Mais erros jornalísticos! – A Folha e o Granizo



Bom dia!

Estou falando bom dia (apesar de já ser tarde ou noite rs) porque hoje pela manhã fui absurdamente rude. Não dei bom dia ao taxista que me trouxe até o trabalho. Pois é, não virei a Angélica. É que está rolando uma greve de ônibus e algumas empresas (são várias empresas e cooperativas responsáveis pelos ônibus em São Paulo) ainda não tinham retornado às suas atividades hoje cedo. Sinceramente? Acho que não deveria existir greve. Os motoristas e cobradores deveriam liberar as catracas, permitindo que todos viajem de graça! Isso im atinge o bolso dos donos das empresas. A greve só dificulta a vida de quem precisa trabalhar.  Mas essa é minha opiniãozinha fecal.

Mas voltando ao tema da postagem, não é novidade que eu costuma reclamar da imprensa. E eu não sou a única, vários amigos e colegas meteorologistas também reclamam. Só meteorologistas? Tenho amigos físicos, astrônomos, mergulhadores e biólogos que também reclamam. E eu já não acredito mais nas notícias sobre medicina, procuro ler mas a respeito e perguntar para quem entende.

Os jornalistas são completamente despreparados para tratar de ciência. Ontem mesmo vi uma pessoa pedindo opinião ao Sakamoto sobre Mudanças Climáticas. Gente, eu até gosto de algumas postagens do Sakamoto, penso como ele em vários pontos, acho que ele se articula muito bem e tudo, mas ele não é cientista. Eu queria que os cientistas fossem mais populares, fossem a programas de TV, tivessem suas próprias colunas em jornais, ou seja, queria que nós, da área científica, tivéssemos mais visibilidade. Em outros países, surgem cientistas populares, que tem séries, colunas e formam opinião. Alguns exemplos mais famosos: Carl Sagan (esse faz muita falta!), Neil deGrasse Tyson e Richard Dawkins.  Aqui no Brasil, já vi trabalhos muito bons do Drauzio Varella e do Marcelo Gleiser e os dois chegaram a ter pequenas séries de reportagem no Fantástico há alguns anos.

Eu gosto de escrever. Minha escrita é boa? Bom, acho que normalmente as pessoas entendem o que quero dizer, então acho que minha escrita é boa. Pode melhorar? Com certeza. Eu acredito muito que nossa maneira de escrever melhora a medida que a gente lê cada vez mais. Parece que alguns consideram que escrever é um “privilégio”, algo que poucos letrados podem fazer. Sei lá, como se para escrever fosse necesário ser formado em Jornalismo ou Letras. Direito, Ciências Políticas Comunicação Social ou Filosofia, talvez. Como se essas pessoas pudessem ser detentoras da escrita, porque são intelectuais. Eu discordo totalmente. Pra mim escrever é natural. É como andar até ali. É um trabalho realizado, no sentido físico da definição. Ou seja, exatamente como ir ate ali. Escrever é uma ferramenta. É um meio que possibilita a transmissão de uma idéia. Cada pessoa escreve de uma maneira, de uma maneira só sua. E isso é lindo em escrever. Sua escrita vai depender do que você lê (da quantidade e do gênero de sua leitura), do que você gosta, de onde você nasceu, de suas experiências pessoais, etc. É como uma impressão digital só sua. Escrever, se expressar, é um direito que todos têm. Não é privilégio. E se você tem vontade de escrever, o que tiver vontade, não deixe ninguém te desencorajar.

Mas gente, como eu amo DIVERGIR.

O assunto que mais recente que deixou os meteorologistas indignados foi essa reportagem da coluna Cotidiano, da Folha de São Paulo. A reportagem, publicada na última segunda (dia 19) fala da tempestade de granizo do último domingo (dia 18), que atingiu diversos bairros de São Paulo e partes da RMSP. Falei brevemente sobre o assunto aqui (principalmente focando na diferença entre neve e granizo) e também tratei do assunto lá no Jornal de Serviços. E qual o problema da reportagem da Folha? São vários, na verdade.

Em primeiro lugar, o profissional mencionado não é meteorologista. Ele é engenheiro civil, como mostra em seum perfil no Linkedin (obrigada, João). E isso é muito sério. Não é possível saber se o jornalista responsável pela reportagem o creditou erroneamente ou se ele disse ser meteorologista. Se foi o segundo caso, é seríssimo. E ele pode inclusive responder por isso no CREA.

O João assina a Folha e acredito que assinantes tem acesso a um texto mais completo da coluna Cotidiano. Não vi esse texto completo, mas o João (que é meteorologista também, é esse João), mencionou erros que vão desde errarem a escrita (escreveram Cumulo-Nimbo e Cúmulos-Nimbos e não o correto, que é Cumulonimbus) até erros conceituais mais sérios. Por exemplo, parece que disseram que a grande culpada pelo granizo foi uma Frente Fria. Parece que havia uma frente fria sim, mas ela estava no oceano. Tanto que na segunda-feira (19) e terça-feira (20) estava bem quente por aqui. Se uma frente fria tivesse passado aqui, certamente teria causado alguma chuva e depois ficaria frio por alguns dias.

O que pode ter acontecido é que a frente que estava no oceano pode ter favorecido ainda mais a brisa marítima. Minha explicação (muito simplificada, confesso), está escrita no Jornal de Serviços. Na imagem do radar meteorológico do momento da tempestade (veja abaixo), é possível ver as áreas em que houve tempestade de granizo. São as áreas marcadas com uma linha rosa. As áreas com manchas vermelhas são aquelas com tempestades mais intensas, pois são as nuvens de topos mais altos.

Imagem do radar meteorológico de 18/05 (19:30 UTC ou 16:30 hora local), que pega o momento da tempestade de
Imagem do radar meteorológico de 18/05 (19:30 UTC ou 16:30 hora local), que pega o momento da tempestade de granizo. Fonte: STARNET/IAG

As nuvens de topos mais altos são aquelas em que algumas das gotículas que formam a nuvem congelaram. Gotas líquidas podem se chocar com esses cristais de gelo e vão se congelando sobre os cristais de gelo. Esse processo chama-se acreção e falei dele aqui.

Na minha opinião, a única forma de acabar com esses erros jornalísticos é tirando o privilégio da escrita. Eu posso escrever, eu posso esboçar minhas opiniões. Acho que alunos das áreas científicas deveriam ser encorajados a escreverem. Em meus 4 anos de graduação e 2 anos de mestrado, nunca precisei escrever um texto de popularização científica. Só que não é tarde para tentar aprender, é o que venho tentando fazer por aqui.