IPCC Examina Impactos globais da Mudança Climática: segurança hídrica ameaçada

Lendo artigos científicos, assistindo seminários e lendo textos de divulgação, percebo como o vocabulário de minha área modifica-se. Acredito que isso acontece em outras áreas também, já que novas descobertas exigem termos novos para descrevê-las.

Atualmente já se fala em Mudança Climática e não Mudanças Climáticas. Aqui no Meteorópole vocês vão notar as duas tags, dependendo da época em que o texto foi escrito. Acredito que essa mudança (do plural para o singular) tenha a ver com deixar o assunto mais assertivo, menos genérico, pois já sabemos o tipo de mudança que está acontecendo e será agravada no futuro: a temperatura média global está subindo como consequência do aumento das emissões de gases de efeito estufa.

A elevação da temperatura média vai alterar regimes de precipitação, vai ajudar a espalhar vetores de doenças tropicais e aliando a mudança climática a falta de consciência ambiental (desmatamento, uso inapropriado do solo, poluição dos solos e da água, etc), enfrentaremos também falta d’água, perda da biodiversidade, desertificação, etc.

Ou seja: sabemos muito bem o tipo de mudança que vai ocorrer. Por isso, não faz mais sentido falarmos em mudanças.

Uma notícia do Met Office de  31 de março de 2014  divulga um novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Mais de 300 cientistas de 71 países estão trabalhando em grupo, no chamado Grupo de Trabalho II (ou Working Group II – WGII, que é como aparece nos documentos do IPCC). Eles estão desenvolvendo o Quinto Relatório de Avaliação (Fifth Assessment Report  – AR5), com informações adicionais de mais de 500 revisores especialistas, como parte do processo de elaboração desse relatório.

Ou seja: não é um artiguinho fajuto escrito por um jornalista pitaqueiro. É uma produção científica, escrita, analisada e endossada por diversos especialistas. E num grupo tão heterogêneo assim de pessoas, cada uma proveniente de um país diferente, é incrível notar como há uma concordância. E essa concordância é de que a mudança climática já está apresentando impacto no planeta e esses impactos devem aumentar ainda mais no futuro.

Esses impactos incluem: aumento na temperatura, mudança nos regimes de precipitação, derretimento da neve e do gelo, mudanças no comportamento e no habitat de diversas espécies, etc.

Além disso, o aquecimento global tem também impactos na agricultura, como também afirma o documento. E a maioria desses impactos são negativos. 

Os relatórios do IPCC falam muito em impactos globais. Seguindo as mesmas diretrizes, diversos institutos de pesquisa de diversos países tem também feito suas pesquisas para determinar os impactos locais.  Como exemplo, lá no Reino Unido, o Met Office divulgou recentemente um documento que menciona os eventos meteorológico extremos dos últimos anos e também faz uma projeção para o futuro do Reino Unido. E aqui no Brasil, destaco o trabalho do IPAM, o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia. A floresta é diariamente ameaçada pelo desmatamento, mas o aquecimento global causará mudanças ainda mais severas nesse ecossistema. Com um excelente e esclarecedor material de apoio sobre o tema (baixe aqui) e com um curso gratuito (mais informações aqui), o IPAM tem se destacado em pesquisa científica e na popularização do tema, focando principalmente na Floresta Amazônica.

Voltando ao relatório do WGII, nele também há informações sobre como as pessoas podem mitigar alguns dos efeitos da mudança climática. Isso inclui a atuação governamental, no desenvolvimento de planos de adaptação e na criação de políticas públicas que devem necessariamente usar como base as últimas evidências das pesquisa climáticas. Essa ligação entre política e ciência é extremamente importante para colocar as coisas em prática e para levar o que é produzido na academia para  população. Infelizmente não vejo tanto isso, já que ainda ouço falar de empresas públicas fazem convênios com empresas que fazem semeadura de nuvens ou com entidades esotéricas.

O aumento do aquecimento global no futuro é inevitável, segundo o relatório do WGII. O CO2 emitido por nós nas últimas décadas vai ficar por muito tempo por aqui, absorvendo o calor emitido pela superfície da terra e aquecendo ainda mais a atmosfera. No entanto, de acordo com o relatório, as emissões de gases de efeito estufa devem ser substancialmente reduzidas para evitar maiores problemas. Dessa forma, reduziremos riscos de impactos ainda mais irreversíveis e severos, como a morte dos recifes de corais e o total derretimento do gelo do Ártico. 

O renomado Prof. Richard Betts, do Met Office e um dos principais autores do relatório do WGII, ainda disse: “O presente relatório reúne provas provenientes de várias vertentes para mostrar que a mudança climática já está tendo um impacto global, particularmente no mundo natural, e que haverá impactos maiores no futuro.”

Os relatórios do IPCC são enormes, pois são muito detalhados e apresentam dados de diversos locais do mundo. No site, eles publicam um resumo especial para tomadores de decisão (políticos, por exemplo). Esse documento é chamado: Summary for Policy Makers of the AR5 WGII. Nesse documento, há uma tabela mostrando os principais impactos da mudança climática em cada um dos documentos. Separei o da América do Sul:

america_do_sul

Na tabela, os principais impactos listados para a América Central e América do Sul são:

– redução da disponibilidade de água potável, principalmente em áreas que dependem de água do degelo (como diversas comunidades andinas). Lembrando que com a redução do gelo nos Andes, os rios da Região Amazônica sofrerão impactos, já que as nascentes de muitos rios da região estão nos Andes e a água vem do degelo natural no verão. Essa questão da água é bem debatida naquele curso que mencionei.

– enchentes e deslizamentos de Terra em áreas rurais e urbanas: nós da RMSP sabemos muito bem o que é isso.

– redução na produção de comida e diminuição na produção de comida de boa qualidade.

– espalhamento de doenças transmitidas por vetores (como a febre amarela e a dengue): essas doenças serão mais comuns e afetarão pessoas em áreas de latitudes mais altas (como o sul da América do Sul) e em áreas de altitudes mais elevadas (como comunidades andinas).

A tabela também apresenta prospectos para a adaptação:

– Integração da gerência dos recursos hídricos. Discussões como a recente sobre a transposição do Rio Paraíba do Sul  devem ser regra e a população deve participar delas.

– Integração na gerência e controle de enchentes rurais e urbanas: melhoria nas previsões, melhores sistemas de alerta meteorológico e alerta de doenças infecciosas (como a perigosa leptospirose, que tem sua incidência aumentada durante enchentes).

– Desenvolvimento de variedades de cultivo mais adequadas à nova realidade climática.

– Compensação na saúde humana e animal, devido a redução da comidade de qualidade

– Compensação nos impactos econômicos da mudança de uso do solo

– Fortalecimento do conhecimento tradicional das práticas indígenas: eles são povos da floresta, vivem sob princípios da subsistência e temos muito o que aprender com os povos indígenas. Eles conhecem a natureza e sabem viver causando impacto mínimo ao ecossistema.

– Desenvolvimento de sistemas de controle de doenças que usam como base o clima e outros fatores relevantes.

– Estabelecimento de programas para estender o acesso a serviços básicos de saúde. E insiro aqui o saneamento básico. Sabiam que menos de 50% da população brasileira tem serviços de coleta de esgoto? Veja esse e outros números vergonhosos no site da Trata Brasil.

O informativo também apresenta os riscos climáticos para curto, médio e longo prazo.  Observem que para a questão da água, para mim a mais preocupante, os riscos são praticamente certos para o final desse século. Meus filhos e netos enfrentarão um mundo difícil, como racionamento extremo de água e com dificuldade para obter água limpa. Provavelmente meus bisnetos não saberão o que é uma piscina ou um banho demorado. A água talvez nem será insípida e refrescante. As pessoas mais pobres serão as mais afetadas, se não mudarmos nosso modelo econômico. A Revista FAPESP já publicou uma ótima reportagem sobre a divulgação do relatório do WGII e falou do risco para a segurança hídrica.

Precisamos mudar agora. Ver essas projeções me entristece muito, mas podemos tirar forças delas e acreditar na capacidade humana de adaptação.   Fico revoltada ao ver essa questão sendo tratada com leviandade e desonestidade intelectual por parte de alguns “intelectuais” ou jornalistas reacionários que disseminam sua ignorância.

Esse resumo que mencionei, que possui o quadro que destaquei acima para cada um dos continentes,  pode ser consultado aqui. Aconselho a leitura por parte de jornalistas responsáveis pela coluna/caderno de ciência e tecnologia. E se você é professor, acompanhe também os relatórios divulgados no site do IPCC. Procure informação em locais adequados, produzida e divulgada por especialistas. Muitas coisas que a gente vê pela internet é “desinformação”, já disse o Prof. Ian Stewart.