Lua de Mel – o que é isso?



Aqui no Meteorópole já falei de Lua Sangrenta.

Já falei de Blue Moon, com direito a trilha sonora e tudo. E para falar da Lua de Mel, vou adicionar trilha sonora também:

Essa canção tem diversas regravações e pra mim a da Gal Costa é a melhor, porque ela é uma diva <3.

Mas enfim, porque eu estou falando em Lua de Mel? Casei e vou viajar? Nada disso. Vou falar de algo que envolve o equívoco de um portal de notícias em uma matéria mal feita (essa aqui). A matéria começa da seguinte forma:

Nos primeiros minutos desta sexta-feira (13), as pessoas que estiverem na parte leste da América do Norte vão assistir a um fenômeno conhecido como lua de mel, que é a coincidência da fase de lua cheia com o período (chamado perigeu) em que ela está mais próxima da Terra  — a 362.065 km de distância. Estas duas circunstâncias vão proporcionar a quem estiver nesta região uma luz com tons de mel mais brilhantes; uma lua mais âmbar que outras luas cheias este ano.

O primeiro erro é que a Lua não está em seu perigeu. Isso já aconteceu duas vezes em janeiro desse ano. E vai acontecer novamente dia 10 de agosto (veja aqui). Quando a Lua estiver em seu perigeu, teremos a Super Lua. Falei desse fenômeno aqui e nesse post pretendo mencionar brevemente.

Tamanho da Lua no Apogeu (apogee) e Perigeu (perigee). Fonte: Scine
Tamanho do disco lunar no Apogeu (apogee) e Perigeu (perigee). Fonte: www.starrynightphotos.com

Vi a imagem acima nesse ótimo texto do Science Blogs. O tamanho do disco lunar varia dependendo de sua distância com relação a Terra, que varia um pouco ao longo do movimento da Lua em torno da Terra.

A trajetória da Lua em torno da Terra é elípitica. A Terra está em um dos focos dessa elipse e a Lua gira em torno dela. Exatamente como a Terra e o Sol: a Terra gira em torno do Sol, num movimento elípitico, e o Sol está em um dos focos.

Acontece que nessa trajetória elípitica, há um momento em que a Lua está mais próxima da Terra. Esse momento chama-se perigeu. E quando ela está mais distante, temos o apogeu. Sim, analogamente ao periélio e aféio.

Como consequência disso, o tamanho do disco lunar visto por um observador aqui na Terra é afetado. Quando a Lua está mais próxima (Perigeu), o tamanho do disco lunar visto por nós por aqui é um pouco maior.

No ano passado, escrevi um texto inspirado por um vídeo que vi no Youtube: e se a Lua fosse substituída por algum planeta do Sistema Solar? Estou retomando aquele post porque ele fiz alguns cálculos que tem tudo a ver com o que estamos disctindo agora. Em primeiro lugar, precisamos saber como calcular o tamanho aparente da Lua e isso pode ser feito considerando que temos o seguinte problema:

Fonte: Física na Veia! Prof. Dulcídio
Fonte: Física na Veia! Prof. Dulcídio

Sendo assim, temos a seguinte relação trigonométrica:

equa1

Na equação acima, nós conhecemos R (que é o raio do astro) e d (que é a distância do astro até a Terra). Sendo assim, fica fácil calcular o ângulo aparente (que é a letra grega theta, θ).

Fonte: Física na Veia!, Prof. Dulcídio
Fonte: Física na Veia!, Prof. Dulcídio

Nesse post, fiz os cálculos e falei do tamanho do disco lunar caso a Lua tivesse o tamanho de alguns planetas do Sistema Solar. Como vocês podem ver acima, as diferenças de tamanho entre Lua do Perigeu e Lua do Apogeu não são muito grandes, mas quem observa com binóculo, luneta ou telescópio consegue  perceber e fazer observações melhores.

Mas como eu disse, a Lua não está em seu perigeu. Ela até está se aproximando de um perigeu, mas não está exatamente no perigeu (veja tabela com os cálculos aqui). A reportagem do UOL fez entender que Lua de Mel é a mesma coisa que Super Lua. E não é. O termo Lua de Mel tem origens bem variadas (abaixo, conforme li na Wikipedia):

Originalmente “lua de mel” simplesmente descreveu o período logo após o casamento quando as coisas estão na sua fase mais encantadora. Presume-se que ela dure em torno de um mês. O primeiro prazo para isto em Inglês foi honeymoon, que foi registrado já em 1546.

Eu deduzo (aqui é palpite) que os casamentos eram feitos durante o verão nas primeiras civilizações, que floresceram no Hemisfério Norte. Casamentos eram grandes festas, envolviam alianças e tudo mais. Essas festas deviam ser feitas ao ar livre. Eram feitas no verão, pois as temperaturas são mais agradáveis. E junho é mês de verão no Hemisfério Norte. Some isso a crença na astrologia e pronto. Teremos a ideia de que é o momento ideal para um casamento. Ah sim, e ontem foi Dia de Santo Antônio que é o santo casamenteiro. Não acho que seja mera coincidência. E na reportagem do Universe Today, essa questão é mencionada. Além disso, também é lembrado que atualmente os casamentos ocrrem entre Agosto e Setembro (ele fala da realidade norte-americana… aqui no Brasil há a idéia de que maio é o ‘mês das noivas’).

Bob Berman has this to say about the origin of the term: “Is this Full Moon of June the true origin of the word honeymoon, since it is amber, and since weddings were traditionally held this month? That phrase dates back nearly half a millennium to 1552, but one thing has changed: weddings have shifted, and are now most often held in August or September. The idea back then was that a marriage is like the phases of the Moon, with the Full Moon being analogous to a wedding. Meaning, it’s the happiest and ‘brightest’ time in a relationship.”

O pessoal do UOL passou vergonha porque não leu a reportagem do Universe Today (que a propósito é citada pelo UOL):

A “Friday the 13th Honey Moon” is basically the subset of: 1. Fridays that fall on the 13th day of the month (OK, that’s two input perimeters, we know) that also 2. Fall inthe month of June, and 3. Occur on a Full Moon.

Traduzindo:

A Lua de Mel da sexta feira-13 é basicamente uma combinação de: 1: Sexta-feira que caiu no dia 13 do mês, 2. caiu no mês de junho e 3. ocorreu uma Lua cheia. Só isso.

Ou seja, o pessoal do UOL misturou Lua de Mel e Super Lua. Isso que dá contratar jornalista no lugar de escritor com conhecimento na área que está escrevendo. Na minha opinião, deveria ser assim. Desculpem colegas jornalistas, mas a formação básica de vocês (salvo raras exceções) não permite escrever bons textos sobre ciências. A não ser que o profissional tenham um super interesse na área. Como eu disse, exceções.

A  lua de cheia de 13 de junho tinha acontecido pela última vez no dia 13 de junho de 1919 e só vai acontecer novamente em 13 de junho de 2098. Para quem estava planejando um casamento especial… bem, vai ter que esperar risos. A coloração ambar da Lua, que lembra cor de mel, é comum nessa época do Ano lá no Hemisfério Norte. Isso provavelmente deve-se ao fato de que o dia claro (período com luz solar) é mais longo nessa época do ano lá no Hemisfério Norte, já que o verão está se aproximando. O pôr-do-Sol é mais demorado. Então aquela luz alaranjada de fim do dia encontra a Lua que nasce no horizonte. A Lua acaba por ficar meio alaranjada, o que deve dar a coloração ambar.

Sendo assim o “plus” dessa vez é que a Lua cheia aconteceu na madrugada da sexta-feira 13 (hoje, no caso), e quando me refiro a madrugada digo a madrugada da parte Leste da América do Norte. A Lua estava lá o tempo todo para qualquer habitante da Terra, claro, mas quem vive na parte leste da América do Norte pode ver a Lua durante a madrugada do dia 13, pois já era manhã e tarde do dia 13 na Europa, África e Ásia e ainda era noite do dia 12 no oeste da América. Ontem de noite eu estava voltando pra casa e notei a Lua bem linda no céu. :). Datas são apenas convenções, na verdade.

Ou seja, a reportagem do UOL está completamente por fora, toda errada. Não foi Superlua!

Ah,  com relação a esse negócio de Sexta-Feira 13, vocês conseguem imaginar todo tipo de crença e superstição que cerca isso. Enquanto é inofensivo, tudo bem. Se há pessoas que acreditam na influência da Lua em suas vidas e a cultuam de certo modo (e isso as faz bem), quem sou eu para questionar? Eu já fui bem mais chata-cética, mas depois de uma agradável conversa com o Alex (que é super cético), passei a pensar que se é inofensivo, tudo bem. O problema é quando a crença vira fanatismo. E sabe-se lá que o que um fanático pode achar dessa Superlua numa Sexta-Feira 13. Nesse caso, a situação ganha contornos perigosos e imprevisíveis.

 Sextas-feiras 13 são dias cercados de superstição. A origem disso parece ser uma soma de fatores que não ficaram muito claros para mim (vi aqui):

– Na Numerologia, o número 12 é um número associada a “ordem divina”: 12 meses do ano, 12 horas no relógio, 12 deidades do Olimpo, 12 tribos de Israel, 12 Apóstolos, 12 sucessores de Maomé, etc. O número aparece em todo lugar. Pessoalmente sempre achei o número 12 bem interessante: é divisível por 2,3 e 4. Acho isso prático, não sei porquê rs. Aparentemente, se você somar 1, essa ordem é desfeita rs.

– Sextas-feiras são consideradas dias de azar desde a Idade Média.

– Jesus foi crucificado numa sexta-feira (é o que dizem o cristãos rs)

– Na primeira década do século XX, Thomas W. Lawson escreveu Sexta-Feira 13, um romance popular no qual um inescrupuloso broker (que mexe com os negócios de uma empresa, compra e vende ações, etc – sou cientista, mercado financeiro não faz sentido pra mim) usa a superstição para criar pânico em Wall Street. Esse romance foi muito popular na época e lembrando que duas décadas depois os EUA entraria na Grande Depressão.

É interessante notar que o n° 13 é considerado um número de sorte para algumas pessoas. No Sul da Itália, vi alguns chaveiros e pulseiras com amuletos de boa sorte. Dentre cornos vermelhos e ferraduras, vi pingentes com o n°13.

Outra coisa que me preocupa nessa sexta-feira 13 é a maldade com os gatos pretos. Muita gente fanática e muito cruel acha que esses gatos trazem má sorte. Agora adicione isso ao mito da “sexta-feira 13”. Pobres bichinhos. Se você sabe de alguém com gato preto ou se você tem algum, preste uma atenção especial no dia de hoje. Se você notar algo suspeito, denuncie. Veja aqui como denunciar maus tratos aos animais.