Hay fever – O que é isso?



Sigo muitos meteorologistas e institutos de Meteorologia americanos e ingleses no Twitter e nos últimos dias só se tem falado nessa tal Hay fever. Um recente tweet do Met Office, instituto britânico equivalente ao nosso INMET:

Traduzindo esse termo literalmente, temos a expressão febre do feno. Isso mesmo, feno, aquela forragem usada na fazenda e que a gente vê um montinho rolando por uma rua vazia nos filmes e nos desenhos rs [1].

Hay fever é a loucura pelo jogo Hay Day? rs. Poderia até ser. Eu tive essa febre por alguns dias, hahaha.

Falando sério, procurando outra tradução, encontrei o termo polenose. Hay fever é basicamente rinite alérgica. Conheço muita gente que tem rinite alérgica, normalmente provocada por poeira. Só que no Reino Unido e nos Estados Unidos (assim como em outros países de latitude média e alta, já explico o porquê), essa rinite é provocada basicamente por pólen e por esporos de fungos. E esses casos aumentam significativamente no início da primavera.

Antes de falar sobre isso, preciso dizer que fiquei intrigada com o termo ‘febre do feno’. De onde veio esse termo para se referir a alergia a polén? Bom, a chave para entender esse termo é entender o que é o feno. O feno é na verdade uma mistura de diversos tipos de gramíneas e outros tipos de plantas, todas secas.

No inverno e em períodos secos, a pastagem não fornece alimentação de qualidade para o gado. Para manter a produtividade, é utilizado o feno. O feno ideal é totalmente seco. Se ficar “molhado”, a qualidade dele é comprometida.Encontrei ate um gif que mostra uma máquina que passa um plástico (acho) envolvendo o monte de feno. Provalvemente para protegê-lo da umidade (veja o gif aqui ele é muito grande para carregar nessa página).

Segundo esse verbete, 5kg de feno são suficientes para suplementar a alimentação de uma vaca adulta.

Na imagem abaixo, obtida aqui, temos um campo de feno na Bélgica. No fudo, é possível ver uns “cilindrões”. Aquele é o feno em preparação. E está exatamente do jeito que vi sendo preparado lá na Alemanha, quando viajei para lá no outono do ano passado.  De acordo com as informações do fotógrafo, a foto abaixo foi feita durante o verão de 2006. Ou seja, no verão os pecuaristas já estavam preparando a forragem do inverno.

398px-Field_Hamois_Belgium_Luc_ViatourCom as estações do ano tão marcadas, com um inverno bem frio e rigoroso, criadores de animais de países de latitudes médias dependem do feno armazenado para alimentar o gado e os cavalos durante o inverno. Voltei a falar recentemente sobre as estações do ano bem marcadas em países mais distantes da linha do Equador, nesse post sobre um timelapse feito ao longo de um ano lá na Cracóvia.

O feno começa a crescer na primavera das latitudes médias e é colhido no final do verão e início do outono. Como ele começa a crescer durante a primavera das latitudes médias, o vento transporta o pólen das florzinhas. O pólen é um alergeno, ou seja, pode causar alergia em algumas pessoas. Na primavera das latitudes médias, o tempo começa também a ficar mais seco (a neve derrete, evapora e chove menos). Assim, os fungos encontram condições adequadas para liberar os esporos. Musgos e outras plantas também possuem esporos, que são liberados nessa época. Esporos também são alergenos. E não apenas o pólen das plantas que compõe o feno são um problema para quem sofre de febre do feno. Esporos de árvores, que ficaram sem folhas e começam a se reproduzir durante a primavera também agravam o quadro alérgico.

Os sintomas dessa alergia são bem conhecidos de quem sofre de rinite: espirros, coceira no nariz e nos olhos, coceira e irritação na garganta, coriza e até um pouco de febre. O tratamento envolve o uso de anti-histamínicos e até de corticóides, dependendo do caso. Curiosamente, li também que quem nasce nesses locais durante o início da primavera, tem mais chances de desenvolver esta alergia, pois são expostos aos alergenos desde bebês.

É interessante notar como a mudança das estações do ano é dramatica nas latitudes médias. Aqui no Brasil não falamos tanto em febre do feno (ou hay fever) porque na maior parte do nosso território não temos as estações do ano tão marcadas assim. O problema por aquelas bandas é tão sério que o Met Office, por exemplo, faz previsão de concentração de pólen. Para fazer essa previsão, leva-se em conta as plantações e as vegetações da região, a temperatura e a direção do vento, dentre outros elementos. Em sua última previsão, o Met Office destacou o sudeste da Inglaterra como região com concentração alta (H,  high) de pólen.

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No site do Met Office há um destaque especial para o problema. Inclusive fizeram o infográfico abaixo para esclarecer a população. Em média, a cada 5 pessoas, 1 sofre de hay fever. Eles destacam a temporada de pólen para cada tipo de planta. E considerando todas as plantas, nota-se que o problema pode ir de fevereiro a novembro. A trégua ocorre mesmo só no inverno, em que as plantas não liberam pólen, já que estão quase sem folhas e flores. Em média, o sudeste da Inglaterra é a região com maior concentração de pólen. O informativo também destaca que bebidas alcóolicas agravam o quadro alérgico (e misturadas a anti-histamínicos, os remédios para alergia, são bem perigosas, já que potencializam o efeito da embriaguez).

O informativo também destaca que 95% das pessoas que sofrem de hay fever tem como principal causador o pólen da grama. No início da primavera, as pessoas vão mexer em seus jardins. É uma tradição em muitos países europeus, nos EUA e no Canadá. Os dias começam a ficar mais quentes e as pessoas vão ficando mais animadas para realizarem atividades ao ar livre.  E certamente todo o movimento nos jardins e o florescimento das plantas favorece o espalhamento do pólen.

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Fontes:

-Met Office

-Rinite Alérgica

-MedLine

Notas

[1] O Toshio acabou com meu mundo, quando disse nos comentários que isso não é feno, mas sim tumbleweed. Ele não encontrou uma tradução para esse termo (e eu também não). Mas pelo que li, é a parte ‘aérea’ de algumas plantas (sabe aquelas raízes que ficam fora do solo?). Em locais secos, quando as plantas estão mais velhas, essa parte da planta “seca” e se embola e é carregada pelo vento e é dessa forma que essa planta se reproduz. E o Toshio mora em Curitiba (onde as estações do ano são bem mais marcadas que em São Paulo, por exemplo) e segundo ele, os casos de rinite por lá aumentam na primavera.