É saudável mudar de opinião: mudança climática

Embora eu não faça pesquisa científica, ajudo muita gente a fazê-la. Não sou cientista, por assim dizer, já que não faço pesquisa. Mas considero que meu trabalho na Estação ajuda as pessoas a fazerem boas pesquisas. E meu trabalho aqui no Meteorópole ajuda a divulgar a ciência que tanto amo: meteorologia. Eu confesso que estou muito satisfeita com essas atividades que realizo. Eu não acho que tenho um perfil para cientista, mas acho que tenho um perfil de apoio e divulgação, coisas que venho fazendo :).

Recentemente, eu estava compartilhando uns links antigos aqui do Meteorópole. E um deles foi esse, que fala da diferença entre tempo e clima. É um post muito lido e muito procurado, de acordo com as estatísticas do blog. Eu percebi que muitos professores solicitam esse tipo de pesquisa. Ou seja, meu post deve ter ajudado muitos alunos a fazerem sua lição de casa. Fico contente, mas espero que ninguém tenha copiado nada na íntegra.

Quando eu estava relendo esse post, quase 3 anos depois de ter sido escrito (foi um dos primeiros posts do blog, que logo completará 3 anos, incrível!), percebi que mudei um pouco meu pensamento. Mas como assim?

Bom, as definições de tempo e clima continuam as mesmas. O que mudou foi minha opinião sobre mudança do clima.

Antes, eu levava a sério a ideia tradicional de que o clima não muda. Ou pelo menos não muda em um intervalo menor que 1000 anos, pelo menos. Sendo assim, não mudaria dentro do período de duração de 2 ou 3 gerações. Mas então comecei a levar mais a sério as histórias contadas pelos mais velhos.

Moro em São Paulo-SP. Conversando com idosos que nasceram e sempre viveram nessa cidade, muitos contam que quando eles eram jovens, o inverno era mais rigoroso.

Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, no início do século XX. Sempre que vejo fotos antigas de São Paulo, reparo que muitos homens usam terno e chapéu. As roupas são mais pesadas, de um modo geral.

Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, no início do século XX. Sempre que vejo fotos antigas de São Paulo, reparo que muitos homens usam terno e chapéu. As roupas são mais pesadas, de um modo geral.

Comecei a pensar na minha própria vida, em minha infância e adolescência nos anos 80 e parte dos anos 90. Durante minha infância, eu sentia mais frio. A casa de meus pais fica no alto de um morro (o bairro é cheio de sobes e desces). A escola ficava no alto de outro morro. No vale entre esses morros, há um córrego, que infelizmente já era um esgoto quando eu era criança. Sempre havia neblina nesse vale. A neblina cobria o córrego e cobria as casas da favela nas margens.  A neblina impedia que eu visse a escola, no alto do outro morro. E momentaneamente, eu ficava feliz: oba, a escola sumiu!

Não que eu não gostasse de estudar, acho que já até devo ter falado sobre isso. Eu não gostava da escola. Aquela caixa de concreto desconfortável feita durante a ditadura, como tantas outras escolas do Brasil. O bullying e a ignorância de alguns professores e de alguns funcionários me faziam desejar que a escola desaparecesse. E a neblina permitia isso por alguns minutos diários dos meses de maio e de junho. Quando eu atravessava a neblina com minha mãe, percebia que a escola continuava no mesmo lugar. E eu sempre sabia disso, mas crianças adoram invocar o pensamento mágico.

Só crianças?

Não há tanto nevoeiro por ali. Há menos frio também. Os moradores mais antigos da cidade sentem ainda uma maior diferença entre o inverno de sua infância e o inverno de sua maturidade. Isso teria a ver com o típico exagero infantil? Pode ser, mas não é o caso. Os dados mostram que a temperatura média, principalmente a média das temperaturas mínimas diárias, tem ficado cada vez mais alta:

Temperatura média anual, a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. No mais recente relatório publicado, concluiu-se que de 1933 até 2013, a temperatura média anual teve um aumento de 2,1°C.

Temperatura média anual, a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. No mais recente relatório anual publicado, concluiu-se que de 1933 até 2013, a temperatura média anual teve um aumento de 2,1°C.

Temperatura média mínima anual, também a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. De 1933 até 2013, as primeiras horas das manhãs ficaram 2,2°C mais quentes.

Temperatura média mínima anual, também a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. De 1933 até 2013, as primeiras horas das manhãs ficaram 2,2°C mais quentes.

Número de dias com nevoeiro, observados na Estação Meteorológica do IAG-USP desde 1933. O gráfico indica uma redução na ocorrência de nevoeiro de cerca de 80 dias anuais.

Número de dias com nevoeiro, observados na Estação Meteorológica do IAG-USP desde 1933. O gráfico indica uma redução na ocorrência de nevoeiro de cerca de 80 dias anuais.

Os gráficos acima foram retirados do último Boletim Climatológico Anual – 2013, que pode ser acessado aqui.  Nas figuras, vemos que a temperatura média e a temperatura média mínima aumentaram. As manhãs ficaram mais quentes, na média, desde 1933. Se sua família é de São Paulo, é muito provável que seus avós tenham sentido mais frio na infância do que você sentiu. O clima mudou na cidade!

Nesse post, eu falava em mudanças locais. Realmente não estou errada, são mudanças locais. Mas vamos pensar em todas as cidades do mundo que tem experimentado situação parecida. Vamos pensar em todos os carros que circulam por aí e no aumento da população. São novas fontes de calor!

Vamos pensar também na quantidade de área verde que foi desmatada para dar lugar a ruas, avenidas, conjuntos de prédios, etc. Vamos pensar na pouca quantidade de parques e praças. O concreto e o asfalto absorvem mais radiação solar do que a vegetação. Quando absorvem radiação solar, esquentam, e emanam calor. Isso aquece ainda mais a cidade, principalmente no horário em que a temperatura deveria ser mais baixa (no final da madrugada).

Agora vamos pensar em nossas atividades industriais, de transporte e de produção de alimentos. Em várias dessas atividades, emitimos gases de efeito estufa (GEE). Esses gases absorvem a radiação solar e aquecem a atmosfera. É um processo físico bem conhecido. Lá no planeta Vênus, por exemplo, a temperatura média na superfície é de cerca de 400°C. E esse calor todo é causado pelo tipo de gás presente na atmosfera daquele planeta, composta principalmente (mais de 95% da composição) por CO2.

Estamos transformando nosso planeta em um ‘novoVênus’. Só que a diferença é que aqui não é um processo natural, é tudo culpa nossa. Agora some isso a degradação ambiental. Nós estragamos a água que vamos beber. Sério mesmo, um cachorro não faz xixi na água que vai beber. Nós, seres humanos, fazemos isso.

Nós seremos humanos, motivados pela ganância, também escolhemos quem vai e quem não vai ter água. Empresas e grandes agricultores sempre tem água. Eles recebem da rede pública, fazem caríssimos sistemas de irrigação ou perfuram poços de maneira irregular. Um conhecido meu, dono de uma chácara no interor de São paulo, ficou desgostoso recentemente. Um pequeno laguinho que ele tinha, com criação de carpas, secou. Parte da responsabilidade disso foi o verão extremamente seco. Parte também foi a ganância: donos de grandes quantidades de terra resolveram perfurar poços. Poços que não estão funcionando de maneira regular, certamente. E quem deu a autorização para perfurá-los (se é que a autorização existe)? Pois é.

Nossa casa, nosso bairro, nossa cidade: são parte de um todo, composto por várias casas, vários bairros e várias cidades, etc. Nossas atitudes, nossas escolhas de consumo e nossas escolhas de deslocamento afetam o ambiente. Isso é consciência ambiental.

Por isso digo que mudei de ideia. Não falo mais em mudanças locais. Falo que são mudanças globais mesmo. O mundo inteiro está mudando, é hora de assumirmos nossa parcelas de responsabilidade. Se eu ficar falando em mudanças locais, posso dar voz aos “negacionistas”. E não quero isso. Quero falar em ciência, ciência que muda a cabeça das pessoas, que muda as atitudes e que melhora o mundo. O aquecimento global é realidade. É hora de agir.