e na América Central. Se vocês repararem, o GT2 é dividido em dois volumes, respectivamente de  impactos globais e impactos regionais. O capítulo 27 trata dos impactos na América do Sul e América Central.

No início do Capítulo 27 (assim como no início dos demais capítulos), temos um sumário executivo. É um resumo dos temas tratados em todo o capítulo. O Prof. Marcos destacou cada um dos temas apresentados nesse resumo.  Como o Prof. Marcos é biólogo, durante sua apresentação ele falou sobre as adaptações que serão necessárias na produção de alimentos.

Eu pensei em mencionar nesse post todos os pontos destacados no resumo do Capítulo 27, mas deixarei isso para um próximo post. Como eu disse, esse evento me proporcionou diversas ideias de temas para abordar aqui no Meteorópole. Na verdade, cada capítulo do AR5 possibilita que vários posts possam ser escritos.

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Ao final das palestras, encontrei alguns colegas do INMET. Ficamos discutindo ‘meteorologices’. Esses eventos possibilitam o encontro e o re-encontro de diversos colegas, além de uma produtiva troca de figurinhas (e não to falando do álbum da copa…rs). A tarde do dia 25 de abril de 2014 acrescentou muito conhecimento para mim e o melhor, possibilitou a busca por mais informações. No final da apresentação, na parte das perguntas, um dos palestrantes mencionou a importância da popularização do conhecimento. Mudanças Climáticas deveriam ser um tema abordado e discutido por todas as faixas etárias, nas escolas, nos grupos de escoteiros e até dentro de casa.

Mais cedo, quando eu ainda estava no trabalho, um estagiário me telefonou falando que uma professora queria mostrar os instrumentos meteorológicos para os seus alunos de 9 anos. É animador ver esse tipo de interesse. A partir de agora, pretendo não apenas mostrar os instrumentos, mas focar ainda mais nas mudanças climáticas.