Novo recorde mundial de precipitação – na Índia

Hoje a meteorologista Cátia Braga compartilhou a informação de um novo recorde de precipitação na Índia (aproveitem para seguir a Cátia).

Uma comissão da Organização Meteorológica Mundial (OMM) concluiu que Cherapunjee na Índia, agora possui o recorde mundial de dois dias (48 horas) de chuva, com 2.493 milímetros (98,15 polegadas) registrado em 15 a 16 Junho de 1995.

Cherrapunji

O recorde anterior foi registrado em Aurère, Ilhas Reunião (falamos desse e de outros recordes associados à precipitação aqui) e era de 2467mm, nos dias 7-9 de janeiro de 1958.

Numa recente publicação do site da Arizona State University:

Um painel internacional de meteorologistas da OMM, com profissionais da Argentina, Colombia, França, Alemanha, Índia, Marrocos, Espanha e Estados Unidos completaram recentemente uma investigação sobre dois possíveis recordes mundiais. O primeiro, um recorde de precipitação em Puerto Lopez, Colômbia, foi conduzido para verificar se a região possui o recorde de maior precipitação média anual da Terra. O comitê decidiu não aceitar esse fato, baseando-se no fato de que a Estação Meteorológica de Puerto Lopez não seguiu as recomendações da OMM de que deveria existir um período de pelo menos 30 anos de funcionamento da estação (para que pudesse ser calculada a normal climatológica). Dessa forma, a OMM está deixando a categoria de “recorde de maior precipitação média anual” sem nenhum representante [nota: algumas fontes afirmam que o local com maior recorde de precipitação média anual é  Mawsynram, Índia, com 11872mm, mas não tenho informações se essa estação tem pelo menos 30 anos de funcionamento]. Quando a estação de Puerto Lopez tiver completado mais tempo de funcionamento ininterrupto, a existência de um possível recorde voltará a ser avaliada. O segundo recorde trata-se da verificação do total de precpitação em Cherrapunji, na Índia, entre 15-16 de Junho de 1995 (2493mm). Foi verificado que esse local tem o novo “recorde mundial de maior total de precipitação em 48h”.  Esse valor ultrapassa o recorde anterior da OMM (2467mm), de Aurère, nos dias 7-9 de janeiro de 1958.

Cherrapunji é uma localidade chuvosa extremamente conhecida. No site do Bureau of Meteorology, da Austrália, a cidade se destaca:

2 meses 12767mm Cherrapunji, India Jun-Jul 1861
3 meses 16369mm Cherrapunji, India Mai-Jul 1861
4 meses 18738mm Cherrapunji, India Abr-Jul 1861
5 meses 20412mm Cherrapunji, India Abr-Ago 1861
6 meses 22454mm Cherrapunji, India Abr-Set 1861
11 meses 22990mm Cherrapunji, India Jan-Nov 1861
1 ano 26461mm Cherrapunji, India Ago 1860 – Jul 1861
2 ano 40768mm Cherrapunji, India 1860 – 1861

No post sobre recordes de precipitação, Cherrapunji foi mencionada: maior quantidade de chuva acumulada em um ano, com  26470mm (1860-1861). Na cidade, há uma placa que avisa que o local é chuvoso:

446px-Cherrapunji

“O lugar mais úmido do planeta Terra”. Fonte: Wikimedia Commons

Além de dizer que a localidade é um resort de férias, outra coisa que também chama a atenção na placa acima é a última linha: “Jan, Fev, Nov e Dez recebe pouca chuva ou não há chuva”. O que nos leva a concluir que o local possui uma estação chuvosa bem marcada. Bem marcada? Muito mais do que bem marcada. A estação chuvosa é mais do que bem marcada (vocês podem me ajudar com um adjetivo pra isso? rs).

Ainda de acordo com a placa, a média entre 1973-2002  seria de 12063mm, valor que seria maior que o de Mawsynram, também na Índia, com 11872mm. Imaginem chover essa batelada apenas entre o período de Março a Outubro. Para vocês terem uma idéia, a precipitação anual em São Paulo-SP é em torno de 1400mm por ano. Em São Paulo-SP temos uma estação chuvosa e seca bem marcada, mas em Cherrapunji eu diria que o negócio é dramático.

Apesar da aparente abundância de chuva, mesmo que perene, os habitantes da localidade enfrentam sérios problemas de falta d’água, muitas vezes tendo que viajar quilômetros para obter água potável. Na reportagem da BBC, escrita por um correspondente de Calcutá que conhece a região, parece que a percepção da população é de que a quantidade anual de chuva tem diminuído e ela tem ficado ainda mais perene.

Usando dados da NOAA e adaptando uma tabela de um verbete da Wikipedia, temos a seguinte tabela com as médias de temperatura, temperatura mínima, temperatura máxima e precipitação para a cidade de Cherrapunji:

Adaptado de Wikimedia Commons, com dados da NOAA

Adaptado de Wikimedia Commons, com dados da NOAA

Observem que entre os meses de Novembro e Fevereiro, chove menos de 100mm por ano. A chuva fica absurdamente concentrada entre os meses que mencionei anteriormente, Março e Outubro. São Paulo tem uma característica semelhante (com a diferença de que em Cherrapunji chove 9x mais anualmente), só que a chuva fica concentrada entre Setembro e Março:

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

Ou seja: em Cherrapunji (lembrando que a cidade está no Hemisfério Norte!), assim como em São Paulo, a chuva fica mais concentrada no período de verão. Só que em Cherrapunji. Só que em Cherrapunji o negócio é bem mais dramático. Observe na tabela da Wikipedia/NOAA: em Julho, chove cerca de 3272mm nessa cidade. O total anual de chuva em São Paulo é de 1400mm!

Mas por que chove tanto em Cherrapunji?

São as monções.

"Get ready, bitches, because it's Monsoon Season." [ok, piada que só quem acompanha RuPaul's Drag Race vai entender...rs, mas essa talentosa artista atende pelo nome de Jynx Monsoon e essa frase era dita por RuPaul ao longo da quinta temporada do show rsrs].

“Get ready, bitches, because it’s Monsoon Season.” [ok,  só quem acompanha RuPaul’s Drag Race vai entender…rs, mas essa talentosa artista atende pelo nome de Jynx Monsoon e essa frase era dita por RuPaul ao longo da quinta temporada do show rsrs].

O Deserto do Thar, localizado na porção centro-norte do subcontinente indiano aquece consideravelmente durante o verão. Isso faz formar-se uma área de baixa pressão sobre a região. Para preencher esse “vazio” causado pela baixa pressão, ventos úmidos do Oceano Índico sopram em direção a Índia. Esses ventos encontram o Himalaia, e assim o ar é forçado a subir. Como o Himalaia é uma cordilheira muito alta, esses ventos não conseguem chegar até a Ásia Central. O efeito orográfico (causado pela subida do ar) faz com que a convecção ocorra por ali mesmo. Chamamos esse processo de monções, que vem da palavra árabe mawsin e significa “estação”. Inclusive os portugueses foram que trouxeram esse nome para outros idiomas ocidentais. Em inglês, a palavra é monsoon. Grandes navegadores que foram, provavelmente observaram esse fenômeno e importaram o termo do árabe.

As monções são responsáveis por grande parte da precipitação na Índia. A agricultura, importante atividade econômica do país, depende muito das chuvas. Se as monções atrasarem ou trouxerem menos chuva que o esperado, podem prejudicar a atividade. Além disso, as monções são responsáveis por alagamentos, causando problemas de infra-estrutura, favorecendo a transmissão de doenças e provocando mortes em áreas mais pobres. Em 2007, por exemplo, 178 pessoas morreram e mais de 19 milhões de pessoas ficaram desabrigadas na Índia e em Bangladesh.

Todas as cidades ao redor de Cherrapunji (assim como boa parte da Índia e Bangladesh) são muito chuvosas, em decorrência das monções. Em Cherrapunji chove um pouco mais do que nas áreas vizinhas também tem relação com a orografia: os ventos úmidos são “canalizados” por um vale. Quando esses ventos atingem algumas montanhas da região (as Montanhas Khasi), o ar é forçado a subir, formando nuvens de chuva bem carregadas.

Monções . Fonte: Wikimedia Commons

Monções . Fonte: Wikimedia Commons

A imagem acima, da Wikipedia, mostra que durante o inverno (período entre Novembro e Fevereiro), o vento predominante é de Nordeste. Ou seja, o vento vem do continente. É um vento bem seco, que desfavorece totalmente a formação de nuvens de chuva. Já no verão (de Junho a Agosto), o vento sopra de Sudoeste. Ou seja, o vento no verão vem do oceano, trazendo umidade, o que favorece a formação de nuvens carregadas. A linha indica a presença da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT ou ITCZ), região do planeta onde os alíseos do Hemisfério Sul encontram-se com os alíseos do Hemisfério Norte (leia mais aqui). Essa área favorece ainda mais a formação de nuvens de tempestade. A figura acima também mostra a marcha da chuva: ela começa primeiro no Sudeste da Índia, na região do Tamil Nadu (no comecinho de Junho) e no começo de Agosto chega ao noroeste da Índia (região do Rajastão). Ou seja, a chuva vai avançando conforme o vento de Sudoeste vai avançando pelo continente.  Bangladesh, país vizinho que não está indicado no mapa, está nessa região a Nordeste da Índia, a Sudoeste de Arunachal Pradesh.

Pretendo escrever mais sobre as monções. Elas também ocorrem na China, não tão dramaticamente quanto na Índia, mas também determinam o planejamento da agricultura e de outras atividades econômicas.