Boatos de privatização da USP e minha revolta: entendam o porquê.

Hoje bem cedinho li essa notícia extremamente sensacionalista. Fizeram um levantamento e viram que a maior parte dos alunos da USP possuem um padrão socioeconômico que permitiria o pagamento de uma mensalidade. Grande novidade! Na USP há muitas pessoas ricas ou pelo menos de classe média alta. Quem foi aluno da USP, como eu, observou isso de perto.

Meu amigo Luiz e eu, apresentando um trabalho em um Congresso de Meteorologia, em 2006 em Florianópolis. A USP possibilitou meus estudos, possibilitou viagens para congressos e workshops, possibilitou que eu conhecesse pessoas incríveis e me deu conhecimento para hoje ganhar meu dinheiro honestamente e escrever aqui no blog.

Meu amigo Luiz e eu, apresentando um trabalho em um Congresso de Meteorologia, em 2006 em Florianópolis. A USP possibilitou meus estudos, possibilitou viagens para congressos e workshops, possibilitou que eu conhecesse pessoas incríveis e me deu conhecimento para hoje ganhar meu dinheiro honestamente e escrever aqui no blog.

Ora, de acordo com a reportagem, se há tanta gente rica na USP, por que não sugerir que eles poderiam pagar uma mensalidade para a Instituição? A conclusão é tão tacana que não consigo acreditar.

Esse levantamento é mais óbvio do que dizer que o céu é azul. A USP tem alunos ricos e brancos em sua grande maioria, desculpem a redundância. Por que não aproveitar essa OBVIEDADE para discutirmos o acesso a Universidade? Por que não aproveitarmos essa obviedade para discutirmos a melhoria do ensino público?

O partido que está há anos no governo do Estado lida dessa maneira com os problemas: não sei gerenciar, então privatizo. Primeiro dizem que a USP anda mal das pernas (e eu duvido muito que seja tanto assim). Espalham essa notícia no ventilador e os funcionários, sem perspectivas de aumento, anunciam greve. Agora essa reportagem totalmente tendenciosa quer fazer a população revoltar-se contra a USP.

E os que se revoltam (que carinhosamente chamo de reacionário-burristas) as vezes tem um perfil difícil de acreditar. Muitos não são exatamente ricos. Os filhos (ou eles mesmos) tiveram que estudar em faculdade particular, pois não conseguiram passar na peneira do vestibular. Ora, não seriam essas pessoas as maiores beneficiadas por um ensino público de qualidade?

Se o cenário brasileiro não mudar, vou ter que colocar meus futuros filhos em uma escola particular. Só que não sou suficientemente rica para colocá-los em uma escola particular de ponta. Vou ter que colocá-los em uma particular mediana. Se o ensino público fosse bom, ele poderia estudar numa escola pública e conviver com a diversidade.

Do jeito que a escola pública está hoje, qualquer um que tem condições financeiras um pouco melhores prefere colocar os filhos numa escola particular. Até professoras da rede pública matriculam seus filhos em escolas particulares (conheço várias). O governo sucateia para depois privatizar. Porque o que já está acontecendo é a privatização, não de maneira exatamente declarada e com contratos e vendas, mas quando preferimos pagar por um serviço do que usar o público (educação e saúde também) é porque estamos privatizando o ensino dos filhos.

Muitos aqui sabem que eu estudei na USP. Tive que remar contra a maré. Estudei em escolas públicas a vida toda e ainda tive que pagar cursinho (consegui uma bolsa muito boa, acho que eu pagava só 50% do cursinho, lá no ETAPA). Eu tenho a felicidade de ter minha família me apoiando e apesar de pobre, eu não era miserável. Meu pai conseguiu investir em nossa educação, deixando outras coisas de lado. Por exemplo, morávamos em uma casa sem acabamento, não usávamos roupas caras, não fazíamos passeios frequentes ou caros, etc. Eu já mencionei aqui minha opinião sobre a meritocracia. Acho que eu tive muitos incetivos para estudar e prestar a USP. Mas infelizmente eu vi de perto que não é assim na maioria dos lares pobres de periferia.

A USP tem que continuar pública. O que tem que melhorar é a gestão. O que tem que melhorar é o acesso, para que a USP seja de todos.