Resenha de Guerra dos Mundos – H.G. Wells



Eu já devo ter mencionado em outras ocasiões que há livros que são leitura obrigatória para quem gosta de ficção científica, porque são clássicos. Quando você lê os clássicos, observa que muitas coisas retratadas neles serviram de inspiração para coisas contemporâneas. Julio Verne, por exemplo, é um autor de diversos clássicos da ficção científica. H. G Wells, é autor de tantos outros clássicos. Quem gosta de ficção científica ou quem começou a se interessar pelo assunto, na minha opinião deve alternar entre a leitura de um clássico e de algo contemporâneo. É muito provável que você note essas referências que me refiro. E as vezes vai observar referências sutis ou comparações que existem apenas na sua cabeça (e quando conta aos amigos, eles vão dizer que você está viajando rs). É absolutamente normal, acho.

Eu mencionei A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells quando falei do ótimo documentário Além da Guerra dos Mundos.  E para relacionar as duas coisas, preciso fazer a resenha do livro.

A história, bastante plausível por sinal, é de que H. G. Wells e seu irmão falavam sobre a impressão que os aborígenes australianos devem ter tido quando viram os ingleses pela primeira vez. Os irmãos ficaram imaginando que é bastante provável que os aborígenes tenham tido um misto de espanto e curiosidade. E então imaginaram que a humanidade teria a mesma sensação se seres de outro planeta aparecessem por aqui.  Essa conversa aconteceu no final do século XIX. Em 1898, H. G. Wells publicou “A Guerra dos Mundos”, romance que abalou a Inglaterra, assustando os leitores com a idéia de uma invasão marciana na então rica Inglaterra vitoriana.

H.G. Wells na frente de sua casa em 1907, na frente de sua casa em Sandgate, Inglaterra. Essa nem é a foto com melhor definição do escritor (ele morreu na década de 1940 e era de certo modo popular, há vários retratos dele). Gosto dessa foto porque ele está em frente a sua casa. E em "A Guerra dos Mundos", H.G. Wells se coloca como o personagem principal (e narrador). E a casa dele aparece na história, bem como sua esposa e seu irmão, Edgar.
H.G. Wells na frente de sua casa em 1907, na frente de sua casa em Sandgate, Inglaterra. Essa nem é a foto com melhor definição do escritor (ele morreu na década de 1940 e era de certo modo popular, há vários retratos dele). Gosto dessa foto porque ele está em frente a sua casa. E em “A Guerra dos Mundos”, H.G. Wells se coloca como o personagem principal (e narrador). E a casa dele aparece na história, bem como sua esposa e seu irmão.

Quando li a história da gênese de “A Guerra dos Mundos”, percebi que H.G. Wells talvez tivesse uma opinião a frente a da maioria das pessoas de seu tempo também com relação ao colonialismo. Em “A Guerra dos Mundos”, nem nenhum momento os marcianos são amiguinhos. Eles realmente já chegam quebrando tudo, querendo dominar o planeta. Eles alimentam-se de fluidos humanos, então acho que realmente não há amizade rs.

Em 1894, H.G. Wells separou-se de sua primeira mulher (que também era sua prima) e casou-se com uma ex-aluna. Como “A Guerra dos Mundos” foi escrita em 1898, é possível que a “esposa” retratada por ele na obra seja Jane, sua segunda mulher. Sim, deixe-me explicar: em “A Guerra dos Mundos”, Wells é um personagem narrador. Sua enorme casa em Woking, Inglaterra, também aparece no livro. Seu irmão, estudante em Londres, também aparece como personagem no livro.

Pelo que já li sobre Wells, ele parecia ser um cara a frente do seu tempo não apenas com relação às criticas sobre o colonialismo. Ele e sua segunda esposa tinham um relacionamento aberto. Wells tinha ideias socialistas, ele era um profundo crítico das abissais diferenças entre ricos e pobres, fato comum na Inglaterra Vitoriana (e comum ainda hoje em diversas partes do mundo e absurdamente evidente no Brasil). Sua crítica sobre classes sociais fica muito clara em “A Máquina do Tempo”, outro de seus clássicos. Ao longo de sua vida, Wells também fez duras críticas ao ideal de “raça pura”. Também lutou pelos direitos humanos  e protestou contra a pena de morte que seria imposta aos meninos de Scottsboro, caso emblemático da década de 1930 nos Estados Unidos.

Capa  da Primeira Edição de "A Guerra dos Mundos". Vocês já repararam que toda vez que leio um livro ahn, antigo, gosto de colocar a capa da primeira edição? Acho que sonho em ser uma espécie de Calvin Tower.
Capa da Primeira Edição de “A Guerra dos Mundos”. Vocês já repararam que toda vez que leio um livro ahn, antigo, gosto de colocar a capa da primeira edição? Acho que sonho em ser uma espécie de Calvin Tower.

O pensamento político de Wells fica bem claro em sua obra. E como disse anteriormente, em “A Guerra dos Mundos”, é possível perceber com clareza suas críticas ao colonialismo, críticas à religião e também ficou muito claro que pobres e ricos tornaram-se iguais em um momento de tragédia de grandes proporções, como uma invasão extraterrestre.

Na história, H. G. Wells, a convite de um amigo astrônomo, observa uma atividade incomum no planeta Marte. Aquilo deixa ele e seu amigos intrigados, mas em um primeiro momento não dão a devida importância. Então cilindros enormes, como gigantes latas de extrato de tomate, começam a aparecer em diversas localidades da Inglaterra. Quando essas latas se abrem, criaturas assustadoras saem de dentro delas. É um bicho estranho sem pernas (apenas com tentáculos) e uma ‘boca’ que mais parece um bico de ave. Essas criaturas controlam robôs enormes, que dizimam tudo que veem pela frente com um raio mortal.

Fato interessantíssimo: a ilustração acima é de uma edição belga de A Guerra dos Mundos, de 1906. O criador dessa ilustração é o brasileiro Henrique Alvim Correa. Ele morreu muito jovem, no início do século XX e se destacou na ilustração de trabalhos de ficção científica.
Fato interessantíssimo: a ilustração acima é de uma edição belga de A Guerra dos Mundos, de 1906. O criador dessa ilustração é o brasileiro Henrique Alvim Correa. Ele morreu muito jovem, no início do século XX e se destacou na ilustração de trabalhos de ficção científica.

Daí quem não conhece ficção científica (ou não conhece os clássicos), vai me dizer: tá, that’s not a big deal… robôs gigantes, seres de outros mundos, etc. Mas gente, H.G. Wells escreveu isso em 1898. Nem preciso dizer que o cara foi um visionário. E sobre a estrutura desses robôs tem um nome, dado pelos humanos no livro: Tripods.

Prazer, Tripods. Essa é outra ilustração de Henrique Alvim Correa, também para a edição belga de 1906. No canto inferior direito, é possível observar a assinatura do artista.
Prazer, Tripods. Essa é outra ilustração de Henrique Alvim Correa, também para a edição belga de 1906. No canto inferior direito, é possível observar a assinatura do artista.

 

Falando sério, vocês já não viram esses tripods por aí? Não, não estou falando na sua vizinhança (sei lá, né rs) e nem estou falando das várias adaptações para o cinema ou para a televisão de “A Guerra dos Mundos”. A ideia do robô gigante comandado por uma criatura (ou um ser humano) é algo que aparece de Changeman a Pacific Rim e evidentemente os tais AT-AT e AT-ST (ou Walkers)  de Star Wars  tem uma clara semelhança. E em Todo Mundo em Pânico 4 (Scary Movie 4), tradicional franquia – um pouco sem graça, ok – que costumava fazer a paródia de diversos filmes de terror e ficção científica, um iPod gigante (triPod rs) iria destruir a humanidade. Esse filme foi lançado em 2006 e um ano antes (ou no mesmo ano), a adaptação de Steven Spielberg de A Guerra dos Mundos foi lançada. E a propósito (sei que é só minha opinião), achei essa adaptação horrível. Os efeitos especiais são muito bons e a fotografia transmite ao público uma idéia clara de desolação e destruição. Mas, o personagem principal do filme é Tom Cruise e acho que nem um terapeuta entenderia porque não simpatizo com Tom Cruise. Há alguns meses assisti Oblivion e cheguei a conclusão que: seria um filme ótimo, se substituíssem Tom Cruise por Will Smith. That’s all.

Ainda sobre os tripods, eu consigo imaginá-los até nas criaturas que aprecem em O Nevoeiro. Quando vejo a espécie 8472 se deslocar, também consigo imaginar tripods. Enfim, até separei essas coisas em um parágrafo especial porque é claro que tudo isso é coisa da minha cabeça rs. Mas, já é a segunda vez que menciono essas duas coisas no mesmo post. Coincidência? Quem vai saber…

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Monstro d’O Nevoeiro
Espécie 8472, conforme classificação dos Borgs, em Star Trek Voyager.
Espécie 8472, conforme classificação dos Borgs, em Star Trek Voyager.

Bom, se eu for escrever todos os robôs tripulados que aparecem em todos os desenhos animados e filmes, que lembram ou não os tais tripods, vou escrever um livro com mais páginas que A Torre Negra. Vocês já perceberam o que quero dizer: A Guerra dos Mundos é referência em diversos outros trabalhos. Na ficção científica, robôs tripulados são extremamente comuns, mas quem foi o pioneiro nisso tudo foi H.G. Wells.

É preciso lembrar também que até o começo do século XX as pessoas tinham uma visão muito mais fantasiosa sobre o planeta Vermelho. Marte, assim como outros planetas do Sistema Solar e outras estrelas, é observado desde a Antiguidade. O ser humano usou os astros para se localizar e para marcar o seu calendário por milênios. Hoje a gente tem GPS e relógios atômicos e infelizmente observamos menos o céu. Mas por muitos anos, sua observação era essencial e claro, despertava a curiosidade das pessoas.

No começo do século XX, observações astronômicas através de telescópios já eram há alguns séculos muito comuns (Galileu desenvolveu sua luneta, que logo tornou-se bem popular, no comecinho século XVII). Em 1877, pouco antes de Wells ganhar notoriedade como escritor, o astrônomo Giovanni Schiaparelli observou Marte metodicamente por alguns anos e percebeu o que pareciam ser alguns sulcos na superfície daquele planeta. Schiaparelli era italiano e ele usou a palavra canalis, que significa ‘leitos de rios’ ou ‘sulcos’. Só que quando a palavra foi traduzida para o inglês, usaram o termo canal, que significa algo feito pelo homem (um canal para irrigação, por exemplo). Então por muito tempo, propagou-se a ideia que esses canais de Schiaparelli eram na verdade canais feitos por vida inteligente. Por muitos anos, isso despertou a imaginação das pessoas, que imaginavam a presença de vida inteligente no planeta vermelho. Outro livro clássico da ficção científica que também aborda vida em Marte é The Martian Chronicles (Crônicas Marcianas), escrito quase 50 anos depois de A Guerra dos Mundos. O livro, de autoria do norte-americano Ray Bradbury, mostra uma situação inversa: em um futuro criado pelo autor, que se passava no início do século XXI, os humanos chegariam em Marte. Lá observariam uma civilização avançada, composta por indivíduos baixinhos (segundo o autor, o ar rarefeito e a baixa pressão do ar teriam feito com que os marcianos tivessem essa estrutura física).  Esses indivíduos tinha uma sociedade bem desenvolvida, com sistemas de irrigação e com fabulosas construções.

Schiaparelli fez um mapa completo com os sulcos que observava. Ele deu nome para esses sulcos, criou um mapa bem completo. Fonte: Wikimedia Commons
Schiaparelli fez um mapa completo com os sulcos que observava. Ele deu nome para esses sulcos, criou um mapa bem completo, uma coisa meio Senhor dos Anéis, rs. Fonte: Wikimedia Commons

No livro de H.G. Wells, como disse anteriormente, os marcianos não eram nada bonzinhos. Chegaram matando e destruindo. E é claro, talvez muitos devam lembrar-se de Marte Ataca! (1996), filme hilário de Tim Burton. No filme, os marcianos também chegam destruindo tudo, com apenas um objetivo: transformar a Terra em um enorme parque de diversões. E quantas vezes nós não destruímos a natureza ou expulsamos diversas pessoas de suas casas com objetivos parecidos? Construção de estádios, de resorts, de clubes ‘exclusivos’, etc? E percebam que essa destruição sempre é feita para dar lugar a locais onde nem todo mundo poderá frequentar: apenas quem tem dinheiro. Várias pessoas foram ou estão sendo despejadas de suas casas  devido a obras relacionadas com a Copa do Mundo.  Esses filmes exagerados e até  engraçados nos possibilitam perceber um traço de nossa própria natureza gananciosa. Foi o que motivou H.G. Wells a escrever A Guerra dos Mundos. E quando Gene Roddenbery criou Star Trek, colocou nos diversos alienígenas traços exagerados da própria natureza humana. A ficção científica tem esse curioso caráter de projeção: os autores colocam em uma outra civilização ou em uma outra realidade (utópica ou distópica) da humanidade, nossos anseios, fraquezas e horrores.

Para finalizar esse post que a essa altura deve estar gigante, gostaria de lembrar do momento em que A Guerra dos Mundos virou história de rádio. Em 1938, através de uma transmissão de rádio de um programa de Orson Welles, a novela “A Guerra dos Mundos” foi adaptada para a realidade de Nova Jersey e foi narrada com intensa dramatização, o que acabou causando pânico jamais visto em solo americano. No dia 21 de fevereiro de 1949, uma transmissão de rádio em Quito, Equador, também causou pânico na população, que ateou fogo no prédio da rádio quando descobriu que era uma obra de ficção. Quinze funcionários da rádio morreram no incêndio. Veja mais sobre esses incidentes e sobre outros fatos curiosos relacionados com o planeta vermelho no documentário Além da Guerra dos Mundos, do The History Channel.

P.S.: Se você quer treinar o inglês,  recomendo essa ótima versão de “The war of the worlds”. As letras são grandes, é possível escrever anotações sobre as frases (quem está estudando inglês normalmente gosta de escrever a lápis, no próprio livro,  o significado das palavras novas que está aprendendo). Essa edição também conta com umas ilustrações bem bonitas. Esse link é da Livraria  Cultura e eu ganho uma pequena comissão por compra :). Mas, se você mora em São Paulo-SP e passa pelo metrô Consolação, há uma daquelas vending machines de livros e vi esse e outros clássicos da literatura em inglês por apenas uma garcinha (a.k.a, cinco reais). São edições completas, o que é muito bom para adultos que estão aprendendo o idioma.