Principais impactos na América Latina, de acordo com o último relatório do IPCC – parte I

Uma dica que dou para quem pretende ler o AR5 do IPCC é: escolha os capítulos de seu interesse. Ler todo o relatório é bastante cansativo, e talvez você não tenha interesse em todos os tópicos abordados. Depois de escolher os capítulos de seu interesse, leia o Executive Summary. É um resumo importante, no início de cada capítulo e que já elucida várias dúvidas.

Gostei da forma que o AR5 está estruturado.Pelo site, primeiro entramos em um link para cada um dos três grupos de trabalho (veja aqui). Além disso, nesse mesmo link, há um FAQ importante com perguntas como “o que é o IPCC?” ou “o que o IPCC faz?”.

Eu voltei a falar em grupos de trabalho.  Os cientistas que fazem parte do IPCC (são cerca de 300 de uns 70 países, que trabalham na elaboração do relatório e são especialistas nas diversas áreas abordadas no documento, relacionadas à mudança climática), são divididos em 3 grupos de trabalho. Falei um pouco sobre cada um desses grupos nesse post, mas resumidamente temos o seguinte:

Grupo de Trabalho I: avalia os aspectos científicos do sistema climático e de mudança do clima
Grupo de Trabalho II: avalia a vulnerabilidade dos sistemas socio-econômicos e naturais diante da mudança climática assim como as possibilidades de adaptação a elas (mitigação)
Grupo de Trabalho III: avalia as opções que permitiriam limitar as emissões de gases de efeito estufa

Para quem adora ciência pura, é da área de física ou meteorologia, talvez os documentos do Grupo I sejam mais interessantes. Para quem quer saber quais são os impactos e o que fazer para minimizá-los ou mitigá-los, os outros dois grupos podem ser mais interessantes. Tenho interesse em conhecer um pouquinho dos 3 grupos.  E hoje, vou falar de um importante capítulo que li recentemente. É o capítulo 27, do Grupo II. Esse capítulo é importantíssimo para os latino-americanos: fala dos impactos na América Central e na América do Sul.

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1) Tendências significativas de mudanças no regime de precipitação e na temperatura média foram encontradas na América Latina. O relatório também identificou maior ocorrência de extremos (secas intensas, chuvas intensas).

Precipitação anual, de 1933 até 2013, na Estação Meteorológica do IAG-USP. Dados apresentados no último boletim anual. Consulte-o aqui.

Figura 1. Precipitação anual, de 1933 até 2013, na Estação Meteorológica do IAG-USP. Dados apresentados no último boletim anual. Consulte-o aqui.

2) Aumento na chuva anual no sudeste da América do Sul. Os dados da Estação Meteorológica do IAG-USP indicam isso (veja Figura 1). Claro que é apenas uma estação, pois essa tendência foi observada em todo sudeste da América do Sul. O relatório fala em um aumento de 0,6mm/dia no período de 50 anos (entre 1950 e 2008). Por outro lado, na América Central e  na porção Centro-sul do Chile, foi identificada uma redução na precipitação (redução de 1,0mm/dia no período de 50 anos, entre 1950 e 2008). Lembram que falei do catanieblas (aqui). Bom, essa região do Chile já e seca e aparentemente a tendência é que fique ainda mais seca.

3) Aquecimento detectado na América do Sul e na América Central (de 0,7°C a 1,0°C em 40 anos, desde meados da década de 1970), com exceção de uma redução da temperatura na costa chilena (cerca de -1°C no período de 40 anos).

Temperatura média anual, a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. No mais recente relatório publicado, concluiu-se que de 1933 até 2013, a temperatura média anual teve um aumento de 2,1°C.

Figura 2: Temperatura média anual, a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. No mais recente relatório publicado, concluiu-se que de 1933 até 2013, a temperatura média anual teve um aumento de 2,1°C. Dados apresentados no último boletim anual. Consulte-o aqui.

4) Aumento de extremos de temperatura na América Central  e em boa parte da América do Sul tropical e subtropical. No último verão, tivemos temperaturas recordes em boa parte da Região Sudeste do Brasil. O recorde de maior temperatura foi quebrado na Estação Meteorológica do IAG-USP. Foi registrado 35,1°C em duas ocasiões no último verão: 03 de Janeiro e 01 de Fevereiro. Esas informações foram apresentadas no relatório do verão DJF 2013/2014 da Estação Meteorológica do IAG-USP (consulte aqui). Vocês devem ter reparado que sempre uso esses dados como exemplo. Não estou agindo de maneira leviana: são os dados que tenho acesso. Outras estações apresentram tendências parecidas, por isso os cientistas do IPCC chegaram a esta conclusão.

5) O aumento da precipitação em diversos locais favoreceu a ocorrência de deslizamentos e enchentes repentinas (ou enchentes relâmpago, também aparece assim na literatura) em diversas regiões da América Latina.

Quase todos os pontos citados acima aparecem como medium confidence (confiânça média). Ou seja, algumas fontes da literatura científica discordam desses resultados. No entanto, com relação ao primeiro ponto  – 1) Tendências significativas de mudanças no regime de precipitação e na temperatura média foram encontradas na América Latina. O relatório também identificou maior ocorrência de extremos – há uma alta confiabilidade. Isso significa que a produção científica é quase unânime com relação a isso. E tem tudo a ver com o último verão aqui na Região Sudeste, que foi muito seco. Por outro lado, em 2009/2010 tivemos um verão extremamente chuvoso (bem acima da média. Estamos vivendo um tempo de muitos extremos.

6) As projeções climáticas sugerem aumento na temperatura e diminições ou reduções na precipitaçõ para toda a América Latina até 2100 (confiabilidade média). Tenho certeza que vocês vão ouvir muito isso ao longo desses meses e ao longo dos próximos anos também. Há quase uma unanimidade com relação ao aumento da temperatura, isso é praticamente geral (com exceção de algumas regiões, como mencionado no item 3). No entanto, para a precipitação, depende muito da região. Além disso, há uma série de desafios enfrentados na medição de precipitação e falamos do assunto aqui.

7) Todas as projeções indicam aumento da temperatura média na América Latina. Acontece que cada projeção quantifica esse aumento de uma maneira, porque depende do cenário apresentado (por exemplo, em um cenário reduzimos drasticamente as emissões, em outro cenário não reduzimos nada, em outro aumentamos, em outro reduzimos pouco, etc). Em alguns casos, fala-se de um aumento de temperatura de 1,6°C a 4,0°C na América Central e de 1,7°C até 6,7°C na America do Sul (confiabilidade média).

8) Com relação a precipitação, algumas projeções falam em aumento e outras em diminuição. Além disso, depende muito da região. Na América Central, fala-se de variações de- 22%  a +7% (ou seja, aumento ou diminuição). Na América do Sul, a variação é basicamente geográfica. E isso é tão importante para nós brasileiros que vou colocar em um box, para deixar tudo bem claro

– Sudeste da América do Sul: aumento de 25% nas chuvas (confiabilidade pequena).

– Nordeste da América do Sul: redução de 22% (confiabilidade pequena)

Sei que em ambos casos a confiabilidade ainda é pequena. São necessárias mais medições e mais estudos para chegar em um maior consenso. No entanto, essas projeções são preocupantes. Mais chuvas na Região Sudeste do Brasil (e mais deslizamentos e enchentes, como o da Região Serrana do Rio de Janeiro) e mais seca em um local que já é seco (Região Nordeste). O Brasil deve usar essas projeções ao seu favor, já pensando em maneiras de mitigar esses problemas. O próprio AR5 possui um capítulo só sobre mitigação.

9) Outro ponto discutido nesse capítulo é o aumento de episódios de seca na América do Sul tropical e no leste dos Andes. Além de um aumento em dias e noites quentes na maioria da América do Sul (confiabilidade média). Esse aumento em dias e noites quentes vem sendo bem verificado principalmente quando observamos a elevação da temperatura mínima. Em São Paulo-SP, por exemplo, a mínima subiu 2,2°C desde 1933. Como já mencionei várias vezes no Meteorópole: seus avós sentiam mais frio do que você quando iam para a escola.

Temperatura média mínima anual, também a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. De 1933 até 2013, as primeiras horas das manhãs ficaram 2,2°C mais quentes.  ados apresentados no último boletim anual. Consulte-o aqui.

Figura 3: Temperatura média mínima anual, também a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. De 1933 até 2013, as primeiras horas das manhãs ficaram 2,2°C mais quentes. Dados apresentados no último boletim anual. Consulte-o aqui.

10) Outro importante ponto de destaque é a disponibilidade de água em toda a América Latina (confiabilidade alta). Esse é um ponto que já discuti (veja aqui) e pretendo continuar falando a respeito enquanto eu escrever na internet, porque tem a ver com algo que podemos fazer. A água é um recurso finito e muito raro. Podemos economizar água em nosso condominio, em nossa casa, em nosso trabalho, etc. Nos Andes, a criosfera (o gelo no topo das montanhas) está ficando cada vez menor. Muitos rios da região amazônica são alimentados pela água do degelo sazonal. Se o gelo nos andes sumir, teremos impactos na Região Amazônica. E toda população que depende da água do degelo para sobreviver será prejudicada. Ainda com relação a água, alterações no regime de precipitação podem fazer com que a água que alimenta a Bacia do Prata aumente. Isso aparentemente pode ser bom a médio prazo, mas devemos pensar nas populações que moram na região e podem ficar mais sujeitas a enchentes.  Nas regiões áridas (como no Nordeste brasileiro), a redução da precipitação e o aumento da evaporação devido a elevação da temperatura podem fazer com que muitos rios sequem, reduzindo a disponibilidade de água na região (confiabilidade alta).

11) Além disso, a gente precisa lembrar que os rios tem uma outra importância aqui na América do Sul:  são energia. Países como o Brasil e o Paraguai dependem de rios bem cheios para que as hidrelétricas funcionem com boa capacidade. Ou seja, o fornecimento de energia elétrica pode ser muito afetado. E isso a gente já vê na prática, aqui no Brasil. O problema é que os governantes usam essa informação para se isentar de culpa. Na verdade, há pouco investimento no setor elétrico. Os governantes devem aproveitar essa informação para pensar em fontes alternativas e limpas de Energia Elétrica. Lembram quando falei dessa enorme usina de Energia Solar na China? Então, recentemente os Estados Unidos também investiram (e fizeram uma usina ainda maior que a chinesa). Aparentemente, essa usina foi construída de uma parceria do Google com construtoras. Imaginem a quantidade enorme de servidores que o Google tem, todos dependentes de energia elétrica. O semi-árido nordestino tem condições ideais para esse tipo de iniciativa. Já que o assunto é energia solar, conheça aqui as 10 maiores usinas de Energia Solar.

12) Ainda mais importante que a geração de eletricidade, é a agricultura. O AR5 também mostra que alterações no fluxo de água dos rios também vão prejudicar a produção de alimentos. E a produção de alimentos é outro ponto importante muito destacado no AR5 (até falei de uma palestra que vi sobre o tema). A questão da disponibilidade de água e da agricultura estão sendo repetidamente sendo pauta em diversos meios de comunicação pois tratam-se de pontos em que o AR5 apresenta alta confiabilidade. E claro, são pontos que alteram nossas vidas diretamente e podem ser importantes ganchos para fazer com que a população e os governantes levem mais a sério a questão das mudanças climáticas.

13) Esse capítulo do AR5 fala sobre o manejo dos recursos hídricos. Se ações forem tomadas agora, poderemos minimizar os efeitos futuros. Sendo assim, a economia da água é um ponto importantíssimo. O consumidor final deve economizar água. As distribuidoras de água devem realizar obras para minimizar as perdas no caminho dos reservatórios até os consumidores. Além disso, a água precisa chegar a quem precisa. Deve-se priorizar a água para consumo humano acima de tudo.

14) E aqui devemos lembrar que mudanças no uso do solo e degradação ambiental exarcebam os efeitos negativos da mudança climática (alta confiabilidade). O deflorestamento e a degradação do solo estão relacionados principalmente com a agricultura. A expansão da fronteira agrícola tem fragilizado ecossistemas, como na parte sul da Floresta Amazônica e na parte tropical dos Andes. Apesar de as taxas de deflorestamento na Amazônia terem reduzido substancialmente desde 2004 (até que enfim uma boa notícia!), o Cerrado ainda apresenta uma taxa deflorestamento muito grande. Enquanto a taxa de deflorestamento da Floresta Amazônica atualmente é de 4656 km²/ano, no Cerrado é de 14.179 km²/ano, para o período de 2002 até 2008. E isso é muito sério, já que vários rios importantes nascem no Cerrado brasileiro, como o Rio São Francisco.

15) E precisamos lembrar que o desmatamento faz com que o carbono armazenado nas plantas seja liberado para a atmosfera. Só pensar que essas ṕlantas serão decompostas (ou foram queimadas). E esses processos liberam GEE (gases de efeito estufa). Uma árvore enorme armazena muito mais carbono do que alguns pés de soja, por exemplo (percebam que meu conhecimento de botânica é limitadíssimo, mas essa informação está correta). E alterando o tipo de cobertura do solo, o microclima da região também pode ser alterado.

Vocês perceberam que estou falando apenas de um capítulo do AR5, né? E isso gerou um post enorme. Bom, na minha opinião é um importante capítulo. Vocês podem acessá-lo aqui. Eu ainda não terminei de discutir os pontos importantes tratados nele. Eu apenas parei porque o post estava ficando enorme. Sendo assim, vou publicar uma “Parte 2” ainda essa semana.