Guestpost: El Niño, por Rodrigo Bombardi



SamanthaO Rodrigo Bombardi estudou comigo durante a graduação em Meteorologia. Ele também fez algumas disciplinas do mestrado comigo e atualmente faz pós-doutorado no IGES (Institute for Global Environment and Society), na George Manson University. Foi um dos grandes amigos que tive a oportunidade de conhecer no IAG-USP. Nós escrevemos juntos no blog Discurso Retórico, um blog em que compartilhamos nossas visões sobre política, direitos humanos e outras opiniões sobre a sociedade. 

Recentemente, Rodrigo escreveu um post sobre o El Niño. Nem preciso dizer que ele mais do que complementa esse post que escrevi em 2012. O Rodrigo tem muita experiência na área de variabilidade climática e de meteorologia tropical, então nem preciso dizer que ele é uma pessoa mais do que indicada para falar sobre isso. Então confiram o post dele na sequência:

Se você acompanha notícias sobre o clima, você deve ter ouvido que este ano poderemos ter um evento intenso de El Niño. Mas você já se perguntou o que é o El Niño e de onde vem esse nome?

O nome El Niño foi criado por marinheiros (pescadores) da região de Paita no PeruEles perceberam que em alguns anos a corente marinha invertia-se. Normalmente eles recebem uma corrente fria vinda do Sul (corrente de Humboldt ou corrente do Peru). Mas eles perceeram que em alguns anos aparacia uma corrente quente de norte para sul entre as regiões de Paita e Pacasmayo. Então eles nomearam essa corrente de “corriente del Niño” (corrente do menino). Em alusão ao menino Jesus, porque essa corrente aparecia logo após o Natal. A corrente recebeu esse nome também porque para eles essa corrente representava uma benção, já que em anos de El Niño apareciam peixes tropicais na costa do Peru e principalmente porque eles recebiam chuva em regiões que eram normalmente muito secas, como a região de Talara. Após algumas semanas de chuva, pastagens cresciam no país inteiro e algodão podia ser cultivado em áreas onde o surgimento de vegetação seria impossível em outros anos.

O nome completo do fenômeno El Niño é El Niño Oscilação Sul (ENSO) e corresponde a um fenômeno que se desenvolve simultaneamente no oceano Pacífico e na atmosfera da mesma região. Eventos El Niño ocorrem entre 2 a 7 anos e são principalmente caracterizados pelo aquecimento das regiões central e/ou leste do oceano Pacífico tropical. Mas o El Niño é apenas a fase quente do fenômeno ENSO. Em alguns anos, as regiões central e leste do Pacífico tropical se resfriam. É a fase fria do fenômeno ENSO, que chamamos de La Niña por ser a fase oposta ao El Niño. Sabe como é, né? Cientistas não são conhecidos por serem sensíveis a questões de gênero… Eventos La Niña são conhecidos também como uma intensificação de condições normais. Já eventos El Niño apresentam um comportamento bastante diferente de condições normais.

 

Condições Normais
Evento El Niño
Evento La Niña

 

 

Hoje em dia, ao contrário do que pensavam os antigos peruanos, o termo El Niño ganhou um tom pejorativo. Isso se dá pelo fato de que muitas regiões são prejudicadas pelos impactos do fenômeno. Os impactos do fenômeno ENSO são percebidos no Mundo todo. Durante anos de El Niño há uma aquecimento em toda a região tropical. E algumas regiões fora dos trópicos também são afetadas por ondas atmosféricas geradas pelo ENSO conhecidas como teleconexões. É como se o aumento de nuvens de tempestades no Pacifico tropical central e leste dessem um soco em altos níveis da nossa atmosfera. Esse soco gera ondas atmosfericas, como as ondas formadas por uma pedra jogada numa piscina de água parada. Devido à efeitos como o movimento de rotação da Terra e a dinâmica e termodinâmica da atmosfera essas ondas se propagam em determinadas direções e com determinadas propriedades. Como consequência, essas ondas mudam a temperatura e a precipitação em regiões remotas em relação ao oceano Pacífico. O blog Meteorópole já escreveu sobre os principais impactos do ENSO no Brasil e no mundo.

Impactos de eventos El Niño durante o verão e o inverno

O que eu acho mais interessante sobre o fenômeno ENSO é o fato de que o fenômeno representa uma dança entre o oceano e a atmosfera. Alguém pode argumentar que o aquecimento do oceano gera uma mudança na circulação atmosférica e uma mudança na posição da precipitação. Ou que a mudança na circulação atmosférica leva ao aquecimento do oceano. Mas na verdade é um problema do ovo e da galinha. Tanto as condições oceânicas como atmosféricas evoluem juntas. O oceano e a atmosfera dançam dando um passo a cada vez em uma dança onde ambos conduzem e ambos são conduzidos.

Rodrigo, muito obrigada pelo excelente texto!