IPCC ressalta a importância de ações efetivas para a redução de gases de efeito estufa

Semana retrasada, falei do novo relatório do IPCC que menciona que a mudança climática pode provocar sérios riscos à segurança hídrica. Muito provavelmente, o que estamos vivendo em São Paulo no momento já seja um prelúdio: no futuro, o acesso a água potável de qualidade vai ser muito difícil se mudanças em nossas formas de produção e consumo não acontecerem. E esse fato foi mencionado em um recente ciclo de palestras que tive a oportunidade de assistir.

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Descrição da figura acima: Emissões antropogênicas de GEE (gases de efeito estufa). A escala está em GtCO2eq/yr (gigatoneladas equivalentes de dióxido de carbono por ano) e está separado por grupo de gases e também de acordo com o tipo de emissão, correspondendo a emissões de 1970 até 2010. O CO2 é emitido na queima de combustíveis fósseis (em amarelo) e o CO2 também é emitido em mudanças de uso do solo (queimadas e alteração na cobertura do solo) e está indicado na cor laranja. Outros gases, também GEE, aparecem na figura acima: metano (CH4), em azul claro; óxido de nitrogênio (N2O), em azul ‘médio’; gases fluorados (azul escuro).  No lado direito das emissões da figura, esses mesmos gases são indicados separadamente, mostrando a concentração de cada um em 2010. As barras escuras sobre cada coluna indicam as incertezas nas medições. As emissões de CO2 por mudança de uso do solo têm incerteza muito grande, da ordem de ± 50 % . Incerteza para as emissões globais de CH4 , N2O e para os gases fluorados foram estimadas como 20 % , 60 % e 20 % , respectivamente. Foi usado o ano de 2010 pois é o mais recente no qual as estatísticas de emissões de todos os gases, bem como avaliação de incertezas, estão completas. Fonte: Summary for Policimakers do AR5, último relatório do IPCC. Consulte aqui.

 

Em um novo comunicado à imprensa, a Organização Meteorológica Mundial (OMM ou WMO) falou mais uma vez deste novo relatório do IPCC.  O comunicado, lançado em Berlim em 13 de abril, menciona que “ainda é possível evitar os piores efeitos da mudança climática”.  No entanto, isso só será possível se a comunidade internacional “tomar medidas urgentes e ambiciosas” para conter as emissões de gases de efeito estufa.

Uma das palavras utilizadas no comunicado (que pode ser consultado aqui) é to curb. Essa palavra significa conter, interromper, frear. Essa palavra tem sido bastante utilizada nas discussões sobre mudança climática e na minha opinião tem um siginificado muito mais enfático que simplesmente “to stop” ou “to reduce”.

Ano passado, o IPCC afirmou que para limitar a até 2°C o aquecimento causado por emissões de efeito estufa, seria necessário que nossas emissões de CO2 no futuro fossem muito menores que as emissões do passado. No novo relatório do IPCC, na parte dedicada a Mitigação da Mudança Climática, é apresentado o que devemos fazer para superar esse importante desafio.

Uma curiosidade no novo relatório do IPCC esse ano, mais especificamente no capítulo referente ao Grupo I, é que colocaram as coisas sob uma perspectiva diferente: qual o máximo de CO2 que podemos emitir para limitar o aquecimento para até 2°C?

De acordo com o relatório,  as emissões de CO2 devem ficar abaixo de cerca de 1 000 gigatoneladas de carbono (GtC). A partir de 2011, mais da metade desse montante, ou 515 GtC, já havia sido emitida desde o início da era industrial. Quando os efeitos do aquecimento de outros gases de efeito estufa estão incluídos (como os mencionados na figura que abre essa postagem), o CO2 acumulado precisaria ser ainda  menor – cerca de 790 GtC – para manter abaixo de um aquecimento de 2,0 ° C.

Como os gases de efeito estufa podem durar décadas ou mais na atmosfera , as emissões do passado e as atuais  continuarão a afetar o clima por muitos anos. O monitoramento desses gases tem confirmado que as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa têm aumentado para níveis sem precedentes , pelo menos nos últimos 800 mil anos.

Nesse novo comunicado da OMM, aprendi algo interessante sobre a organização do IPCC. Ele é patrocipado pela OMM, que é um órgão vinculado às Nações Unidas (eu falei um pouco da história da OMM nesse post). E no comunicado, Michel Jarraud, que é Secretário Geral da OMM, disse algo muito pertinente:

“De pesquisadores do clima a apresentadores de TV e rádio, a comunidade meteorológica tem um papel chave em informar tomadores de decisão (os políticos) e o público geral sobre as causas e sobre os impactos da mudança climática. Os serviços e previsões que nós (comunidade meteorológica) disponibilizamos também ajudam nos esforços para a adaptação às novas condições climáticas e na redução da emissão de gases de efeito estufa”.

Gosto de pensar que meu trabalho no Meteorópole é parte dessa engrenagem. Se eu conseguir esclarecer uma pessoa e se essa pessoa for professor (melhor ainda, efeito multiplicador), já fico muito satisfeita com meu trabalho :).