Boardgame do momento – CO2



Nesse post, vou falar sobre um excelente boardgame que adquiri recentemente e recomendo muito. Se você é professor de geografia ou de ciências ou se você é coordenador de uma escola, preste muita atenção, pois o assunto pode te interessar. E se você gosta de boardgames, considera essa atividade como um ótimo e integrador passatempo, também fique ligadinho. O nome do jogo é CO2.

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Antes de comentar o jogo, já quero começar elogiando. Parabéns ao criador do jogo, o português Vital Lacerda e a toda a equipe responsável pela criação. O jogo é ótimo, tem uma base científica muito boa e eu vou falar disso tudo a seguir.

Foto feita com o tablet, por isso tão estranha. Sempre compartilho fotos dos jogos que estou jogando. Compartilho no Instagram (@meteoropole).
Foto feita com o tablet, por isso tão estranha. Sempre compartilho fotos dos jogos que estou jogando. Compartilho no Instagram (@meteoropole).

No Brasil,  temos poucas variedades de jogos de tabuleiro. Basta visitar uma loja de brinquedos para constatar isso. Há muitas opções de quebra-cabeças, mas os boardgames são sempre os mesmos (Monopoly, Clue, War…). Em algumas lojas especializadas (e são pouquíssimas), ainda é possível encontrar jogos diferentes. A empresa Galápagos tem feito jogos ótimos, com conceitos e ideias diferentes, mas não são encontrados em muitas lojas físicas (felizmente eles vendem pela internet).

 Tenho a impressão que em nosso país, pelo menos segundo os fabricantes de brinquedos e jogos, brinquedo é coisa de criança. Eu acho que isso tem a ver com a configuração de nossa população: a maior parte dos brasileiros tem entre 10 e 14 anos e ainda há muitas crianças.

Esses dados do IBGE mostram que nossa população ainda é jovem. Temos muitos adolescentes e jovens adultos. No passado, a base da pirâmide era mais larga e tínhamos mais crianças do que jovens. A população envelheceu, mas não tanto quanto em países europeus.
Esses dados do IBGE mostram que nossa população ainda é jovem. Temos muitos adolescentes e jovens adultos. No passado, a base da pirâmide era mais larga e tínhamos mais crianças do que jovens. A população envelheceu, mas não tanto quanto em países europeus. Fote IBGE/2010

O nome do gráfico acima é Pirâmide Etária. Na Alemanha, onde boardgames são bem comuns e populares dentre o público adulto, a maior parte da população tem entre 40 e 50 anos. Tenho a impressão real de que isso faz com que crie-se um nicho do mercado de brinquedos voltado para adultos. Aqui no Brasil, muita gente olha com olhos de desconfiança quando você tem mais de 30 anos e gosta de brinquedos, videogames, action figures, quadrinhos, desenhos animados, mangás, etc. Para muitos, essas são consideradas “coisas de criança”. Mas isso deve ter a ver com a estrutura de nossa população. Bom, mas essas são conjecturas de alguém que ama estatísticas…rs.

Pirâmide etária da Alemanha, com dados de 2009. É possível observar que a população alemã é mais velha que a brasileira. A maior parte dos habitantes tem entre 40 e 49 anos. Fonte: GeoEscola.
Pirâmide etária da Alemanha, com dados de 2009. É possível observar que a população alemã é mais velha que a brasileira. A maior parte dos habitantes tem entre 40 e 49 anos. Fonte: GeoEscola.

Vamos voltar a falar do jogo!!!

Sendo assim, a maioria dos fãs de jogos de tabuleiro compram fora do Brasil. Pedem para um amigo fazer. Encomendam em sites estrangeiros. Ou compram em viagens. Recentemente, meu marido esteve fora do Brasil e pedi para ele trazer o jogo Agricola. Ele então me falou de outro jogo que eu poderia me interessar, o CO2. Gostei do tema do jogo e pedi para ele trazer.

E qual o tema base do jogo? Bom, os jogadores precisam controlar as emissões de CO2 do planeta. Para isso, precisam propor projetos de energia limpa. Quando propõe esses projetos, podem ganhar dinheiro, desenvolvimento tecnológico e cientistas, que poderão ser usados nas fases seguintes: implantação e instalação (que eu chamo de inauguração rs) da usina de energia limpa. Os cientistas podem ir para conferências, o que faz com que eles fiquem mais experientes e um determinado tópico. Experientes, os cientistas poderão atuar  na instalação do projeto, já que é necessário ter um nível mínimo de experiência em uma determinada área (energia nuclear, por exemplo)  para implantar um projeto naquela área.

Os projetos, no caso, são: usina de energia nuclear, reflorestamento, energia solar, biomassa e reciclagem. Todas essas matrizes energéticas ou projetos não emitem CO2 em sua fase de operação ou ajudam a sequestrar o CO2 da atmosfera. As plantas, por exemplo, absorvem o CO2 emitido, então eles contam como um “sorvedor” de CO2, favorecendo a redução das emissões deste gás.

Essa partida terminou sem vencedores pq deixamos a concetração de CO2 na atmosfera passar de 500 ppm por falta de usina de energia limpa na América do Norte.
Essa partida terminou sem vencedores (nesse jogo, é possível todos perderem!) pois deixamos a concetração de CO2 na atmosfera passar de 500 ppm por falta de usina de energia limpa na América do Norte.

O jogo se desenvolve ao longo de décadas. Começa em 1970 e vai até 2020. Cada década possui 5 rodadas, em que os jogadores podem propor, implantar ou instalar projetos. Podem mover os cientistas, podem comprar/vender créditos de carbono ou podem usar as cartas que permitem ações extras.

Sobre os créditos de carbono: acho que o criador do jogo foi muito sagaz na inserção desse elemento no jogo. O jogador gasta créditos de carbono quando vai implantar um projeto. Dependendo do projeto que ele implanta, o jogador ganha créditos. Projetos de reflorestamento, por exemplo, fazem com que o jogador ganhe créditos.

Como o jogo se desenvolve ao longo de décadas, cada década possui uma meta, que consiste em construir uma quantidade de projetos para atender a demanda da população. Como a população aumenta, a quantidade de projetos necessária por década também aumenta em cada um dos cinco continentes. Se nenhum projeto de energia limpa for desenvolvido, o continente terá que construir uma usina de combustíveis fósseis. Isso fará com que a quantidade de CO2 presente na atmosfera aumente. Quando passa dos 300ppm, o negócio fica bem complicado e pelas regras, o jogo se aproxima do fim.

E percebam que 300ppm é ainda abaixo do que estamos vivendo agora. De acordo com as observações no Observatório de Mauna Loa, em 07 de abril, a concentração de CO2 chegou a 402,20 ppm! As medições desse observatório podem ser acompanhadas diariamente no site oficial.

Fonte: Mauna Loa Observatory/O Que você faria se soubesse o que eu sei?
Fonte: Mauna Loa Observatory/O Que você faria se soubesse o que eu sei?

Essas e outras informações sobre o aquecimento global podem ser obtidas no blog O que você faria se soubesse o que eu sei?

O boardgame CO2 permite que o jogador tenha a clara percepção de que o uso de combustíveis fósseis faz com que a concentração de CO2 na atmosfera aumente. E como mostrei acima, tem um link direto com o que está acontecendo no momento em nosso planeta, já que possui uma boa base científica. Além disso, o jogo permite explorar o aspecto político das mudanças climáticas. Quando se propõe um projeto, ganha-se dinheiro, que pode ser empregado no jogo de diversas maneiras. E na implantação de um projeto, também se obtém benefícios. Além disso, a questão das demandas energéticas de cada década é bem realística. A população mundial aumentou, o que tornou necessário a implantação de novas usinas de geração de energia. Essas questões são percebidas com muita clareza ao longo do jogo, o que possibilita ao aluno uma compreensão prática do assunto. Infelizmente o jogo não é vendido no Brasil, não em larga escala. Talvez em listas de aficionados por boardgames alguém pode aparecer revendendo, mas não é um jogo comum. Na Amazon.com, o jogo custa quase 60 dólares (e certamente vai ter o frete e as chances de ser taxado).

Para ler mais sobre o jogo, veja o link da ficha dele no BoardGameGeek. E aqui, em português, uma entrevista com Vital Larcerda, criador do jogo.

Entenderam agora porque recomendei esse jogo para profissionais da área de educação? Boardgames podem ser ótimos aliados na compreensão de diversos temas. A Kerol já me contou que cria boardgames para seus alunos compreenderem os temas das suas aulas de história. E até minha ex-professora de francês já usou um boardgame simples (daqueles que você joga o dado e dependendo da casa que cair, tem que responder uma pergunta) para ajudar os alunos a compreenderem temas difíceis e deixar as aulas mais dinâmicas. Na minha turma de francês só tinha adultos e todos se divertiram com o joguinho, por mais simples que ele fosse. E com certeza ajudou na exposição do tema da aula.