Filatelia e Meteorologia



Filatelia é um hobby que consiste em colecionar selos. Tem até um episódio muito engraçado de Chapolin Colorado sobre o tema

“Aristocratas vemos, gatunos não sabemos”

Quem coleciona selos, normalmente foca-se em um tema (selos com reproduções de um determinado artista, por exemplo), em um período histórico (selos da primeira metade do século XX), em uma determinada região (selos africanos do período neocolonialista), etc. Porque se for colecionar todo tipo de selos, fica bem difícil catalogá-los.

Meu pai tinha uma pequena coleção de selos, que não estava catalogada. Meu marido também tem uma coleção. Também não está catalogada, mas ele os colocou em pastas específicas para isso. Essas pastas são vendidas em grandes papelarias e possuem pequenos envelopinhos transparentes, como um álbum de fotografias, para que os selos sejam armazenados. Apesar de ter essas duas pessoas em minha família que gostam de selos, fui aprender um pouco mais sobre o hobby com o Prof. Mario Festa, que deu aulas para mim durante a graduação.

O Prof. Mario Festa possui uma coleção de selos sobre meteorologia. Sim, ele escolheu um tema e dedica-se a catalogar selos que tenham imagens de nuvens, fotografias ou pinturas de cientistas responsáveis pelo desenvolvimento da meteorologia, ilustrações feitas em comemoração à alguma descoberta científica da área da meteorologia e selos comemorativos do Dia Meteorológico Mundial.

Há alguns meses, mostrei um selo dos correio da Alemanha em homenagem ao físico alemão Joseph von Fraunhofer. Esse físico realizou diversas descobertas na área de óptica. Fraunhofer descobriu linhas escuras no espectro solar. Posteriormente, foi descoberto que cada uma dessas linhas (cada comprimento de onda relacionado com essas linhas) está associada com um elemento químico e representa como esses elementos absorvem a luz. Essa descoberta permitiu que pudéssemos conhecer a composição do Sol ou de qualquer outra estrela, apenas estudando a luz emitida por ela.

Selo em homenagem a ... Encontrei recentemente em meus arquivos e achei muito interessante ;)
Selo postal alemão de 1987 em homenagem a Joseph von Fraunhofer, físico natural do mesmo país, que desenvolveu diversas pesquisas na área de óptica.

Esse selo é um exemplo de um dos itens da coleção do Prof. Mario Festa. Ele possui selos em homenagens a diversos outros cientistas que realizaram trabalhos na área de meteorologia e alguns que também homenageiam cientistas que realizaram trabalhos na área de astronomia, matemática ou física. Afinal de contas, essas áreas se intercomunicam em diversos momentos.

No último Dia Meteorológico Mundial, o Prof. Mario Festa apresentou selos de diversos países e de diversos anos, que homenagearam o Dia Meteorológico Mundial. A exposição foi um sucesso. Como bem disse um querido colega meu, o Paulo Henrique Pimenta:

Selos, moedas e os brasões e armas formam a identidade de um país e os seus feitos ou comemorações. É muito bacana ver que a Estação Meteorológica do IAG não só conserva esta memória da meteorologia como possui uma série de selos internacionais que colocaria qualquer colecionador de queixo caído!

O Paulo depois me contou que tem interesse por filatelia desde criança. Como ele e outras pessoas que participaram das comemorações do Dia Meteorológico Mundial adoraram a exposição e inclusive fotografaram os selos, a Estação Meteorológica do IAG-USP colocou no ar em sua fanpage as reproduções de todos os selos expostos. O que chama a atenção dos colecionadores e de pessoas que amam geografia e história são os selos de países que já nem existem mais. O selo abaixo, por exemplo, é da République de Haute-Volta (República do Alto Volta) e é um selo em comemoração ao Dia Meteorológico Mundial de 23 de Março de 1962:

Haute Volta

Mas o que é República do Alto Volta? Atualmente, esse lugar não existe mais. O nome atual é Burkina Faso. Até 5 de agosto de 1960, a República do Alto Volta era pertencente a França. Nos séculos XVIII e XIX, os europeus decidiram invadir e lotear  a África entre eles e deram a isso o nome de neocolonialismo. A maioria desses países não foram independentes até a primeira metade do  século XX. Alguns processos de independência foram pacíficos enquanto outros não. Durante esse loteamento (feito para benefício próprio dos Europeus, claro), grupos de costumes diferentes e até rivais acabaram ficando no mesmo “país”. Essa situação gera conflitos e guerras até hoje. A fome, falta de saneamento básico e problemas de infraestrutura  que muitos países do continente africano enfrentam até hoje, são ainda consequências dessa política.

Mas voltando ao caso de Burkina- Faso (depois da aula de história – desculpem se cometi algum erro, amigos historiadores ), o país passou a ter esse nome em 4 de outubro de 1984. O nome tem um significado lindo: Burkina Faso significa “Pátria de homens íntegros”.

Um outro caso semelhante da exposição organizada pelo Prof. Mario Festa é o selo abaixo, em comemoração ao Dia Meteorológico Mundial de 23 de Março de 1965. O selo é da République du Dahomey (República do Daomé):

Daome

 

A República do Daomé era o nome do Benin. Até a década de 60, esse país também era território francês. O nome persistiu até 1975, quando mudaram para República do Benin, nome em alusão ao extinto Império do Benin (ou Império Edo), que existiu na mesma região do país por 400 anos (entre o século XIV e XVIII). Seu declinínio começou após contato com os europeus, até que bem no final do século XVIII o Reino Unido anexou esse reino. Eram hábeis artistas, como mostra essa máscara feita em marfim no século XVI:

Máscara de marfim do Império Edo. Fonte: Wikimedia Commons
Máscara de marfim do Império Edo. Fonte: Wikimedia Commons

Eu tenho um grande interesse em aprender história africana (veja esse post sobre Botswana), pois infelizmente esse tema não é ensinado nas escolas. Há um grande preconceito, embora muita gente discorde. Mas para ensinar sobre história da África e cultura africana dentro de um contexto brasileiro, teremos que falar das religiões africanas. E esse tema é abordado com preconceito e ignorância por parte de muitos brasileiros.

Na minha opinião, selos instigam a curiosidade. Quem coleciona selos, acaba lendo sobre o período em que foram publicados, acaba aprendendo mais sobre história. Talvez algumas pessoas colecionem inspiradas no caráter visual, na beleza das ilustrações. Eu não coleciono selos, mas a filatelia me inspira em querer saber mais sobre aquele lugar, sobre aquela época e sobre o assunto abordado. Como cada colecionador pode se inspirar em um tema diferente, as abordagens podem ser completamente diferentes, o que torna cada coleção única.

E veja todos os selos da coleção do Prof. Mario Festa relacionada ao Dia Meteorológico Mundial aqui. E curta a fanpage da Estação Meteorológica do IAG-USP. Além de divulgarem os dados horários de temperatura, umidade relativa e vento para a cidade de São Paulo, há fotos e textos informativos.

P.S.: O Vinícius, do Monolito Nimbus, também coleciona selos. Confiram 🙂.