Principais impactos na América Latina, de acordo com o último relatório do IPCC – parte II



Veja a Parte I aqui. Para quem não viu, eu estava falando do Capítulo 27, do Grupo de Trabalho II, do AR5, o mais novo relatório do IPCC.

Quando comecei a escrever a parte I, percebi que o texto estava ficando muito grande. Decidi então continuar o assunto, até para que novos leitores do blog possam acompanhar também. A numeração vai continuar a partir do 16), pois no último tópico mencionado na Parte I parei no ponto 15), em que eu falava sobre o desmatamento.

O Brasil é o segundo maior emissor de CO2 a partir do desmatamento. Fonte COMET/UCAR
O Brasil é o segundo maior emissor de CO2 a partir do desmatamento. Fonte COMET/UCAR
Madeira de origem ilegal no Brasil, em 2008. Fonte: Wilson Dias/Agência Brasil/Wikimedia Commons
Madeira de origem ilegal no Brasil, em 2008. Fonte: Wilson Dias/Agência Brasil/Wikimedia Commons

16) O último ponto que mencionei no post anterior foi com relação ao desmatamento.  E o desmatamento também causa uma enorme perda de diversidade e altera o microclima. Essa questão do microclima é bem empírica e acredito que muita gente já notou: não é bem mais agradável caminhar em um parque do que caminhar em uma cidade toda concretada e asfaltada? Então, o armazenamento de calor varia conforme o tipo de superfície. A ilha de calor, em grandes cidades com São Paulo, pode ter alterado o regime de precipitação. O desmatamento também pode alterar o regime de precipitação. E com o ecossistema alterado, além da falta de florestas (fonte de comida e local de abrigo), muitos animais podem entrar em extinção. O aquecimento global pode elevar as taxas de extinção de inúmeras espécies (confiabilidade média).

17) O relatório fala da importância do estabelecimento de áreas de preservação, como criação de Parques Nacionais, por exemplo. Também fala do manejo feito pela própria comunidade. Aqui na América Latina, há diversos povos que dependem da floresta para sobreviver, pois tiram dela seu sustento, ela faz parte de seu modo de vida e tem ligação com sua cultura e religiosidade.

18) O capítulo 27 do WGII do AR5  afirma que as condições socioeconômicas no mundo melhoraram desde o AR4 (documento publicado em 2007). Apesar das melhorias, isso ainda não é o suficiente já que existe uma grande quantidade de pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade, pobreza e miséria. As mudanças climáticas vão afetar mais ainda essas pessoas. Por isso atualmente fala-se em justiça climática! Os níveis de pobreza na maioria dos países da América Latina ainda continuam muito altos: 45% na América Central e 30% na América do Sul, de acordo com dados de 2010. Mesmo com o crescimento econômico, o desenvolvimento não chegou para todos.  O IDH varia muito: Chile e Argentina tem os maiores IDH da América Latina, enquanto Guatemala e Nicarágua tem os menores. Essas desigualdades econômicas são visíveis no acesso a água de qualidade, acesso a moradias dignas e saneamento básico. Os governos precisam investir no bem estar das pessoas não apenas porque é o justo e também para prepará-las para as mudanças climáticas.

19) Outro ponto muito mencionado é o aumento do nível do mar na costa. Essa informação tem sido mencionada desde o AR4 (relatório anterior, publicado em 2007). Na figura seguinte, vou mostrar um gráfico que vi em um curso que fiz (esse curso).

Mapa regional dos impactos das Mudanças Climáticas na América Latina. Esse gráfico é adaptado e traduzido do AR4 (2007), do Grupo de Trabalho II.
Mapa regional dos impactos das Mudanças Climáticas na América Latina. Esse gráfico é adaptado e traduzido do AR4 (2007), do Grupo de Trabalho II.

A figura acima mostra os impactos  das mudanças climáticas na América Latina. Cada bolinha, indicada pela legenda ao lado, corresponde a um impacto. Nas áreas costeiras, temos 3 destaques:

– Desaparecimento da vegetação de mangue, nas linhas costeiras de baixa altitude. Além da perda de biodiversidade, devemos lembrar que muitas pessoas tiram do mangue o seu sustento;

– Recifes de corais e mangues ameaçados pela elevação da temperatura da água do mar.

– Aumento de tempestades marítimas e aumento do nível do mar podem ameaçar seriamente a região da foz do Rio da Prata. E devemos lembrar que importantes cidades estão na região: Montevideo e Buenos Aires.

O interessante é notar que todos esses pontos são repetidos no AR5 e estão marcados como alta confiabilidade. Isso significa que diversos artigos científicos concordam nesse ponto. No subcapítulo (existe essa palavra? rs.. agora existe) 27.3.3.2, fala-se das práticas de adaptação e uma iniciativa que envolve preservação com participação dos pescadores na região de Abrolhos é mencionada, como sugestão de que seja repetida em outros locais do mundo.

20) A produção de alimentos é um outro ponto bastante mencionado em todo o AR5 e que é tido como um dos desafios que a América Latina vai enfrentar. Um dado importante que até vou colocar em negrito: o aumento de temperatura e a redução da chuva pode fazer com que a produção decresça a curto prazo (até 2030) em regiões dos Andes e no Nordeste Brasileiro. Estive no Sertão da Bahia em 2012, na Região da Chapada Diamantina (fiz até esse post falando do Pico do Barbado).  A seca estava intensa. A água vinha em pouca quantidade e apenas durante parte do dia. A região é nascente de vários rios e muitos moradores mais antigos da região afirmaram que nunca tinham visto situação semelhante. O mais agravante é que a população do sertão já é pobre, já encontra-se em situação de vulnerabilidade.

21) O relatório também menciona a América do Sul como lugar chave para a produção de alimentos no futuro. Só que para isso acontecer, teremos que investir na qualidade das plantações. E mencionam inclusive a importância do melhoramento genético das plantações. Esse ponto é um pouco polêmico, porque entra na questão dos alimentos transgênicos. E ainda há poucos estudos sobre o impacto desses alimentos no desenvolvimento humano. De qualquer maneira, é algo que precisa ser estudado, pois pode ajudar a garantir nossa segurança alimentar.

22) A energia renovável com base em biomassa tem um impacto potencial sobre a mudança no uso da terra e desmatamento e  poderia ser afetada pela mudança climática (confiabilidade média). A cana de açúcar e soja são propensos a responder positivamente ao CO2 e mudanças de temperatura, mesmo com uma diminuição da disponibilidade de água, com o aumento da produtividade e produção  (alta confiabilidade). A expansão da cana de açúcar, soja e óleo de palma pode ter algum efeito sobre o uso da terra, levando ao
desmatamento em partes da Amazônia, América Central e outras reservas florestais da América Latina (como as de Mata Atlântica) e a perda de emprego em alguns países (média confiabilidade). Avanços em bioetanol de segunda geração a partir da cana e outras matérias-primas será importante como uma medida de mitigação (veja mais no 27.3.6.2 daqui). É curioso observar que a gente sempre ouve falar de pesquisas importantes na área de energia renovável de biomassa. Pesquisadores tem utilizado casca de arroz, excremento de animais, etc, sempre testando a eficiência de cada uma das matérias-primas.

22) Doenças! Mudanças no clima e padrões climáticos estão afetando negativamente a saúde humana na América Latina , seja por aumento da morbidade, mortalidade e incapacidades (alta confiabilidade), e através do aparecimento de doenças em áreas anteriormente não-endêmicas (alta confiabilidade).Muitos indicadores já estão associando o aumento de ocorrência de doenças respiratórias e cardiovasculares com mudanças climáticas e poluição do ar.  E por falar em poluição do ar, ela afeta até os bebês nas barrigas de suas mães (falei sobre isso aqui e aqui). A mudança climática vai exacerbar os riscos atuais e futuros para saúde, principalmente em áreas que vão ficar sujeitas a alagamentos. Doenças como a dengue, a malária e a febre amarela, por exemplo, dependem de vetores que utilizam a água parada para se reproduzir. Além disso, com a elevação da temperatura, essas doenças podem começar a ocorrer em regiões atípicas. Surtos de dengue no sul da América do Sul, por exemplo.

23) E para finalizar, o capítulo 27 fala da importância do planejamento e da implementação de políticas de mitigação. Acontece que aqui na América Latina temos desafios que talvez não façam parte da agenda européia. O que quero dizer? Ainda precisamos lutar pelo fim da pobreza. Os índices de pobreza ainda são muito elevados (como vimos no item 18)). No entanto a luta pelo fim da pobreza e a implantação de estratégias de adaptação não são conflitantes, como também foi mencionado no item 18).

Bom, com relação ao capítulo 27 é isso. Como eu disse na Parte I, é um capítulo muito importante para os latino-americanos e quem pretende ficar por dentro do AR5 e entender o IPCC, com certeza deve ler esse capítulo (e outros do Grupo de Trabalho II). Para entender as bases científicas das mudanças climáticas, deve-se ler os documentos do Grupo de Trabalho I. Semana passada eu “discuti” com uma pessoa no twitter, um negacionista do aquecimento global (é essas pessoas ainda existem, parece que estou falando do chupacabras, mas acreditem em mim, existem sim, infelizmente). Essa pessoa começou a criticar o IPCC, dizendo que as previsões são inválidas, porque desconsideram a meteorologia e insiram outros pontos de ignorância aqui etc. Bom, é evidente que o sujeito nem sabe o que é IPCC e capaz de achar que AR5 é igual AI-5 rs (ou capaz de achar que AI-5 foi uma coisa boa e AR5 é uma coisa ruim rs). Só que se ele tivesse de fato lido qualquer capítulo do AR5 (ou do AR4), teria observado que ao final de cada capítulo há uma extensa revisão bibliográfica. Os cientistas que fazem parte do IPCC eles não surgiram “do nada” e decidiram fazer figurinhas e escrever textos. São reconhecidos em suas áreas de atuação e por essa razão estão fazendo esse relatório. O relatório é na verdade um apanhado de toda produção científica em cada uma das áreas relacionadas com as mudanças climáticas. Falei sobre a organização do IPCC aqui e os links para acessar os relatórios encontram-se aqui.