Paisagem oculta abaixo do gelo da Groenlândia

Em inglês, Groenlândia é Greenland. Traduzindo literalmente, temos “Terra Verde”. Mas quem conhece o lugar, mesmo que seja através de fotografias e vídeos (como é meu caso), já observou que o lugar não tem nada de verde. Quando penso em Groenlândia penso numa imensidao coberta por gelo, algumas rochas nuas e pouquíssima vegetação. E para quem é de um país tropical como é meu caso, talvez a noção de ‘pouca vegetação’ seja um pouco equivocada, mas me refiro a apenas alguns arbustos de menos de 1m, muito líquen e musgos. O que esse cenário teria a ver com uma “terra verde”? Bom, é exatamente disso que vou falar no post e vou mencionar uma descoberta bem recente, feita por cientistas ao perfurarem uma camada de gelo dessa longínqua terra.

Os portugueses devem conhecer Groenlândia por Gronelândia. E esse nome veio do dinamarquês Grønland, que significa “terra verde”.  Na pré-história, diversos grupos de paleoesquimós se estabeleceram no local. Em cerca de 1000 d.C, o território foi colonizado por noruegueses em alguns assentamentos que floreceram e desapareceram completamente em torno do século XV. 

Entre 800 e 1300 d.C, a região teve um clima muito ameno, o que favoreceu a agricultura e a plantação de gado nesses assentamentos noruegueses (que estavam na costa sudoeste dessa grande ilha). Conflitos com os inuítes (povos que já habitavam o local antes da chegada dos noruegueses) e desbalanços ambientais foram os responsáveis pelo fim desses assentamentos noruegueses. Aparentemente, os invernos foram ficando cada vez mais rigorosos, o que dificultou a vida dos noruegueses no local. Os inuítes por outro lado já eram mais adaptados ao frio e praticavam a caça.

Do século XVI até meados do século XVIII (ou XIX, não há muito consenso) ocorreu o que os cientistas chamam de Pequena Era Glacial. E foi provavelmente isso o que acabou com a festa dos noruegueses na região. A mudança climática foi um fator decisivo, o que certamente foi agravado pela degradação ambiental. Os noruegueses usavam madeira para construção de suas casas e para uso na agropecuária, o que fez com que erosões de terra nas regiões que ocupavam se tornassem comuns.

Em 1500, o Rei Dom Manuel I de Portugal teria enviado os irmãos Corte-Real para descobrirem a Passagem do Noroeste (e claro, também para descobrirem novas terras). Reza a lenda que Gaspar Corte-Real teria chegado a Groenlândia e acreditou ter chegado a Ásia (não acredito rs), mas não desembarcou (não acredito rs). Fez então uma segunda viagem em 1501, com seu irmão Miguel. Quando encontraram o mar gelado, desviaram sua rota para Sul e chegaram ao Canadá, provavelmente nas regiões de Labrador e Terra Nova.

Só no final do século XVI, João Martins, piloto português, estaria trazendo Dom Lorenzo Ferrer Maldonado (que era governador das Filipinas) das Filipinas para a Espanha. . Ele teria passado pela Passagem do Noroeste com sucesso e acredita-se que ele tenha sido o primeiro navegador a passar com êxito pela região.

Passagem do Noroeste, caminho difícil que liga a Europa ao Pacífico.

Passagem do Noroeste, caminho difícil que liga a Europa ao Pacífico.

Um dia ainda vou escrever um post mais completo sobre essa história da Passagem Noroeste. Como vocês podem imaginar, não é um caminho fácil e nem é possível em qualquer época do ano. Precisa ser verão no Hemisfério Norte, o gelo tem que estar derretido a ponto de permitir a passagem de embarcações. Sendo assim, há muitas “lendas” misturadas com historia. Alguns navegadores diziam ter feito tal passagem, quando fizeram outro caminho. Pode-se ler um pouco mais dessas “tretas” aqui.

Atualmente, a Groenlândia é uma região autônoma, vinculada à Dinamarca.  Devido à proximidade geográfica com o Canadá e com os Estados Unidos, o país atualmente possui relações comerciais e diplomáticas com esses paises, em alguns casos mais próximas que com a Dinamarca.

Agora vamos falar da recente pesquisa publicada na Science,  liderada por Paul Bierman, geomorfologista da Universidade de Vermont, dos Estados Unidos. Essa pesquisa foi o que me incentivou a escrever esse post.

Numa regão groenlandesa chamada Summit, há uma estação científica. O local fica mais ou menos no meio do chamado Manto de Gelo da Groenlândia e fica numa altitude superior a 3000m.

Acima, uma representação da topografia do território Groenlandês. Em destaque, o ponto mais alto, Summit. Fonte: Wikimedia Commons

Acima, uma representação da topografia do território Groenlandês. Em destaque, o ponto mais alto, Summit. Fonte: Wikimedia Commons

Em um mapa mais detalhado, é possível ver que boa parte dessa “altura toda” é composta por gelo:

Mapa da espessura da camada de gelo da Groenlândia. Fonte: Wikimedia Commons (mais informações aqui)

Mapa da espessura da camada de gelo da Groenlândia. Fonte: Wikimedia Commons (mais informações aqui)

E abaixo de toda a geleira do Summit, há um solo que nasceu antes dos primeiros seres humanos caminharem na Terra.   É um solo composto basicamente por silte, remanescente da tundra verdejante que cobriu a Groenlândia antes que o gelo a encobrisse. Essa descoberta foi divulgada no último 17 de Abril na Science.

Além disso, pólen e DNA vegetal enterrado no fundo do mar, no litoral da Groenlândia sugerem que no passado a ilha teve tundra e vegetação esparsa, muito parecido com que encontramos hoje no norte do Canadá. A pesquisa sugere que a tundra dominava a Groenlândia.

“Houve uma paisagem realmente estável na Groenlândia antes da camada de gelo chegar”, disse o principal autor do estudo, Paul Bierman, geomorfologista da Universidade de Vermont. Segundo o estudo, essa camada de silte estaria “enterrada” sob o gelo há cerca de 2,7 milhões de anos.

Esses resultados também mostram que o Manto de Gelo da Groenlândia é bastante duradouro. Se o solo abaixo da camada de gelo, lá no Summit, está abaixo da camada de gelo por 2,7 milhões de anos, a descoberta implica que essa camada de gelo nunca derreteu completamente, mesmo durante os períodos mais quentes, como no aquecimento natural que ocorreu há cerca de 130.000 milhões de anos.

“Agora sabemos que é improvável que a camada de gelo tenha desaparecido por períodos de tempo significativo nos últimos 3 milhões de anos”, afirmou Bierman. Além disso, o pesquisador lembrou da atual mudança climática, causada pelas atividades humanas.

Há alguns meses, vi o documentário Chasing Ice (estava disponível no Netflix, não sei se ainda está). No documentário, James Balog, aclamado fotógrago ambiental, conta que era um “cético do clima” (acho esse termo muito estranho). No entanto, após vários trabalhos de campo fotografando geleiras, ele encontrou evidências das mudanças climáticas. Sim, o cara é bem São Tomé. Ele era muito cínico com relação às pesquisas acadêmicas, mas depois que suas fotografias mostraram que o gelo em diversas regiões tem recuado mais do que a média durante os meses quentes (e as geleiras não tem aumentado como deveriam durante os invernos), James percebeu que as mudanças climáticas estão realmente acontecendo. Balog usou câmeras apropriadas e robustas (para que aguentassem às condições meteorológicas de tempo severo), para registrar imagens em timelapse. O documentário, lançado em 2012, foi muito premiado e as imagens que Balog e sua equipe obtiveram são de tirar o fôlego.

E estou falando desse documentário no meio de um post sobre a Groenlândia porque um dos locais que Balog e sua equipe vão é a Groenlândia. E no documentário podemos ver exatamente o que Bierman quis dizer: a mudança climática natural de 130.000 anos atrás (também conhecido como Eemiano), não foi capaz de de derreter todo o gelo da Groenlândia, mas o que estamos fazendo hoje com nosso clima pode fazer isso acontecer.

Uma das curiosidades da pesquisa de Bierman é que o gelo do Summit foi coletado em 1993 e estava arquivado no National Ice Core Laboratory em  Denver, no Colorado. Junto com esse gelo, também havia permafrost, que é solo congelado.  Evidentemente várias pesquisas foram feitas a partir desse testemunho de gelo, mas recentemente Bierman e sua equipe decidiram usar o material para tentar descobrir a história da paisagem groenlandesa. Normalmente, usam testemunhos de gelo para fazer pesquisas sobre a evolução do clima, já que entre as diferentes camadas que compõe o testemunho ficam “presos”  alguns gases, como diferentes isótopos de oxigênio, nitrogênio, além de CO2 e CH4, o que permite conhecer a concentração da atmosfera no passado. Bierman, portanto, fez uma abordagem diferente da tradicional. Ele e seus autores dataram a amostra de gelo com uma técnica que determina a quantidade de isótopos berílio-10 na amostra.

Berílio-10 é um isótopo radioativo produzido pelos raios cósmicos (partículas de alta energia que caem na Terra a partir do espaço). Os isótopos de berílio-10 ajudaram os pesquisadores a avaliar a idade de paisagens, pois os isótopos formam-se apenas em rochas e solo exposto na superfície: raios cósmicos não podem penetrar o gelo grosso ou pedras profundamente enterradas. Contando o número de berílio-10 isótopos, é possível ter-se uma estimativa de quanto tempo uma rocha ou solo ficou exposto na superfície, bombardeados por raios cósmicos. A amostra de solo congelado continha milhões de átomos de berílio-10, uma quantidade comparável a de outras paisagem árticas antigas, como na tundra do Alasca.

Bierman pretende continuar desvendando outras paisagens antigas escondidas sob o gelo. Ele e seus colegas pretendem fazer pesquisas semelhantes na Antártica.

Quando li a divulgação da pesquisa de Bierman no The Weather Channel e quando li a divulgação oficial no site da Science (periódico científico, com artigos revisados, conforme aquilo que o Rodrigo explicou aqui), fiquei pensando que aqui no Brasil, no panorama atual, tal pesquisa seria impossível. Imagina o enorme gasto de milhões de dólares em trabalhos de campo, armazenamento dos testemunhos de gelo, pagamento de bolsas e de diárias aos cientistas e equipe de apoio envolvidos, equipamentos sofisticados, etc. Infelizmente não temos o mesmo apoio por aqui. As únicas possibilidades para um cientista brasileiro é estudar bastante, dedicar-se, aprender inglês e então juntar-se a uma equipe como a de Bierman. Infelizmente, nosso pais investe muito pouco em ciência.

E vejam também como é a questão do ponto de vista e de uma provável desonestidade intelectual. Vou explicar: Bierman, mostrou que o gelo do Summit tem persistido por mais de 2 milhões de anos. E ainda falou da atividade humana, que pode acabar com essa persistência. Um possível picareta certamente vai usar a pesquisa de Bierman para dizer algo mais ou menos assim:

Ah, tá vendo? A ciência já mostrou que houve um tempo em que praticamente não teve gelo na Groenlândia. E nesse tempo, não havia humanos sobre a Terra. Ou seja, o aquecimento global é uma mentira.

Sim, isso é possível. Já li e ouvi pessoas falando da variação da quantidade de gelo nos pólos para invalidar as pesquisas sobre o aquecimento global. Inclusive um certo professor da USP que estuda a Antártica e apareceu em alguns programas de TV (não vou falar mais dele para não dar Ibope para o sujeito).  Esses picaretas ignoram as outras pesquisas, que falam do efeito do aumento da concentração de gases de efeito estufa, teoria já bem conhecida.

Sobre esses picaretas,  é possível ficar horas fazendo observações sobre eles. Há aqueles que tem conhecimento na área (como o professor da USP citado anteriormente) e agem por desonestidade intelectual, motivados por interesses pessoais (ou seja, $ ou fama). E há aqueles pseudointelectuais mesmo, capazes de falar sobre qualquer assunto sem conhecê-los  (como alguns colunistas de certos semanários cujos nomes nem preciso mencionar).  Esses últimos são pobres papagaios doentes.

Além disso, na pesquisa de Bierman fala da persistência do gelo (pra mim, 2 milhões de anos significa “para sempre”), mesmo durante o Eemiano, período interglacial. Ou seja, mesmo durante uma fase de aquecimento natural, o gelo da região não foi derretido por completo. No entanto, atualmente está ameaçado.

É possível ler o report da Science aqui, mas acho que nem todos conseguem ler, pois normalmente é possível apenas usando a internet dentro de Universidades o Centros de Pesquisa)