Precisamos de mais pluviômetros



Quando lia a matéria do Jonathan Amos sobre o guarda-chuva que é estação meteorológica móvel, ao final ele também falava de uma sessão também apresentada na última Assembléia Geral da EGU (European Geosciences Union). Nessa sessão, discutia-se a quantidade de pluviômetros que existem em nosso planeta. Eles estão presentes em quantidade suficiente?

Nessa sessão, Dr. Chris Kidd, da NASA, disse que não.  Na reportagem da BBC, é dito algo impressionante:

Basicamente, se pegássemos todos os instrumentos meteorológicos instalados no mundo capazes de fornecer dados em tempo real, mal conseguiríamos encher o círculo central de um campo de futebol. Isso é péssimo. Há muitos pluviômetros ao redor do mundo, mas conseguir suas informações em tempo hábil nem sempre é fácil.

Sinceramente, estamos piores do que imaginei. Só que pensando bem, faz todo sentido. Normalmente os pluviômetros encontrados nas estações meteorológicas são aqueles modelos tradicionais, em que é necessário que uma pessoa colete e observe a quantidade de chuva todos os dias. Esses dados são anotados e digitados em tabelas. Essas tabelas são atualizadas e então o dado é compartilhado. E isso não é feito em tempo real, claro, já que há todo esse processo de anotação e digitação envolvido.

Um dos pluviômetros da Estação Meteorológica do IAG-USP. Foto tirada por mim. Pode ser utilizada e distribuída para fins não comerciais, sempre citando a fonte.
Um dos pluviômetros da Estação Meteorológica do IAG-USP. Foto tirada por mim. Pode ser utilizada e distribuída para fins não comerciais, sempre citando a fonte.
Pluviógrafo aberto, mostrando o pluviograma,  diagrama que precisa ser trocado diariamente (ou semanalmente, dependendo do modelo do instrumento). Esse diagrama é depois analisado, para verificar os totais horário e diário de precipitação.
Pluviógrafo aberto, mostrando o pluviograma, diagrama que precisa ser trocado diariamente (ou semanalmente, dependendo do modelo do instrumento). Esse diagrama é depois analisado, para verificar os totais horário e diário de precipitação.

O resumo da apresentação do Dr. Chris Kidd pode ser consultado aqui.  No resumo, Dr. Kidd e sua equipe falam da importância das medições de precipitação, falam de sua pouca disponibilidade, principalmente sobre os oceanos.

Embora atualmente muitos radares e satélites tenham sofisticados sistemas para medir a quantidade de chuva, é necessário ter uma rede de pluviômetros instalados para fazer uma verificação, uma calibração desses sofisticados equipamentos. Dr. Kidd acredita que iniciativas como o guarda-chuva medidor podem ser uma alternativa, mas ainda assim não substituem os pluviômetros.

Pluviômetros são instrumentos bem simples de explicar, muito simples de construir e simples de operar. No entanto, se esses dados não forem disponibilizados em tempo hábil, não adianta ter uma rede enorme. Compartilhar a informação em tempo real (ou quase-real), seria o ideal. Além disso, as mudanças climáticas vão exigir mais medições em mais pontos do planeta, para compreendermos melhor as mudanças que estão ocorrendo em diferentes pontos do mundo. A propósito, as estações meteorológicas que já operam há muitos anos tem permitido que os cientistas percebam a velocidade com que as mudanças climáticas estão acontecendo.

E o aumento na quantidade de estações meteorológicas e outras formas de monitoramento da atmosfera tem outra importância: a melhoria na qualidade das previsões do tempo. Com mais informações para as condições iniciais, melhor será a previsão do tempo, além de termos mais dados para compararmos com os modelos e torná-los ainda melhores.

Dr. Kidd também falou de um projeto no Sahel, em que os agricultores tem sido pagos pelos dados que medem em suas pequenas propriedades. Isso certamente incentiva os agricultores e permite com que os equipamentos continuem em operação. Os agricultores ainda ganham uma espécie de bônus pela qualidade dos dados. É uma ótima ideia, com certeza. Poderia ser empregada no sertão brasileiro, por exemplo.