A Meteorologia de: Qo’noS



Fazia algum tempo que eu não escrevia um post sobre Star Trek, minha franquia favorita. Daí a Sybylla me mandou esse post lindo de um Tumblr que ela escreve e eu resgatei uma ideia antiga que eu já tinha no meu cérebro: falar sobre a meteorologia de mundos alienígenas (existentes no mundo real e na ficção). E o escolhido será Qo’noS porque eu quero assim rs.

Para isso, vou usar principalmente informações oficiais, divulgadas no Memory Alpha, principalmente. Mas vou contar também com a imaginação de outros fãs (e com a minha, por que não?).

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Great Hall, na Primeira Cidade (First City), em Qo’Nos onde são tomadas importantes decisões do Alto Conselho Klingon (Klingon High Council).

Qo’Nos é um planeta que possui apenas um continente e um vasto oceano. E essa informação é oficial:

At the outset of writing “Sins of the Father”, Ron Moore provided Co-Executive Producer Michael Piller with an explanatory two-page memo about the Klingons which included the statement, “The Klingon homeworld is a world of extremes. The tilt of the planet’s axis results in wild seasonal changes and there is a great deal of volcanic activity. There’s a single land mass and an enormous, turbulent ocean. The race we know as Klingon was born on this harsh and brutal planet.”

No episódio Sins of the Father, de Star Trek TNG, quando a Enterprise se aproxima do planeta ele tem esse aspecto:

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Na imagem acima, não dá para ver que trata-se de um continente só, mas a gente consegue ver um recorte do litoral e algumas porções de água no interior do continente (o que parece ser um rio caudaloso ou um lago). É possível também ver algumas nuvens bem brancas e no que parece ser uma baía, as nuvens estão sobre o continente.  Quando essas nuvens acompanham a topografia dessa forma, normalmente são nuvens baixas tipo Sc/St (Stratocumulus e Stratus). Acredito que o que está acontecendo na parte superior direita da figura é a entrada de brisa marítima. Como já mencionei aqui, circulações de brisa marítima ocorrem devido a diferença de temperatura entre o oceano e o continente.

Qo’noS é o segundo planeta de um sistema de mesmo nome. Isso não diz muita coisa, porque na verdade depende da distância do planeta até a estrela. Se estiver dentro da zona habitável, não importa muito se é o primeiro, segundo, terceiro, etc. Como ele é habitável, é classificado como um mundo classe M. Bom, Klingons podem respirar no mesmo ambiente que humanos, sem nenhuma adaptação. O que sugere que eles também utilizem oxigênio para respirar. No entanto, os Klingons possuem diversas redundâncias em seu organismo (dois corações, se não me engano, quatro pulmões, etc).  Como é uma raça de guerreiros, essas redundâncias são uma adaptação: se um coração for atingido em batalha, o guerreiro pode continuar lutando. Como possuem quatro pulmões, imagino que possam viver em condições de ar mais rarefeito. Há estudos que sugerem que o torax de adultos nativos de regiões montanhosas (como os Andes) possuem um volume maior. Sendo assim, pode ser que a atmosfera de Qo’noS possua menos oxigênio. No entanto, os Klingons colonizaram diversos outros planetas e luas. Como o planeta possui apenas um continente, a necessidade de obter recursos naturais principalmente para construir máquinas de guerra e naves fez com que os Klingons fossem grandes colonizadores. O organismo resistente desses indivíduos tornou possível que eles vivessem em todo tipo de local, desde que fosse classe M, claro (uma pressão atmosférica adequada e uma concentração, mesmo que pequena, de oxigênio).

Kronos (forma escrita no idioma da Federação para Qo'noS) e sua Lua, Praxis (que a essa altura não sei se é finada ou não, discuto isso depois). Imagem do filme mais novo (Star Trek Into Darkness)
Kronos (forma escrita no idioma da Federação para Qo’noS) e sua Lua, Praxis (que a essa altura não sei se foi destruída ou de destruiu-se naturalmente [1]). Imagem do filme mais novo (Star Trek Into Darkness)

Reparem que o roteirista Ron Moore disse que: The tilt of the planet’s axis results in wild seasonal changes  (A inclinação do eixo do planeta resulta em intensas mudanças sazonais) e também disse there is a great deal of volcanic activity (tem muita atividade vulcânica).

Mapa de Qo'noS. Fanfic. Vi aqui.
Mapa de Qo’noS. Fanfic. Vi aqui.

Vou falar da primeira afirmação. A primeira afirmação não me diz muita coisa, porque na Terra é assim. A inclinação do eixo terrestre é de 23,5°. Isso significa que a inclinação entre o plano do Equador e o plano da Eclíptica (plano onde acontece o movimento de translação) é de 23,5°, o que é responsável pelas estações do ano. Quem mora nas regiões tropicais, não nota muito. Mas quem mora em latitudes altas e médias, percebe as dramáticas variações nas quatro estações do ano.

Eu li em algum lugar (há mil anos atrás e deve ter sido em fanfic) que a inclinação do eixo de Qo’noS é de cerca de 30°. Uma inclinação maior do que a nossa provavelmente faria com que houvesse mais extremos climáticos, já que a faixa do equador do planeta seria maior. Tempestades tropicais, por exemplo, ocorreriam em uma área maior.

E lembrem-se também que Qo’noS possui apenas um continente. E se esse continente tiver uma maior porção habitável (longe dos vulcões) mais distante do equador do planeta? E se todo o continente estiver fora dos “trópicos” do planeta? Bom, então essas partes experimentariam um verão muito quente e um inverno muito frio, que é o que a gente vê na faixa mais ao norte dos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo.

Agora, com a segunda afirmação:  tem muita atividade vulcânica. Durante erupções vulcânicas, o material lançado na atmosfera inicialmente favorece a formação de chuvas torrenciais. No entanto, parte do material pode chegar até a estratosfera e reduzir a quantidade de radiação solar incidente. Falei sobre esse assunto num post recente que escrevi com a Sybylla no Momentum Saga. Também falei de casos que aconteceram na Terra: o vulcão Toba e o vulcão Tambora (e outros menores) no início do século XIX.

Ou seja, esses dois fatores mencionados fazem com que Qo’noS seja caracterizado por um tempo severo. Além disso, precisamos lembrar que, principalmente antes do acordo de paz com a Federação (ou os Acordos de Khitomer  – Khitomer é o nome de outro planeta de domínio Klingon, palco de um ataque sangrento dos Romulanos, que tirou a vida dos pais de Worf), os Klingons não se preocupam muito com o ambiente. Na verdade, eles esgotavam todos os mundos que descobriam: extraiam recursos naturais e depois iam embora. Certamente também esgotaram boa parte de Qo’noS. Esses caras chegaram a explodir Praxis, a lua de Qo’noS, enquanto exploravam seus recursos  naturais. Qo’noS certamente possui a atmosfera poluída e talvez a alteração na atmosfera desse planeta tenha modificado o clima, exatamente como estamos fazendo na Terra.

Com relação a explosão de Praxis, vocês já pararam para pensar o que seria do nosso lindo planeta a azul sem o nosso satélite prateado? Em um antigo artigo da Super Interessante de Agosto/2000 (cara, eu tinha essa revista!), essa possibilidade é explorada. De acordo com os pesquisadores ouvidos, a vida como conhecemos nem existiria se não tivéssemos a Lua:

É que o satélite natural da Terra, enquanto dá voltas, puxa o planeta com sua gravidade e isso determinou a evolução do homem.

Se não fosse esse puxão, a rotação da Terra ficaria frouxa como a de um pião que perde velocidade. O eixo do planeta mudaria de posição a toda hora de uma maneira tão caótica que às vezes os pólos ficariam apontados para o Sol. Segundo o astrônomo Walmir Cardoso, coordenador da Sociedade Brasileira para o Ensino da Astronomia, o clima enlouqueceria. Séculos quentíssimos se alternariam com outros em que camadas de milhares de quilômetros de gelo cobririam os continentes. Nevascas, furacões, enchentes e secas seriam coisa corriqueira. “Com um tempo desses, ficaria tão difícil sobreviver que não dá para acreditar que seres inteligentes como os humanos pudessem se desenvolver”, afirma Cardoso.

Uma das teorias da formação da nossa Lua diz que ela é um fragmento da Terra que se soltou dela depois de um choque com outro corpo celeste. Nesse choque, parte dos oceanos teriam evaporado. Ou seja, sem a Lua, provavelmente teríamos mais oceanos e sorte das criaturas marinhas, que certamente dominariam o planeta. E claro, sem a Lua não haveria as grandes variações de maré. Mas quem sem importa, quando provavelmente nem haveria humanos?

Qo’noS sem Praxis também está sujeita a esse tipo de vulnerabilidade. A sorte é que os Klingons dominam as viagens espaciais e seu povo já está espalhado em outros planetas e luas. No entanto, Qo’noS é a capital do Império Klingon, com uma grande importância administrativa e cultural.  Ao que parece, a história continuou bem e Qo’noS continua com grandes cidades e com muitos moradores, mesmo após a destruição de Praxis. Certamente a tecnologia que os Klingons e a Federação dispõe foram suficientes para evitar grandes catástrofes.

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[1] Em Star Trek Into Darkness, é preciso lembrar que a história segue uma realidade alternativa (no filme anterior isso é explicado, a anomalia, Nero, Vulcano destruído e etc). E quem viu o filme deve se lembrar que Praxis tinha sido destruída por uma catástrofe desconhecida, num período anterior ao do filme Star Trek VI: The Undiscovered Country, que é quando Praxis é destruída pela atividade de mineração sem segurança.   Na maioria das vezes que me refiro a algo de Star Trek, me refiro a linha do tempo convencional (exceto quando eu disser o contrário), que é de onde temos mais material para nos apoiar.

Ah sim, muitas informações que utilizei nesse post foram obtidas no Memory Alpha e na minha cabeça rs.

E leiam também esse post da Sybylla sobre os novos e os antigos fãs de Star Trek. O post é do ano passado, eu só li agora (vergonha!) e adorei.