Resenha de Água Para Elefantes



Quando eu leio um livro em menos de 3 dias, sei que ele é absolutamente delicioso.

Ok, não estou dizendo que livros mais difíceis de ler, seja porque não domino bem o idioma ou porque ele é de mais difícil compreensão, são livros necessariamente ruins. Pelo contrário. Para eu gostar de um livro, vários fatores pesam: interesse no assunto, boa história, boa narração, etc. Mas quando o livro me prende mesmo, eu termino de ler rapidinho. Foi o que aconteceu com água para elefantes.

Comecei a ler o livro na quinta-feira a tarde e terminei no domingo a noite. Eu estava assistindo alguns jogos da copa com meu pai e como não consigo me “prender” no jogo, eu ficava lendo e só levantava os olhos na hora do gol..rs.

Eu vou fazer um resumo rápido do assunto, sem dar spoilers. A ideia é dar uma noção geral da história para quem ter interesse de ler o livro. Em seguida (e vou avisar antes), vou falar sobre minhas impressões sobre a história.

Água Para Elefantes, de Sara Gruen, tem como personagem principal Jacob Jankowski. No presente (que parece ser primeira década do século XXI), ele é um senhor de mais de 90 anos que vive em uma casa de repouso. Com a chegada de um circo que se instala no estacionamento em frente a essa casa de repouso, Jacob começa a lembrar de histórias de seu passado. Ele lembra de um momento de ruptura, causado por uma tragédia, que o fez acidentalmente juntar-se a um circo.  Isso aconteceu na década de 30, período após a grande depressão. Jacob começa como trabalhador braçal, mas logo vira tratador de animais, pois é médico veterinário. No circo, Jacob encontra uma nova família, sofre com a ganância de Tio Al (o dono do circo) e com o temperamento difícil de seu chefe imediato, August. No circo, Jacob também encontra o amor.

O livro fala dos bastidores dos circos norte-americanos da primeira metade do século XX, com grandes animais, trapezistas, palhaços e pessoas incomuns (mulher barbada, pessoas extremamente obesas, anões, etc). O circo era extramamente diferente na época: as pessoas era consideradas aberrações, trabalhadores eram tratados em regime análogo a escravidão, animais eram desrespeitados, etc. Hoje existem diversas leis que impedem tais tratamentos e a própria humanidade evoluiu de certa forma, repudiando certas atitudes.

Em meio a esse universo, Jacob é um rapaz com bom coração que faz o possível para tratar os animais com respeito e dignidade. O personagem também tem um profundo carinho pelos amigos que conheceu no circo, sendo capaz de arriscar a própria vida e a própria felicidade pelo bem estar deles.

A partir daqui, vou dar uma série de spoilers. Até porque o livro já foi adaptado para o cinema (Water for Elephants, 2011) e muita gente já assistiu o filme, sobretudo as adolescentes. O personagem principal é interpretado por Robert Pattinson, que ficou famoso pela série Crepúsculo, mas eu preferiria que a estrela principal do filme fosse Rupert Grint, que interpretou Ronnie em Harry Potter.

Water_for_Elephants_Poster

A partir de agora, teremos uma chuva de spoilers, pois vou dar minha opinião em alguns pontos do livro. Se você pretende ler o livro, sugiro que pare a leitura por aqui.

No romance, dá para perceber que temos dois grupos bem definidos: o Bem e o Mal. Eu pessoalmente prefiro quando não existe essa divisão muito clara, acho que deixa a história mais interessante. Mas essa dualidade não deixa de ser um clichê literário, um clichê do cinema, de histórias em geral. Clichês fazem parte da vida e talvez digam muito ao nosso respeito. Por exemplo, noto dentre alguns conhecidos meus um ‘pensamento binário’ (o Sakamoto descreveu isso muito bem aqui). Esse pensamento binário absorve muito bem esse dualismo.

No núcleo “do bem”, temos principalmente Jacob, Marlena, Earl, Camel, Valter (ou Kinko), Barbara e Grady. E no núcleo “do mal”, temos principalmente Tio Al, August e Blackie. Esse último é um trabalhador braçal, que age a mando dos dois primeiros. A principal função dele é jogar pessoas para fora do trem.  As pessoas jogadas para fora do trem são trabalhadores braçais muito velhos e que não estão produzindo como antes, baderneiros ou qualquer outra pessoa que questione as atitudes de Tio Al.

Jacob é um cara muito bonzinho, extremamente do bem, com uma grande noção de moralidade. Ele é um estudante de veterinária de Cornell. Filho de imigrantes poloneses, segue a profissão do pai e pretende trabalhar com ele quando se formar. Com 20 e poucos anos, é um sujeito que só se preocupa com as coisas típicas da idade: perder a virgindade (considera-se o virgem mais velho do mundo) e estudar. Com relação a virgindade, não é nenhum desesperado. Não aceita a oferta dos amigos da faculdade, que pagaram para que uma mulher fizesse sexo com todos eles. Essa questão da virgindade é colocada como uma questão da idade, mas não é uma preocupação central na vida do protagonista.

Ele é um estudante comum. Começa a demonstrar interesse por uma colega de classe, imagina um possível romance com ela. E parece que ela está até correspondendo, mas então a vida como Jacob conhece deixa de existir: seus pais morrem em um terrível acidente de carro. A partir desse momento, a vida de Jacob se quebra. Ele não consegue concluir as provas finais da faculdade.  Ele não tem dinheiro (o pai refinanciou sua casa para pagar a faculdade). Ele perdeu a casa e a clínica veterinária do pai para o banco. A crise financeira dos anos 30 afetou toda a classe média da época e o pai de Jacob não podia ver os animais sofrerem, então aceitava tratá-los de graça ou recebendo legumes como pagamento.

Jacob sai sem rumo por aí, anda até os pés machucarem. Quando entra em um trem que estava passando. Ele iria ser arremessado para fora do trem, logo que foi descoberto, mas Camel interveio a seu favor. E Jacob dá uma lição de amizade e gratidão, nunca esquecendo o que esse amigo fez por ele.

Apesar de ser bem bonzinho, Jacob não é ingênuo. Só que ele não é um cara do bem extremamente idiota. Ele se adapta logo ao circo, faz amizades e suas habilidades logo são observadas. Ele começa como trabalhador braçal. Depois, graças a sua boa aparência e porte físico, vai trabalhar com o público. Atua como guarda-costas de uma stripper, em um dos espetáculos do circo.

Stripper no Circo? Pois é, há um show burlesco em que Barbara, uma voluptuosa dançarina, fica semi-nua e faz uma dança erótica. Depois recebe alguns homens em seu camarim. Interessante notar que essa personagem é do núcleo “do bem”, apesar de ter abusado sexualmente de Jacob.

Tá ficando estranho, né? Bom, primeiro a gente precisa saber que os espetáculos circenses da primeira metade do século XX eram bem diferentes. Havia uma tenda principal, onde ocorriam as principais atrações. E também havia as tendas diversas, em que diversas atrações ocorriam pouco antes do espetáculo principal. Animais eram expostos em jaulas apertadas e as crianças davam doces para eles (inacreditável!). Havia shows para homens (as strippers), barracas de doces e limonada, pessoas sendo exibidas como aberrações (mulheres gordas ou barbudas, anões, etc).

E a outra parte estranha é o abuso sexual que Jacob sofreu. Numa noite em que estava completamente bêbado, Jacob ficou caído quando Barbara e uma amiga tentam fazer sexo com ele. Tomado pela bebida e sem entender o que está acontecendo, Jacob não tem uma ereção e vomita na amiga de Barbara. Kinko, anão que depois vira amigo de Jacob, junta-se às mulheres e depila as partes íntimas de Jacob, o veste com roupas de palhaço e o coloca em um baú. Jacob sente-se extremamente culpado e não lembra exatamente o que aconteceu. Na primeira oportunidade, quer procurar uma Igreja para se confessar. Ele sente que cometeu uma depravação. A situação é toda bem bizarra, mas me chamou a atenção a atitude de Jacob diante de tudo isso. Ele realmente sente-se mal, apesar de ter ficado excitado com Barbara durante sua apresentação (quando atuou como guarda-costas). Ele se sente violado e eu nunca vi um personagem masculino agir dessa forma.

Uma outra curiosidade da obra é que foi escrito por uma mulher (Sara Gruen, que tem outros livros publicados). Mas o livro é escrito em primeira pessoa, narrado pelo Jacob. E isso é bastante incomum (o contrário é bem mais comum). Sara tem muita sensibilidade ao tratar as questões da velhice, que é o presente do Jacob. E como resultado, Jacob é um homem mais sensível, que de forma alguma age de maneira machista (pelo menos que eu me lembre). Para vocês terem uma ideia, ele se apaixona por Marlena. Marlena é a estrela do espetáculo dos cavalos, uma mulher sensível e com profundo amor pelos animais. Logo de cara o leitor já percebe que ali vai rolar romance, porque é muito claro que eles são almas gêmeas. Esse é o aspecto mais comercial do livro, o amor, o romance. Isso vende, isso sempre chama a atenção. Eu brinco que o amor entre Marlena e Jacob tem algumas similaridades com o amor entre Rose e Jack em Titanic:

– Ocorre num meio de transporte (Trem/Navio)

– São de ‘classes’ diferentes: Jacob é trabalhador e Marlena é artista do circo. Essa divisão de classes circenses é bem presente na obra, bem identificada. Os artistas tem  privilégios. Os trabalhadores braçais mal podem tomar banho e dormem em condições péssimas.

– Há um antagonista claro: em Titanic, o namorado rico de Rose. Em Água para Elefantes, August, marido de Marlena.

– No cinema, Jacob e Jack foram interpretados por galãs da época, que despertavam suspiros de muitas adolescentes.

Mas acho as semelhanças param por aí. Marlena é uma personagem muito mais forte.  August não a agride fisicamente (quando isso acontece, é a gota d’água pra ela) e faz algumas ameaças psicológicas, atribuídas a um problema de August (que a gente subentende que ele seja bipolar ou algo assim). Marlena tem um profundo amor pelos animais, então para ela ter um bom relacionamento com August significa manter tudo em harmonia, para que os animais fiquem bem.

O que existe entre Marlena e Jacob fica mais forte com a chegada de Rose, uma elefanta atrapalhada. Nesse momento, a história ganha contornos de filmes de cachorro, mas com uma elefanta…rs. A mocinha foi adquirida de um outro circo, que faliu. E ela simplesmente não consegue realizar nenhum truque. Em uma ocasião, foge para uma plantação de vegetais. August fica muito revoltado por não conseguir controlar Rose. E no desespero de colocá-la em um grande número, acaba arriscando a vida de Marlena.

É quando entra o segundo deus ex machina da história (o primeiro foi Camel impedindo que Jacob fosse lançado do trem): Grady. Grady é um cara polonês, como Jacob. Eles já tinham se encontrado antes,  em um alojamento. Grady simplesmente descobre que a elefanta não é burra: apenas que ela só obedece ordens em polonês. Então Jacob até tenta convencê-lo a ser tratador de elefantes, mas ele não demonstra interesse. Parece que ele só surgiu na história para dar uma dica a Jacob rs.

Jacob então salva o número artístico da elefanta, cai mais uma vez nas graças de August. August parece gostar de manter Jacob por perto pois tenho a impressão que ele está percebendo que existe algo mais entre Marlena e Jacob. Inicialmente, Jacob não fica com Marlena, sabe que isso vai contra os princípios morais de ambos. Mas o interesse mútuo é bem evidente, desde o início.

O circo vive bons momentos com o sucesso do show de Rose. Mas uma discussão entre August e Marlena, porque August acredita que ela e Jacob estão tendo um caso. Marlena é agredida e separa-se do marido, gera uma grande instabilidade no circo. Durante esse turbilhão, o amor entre Jacob e Marlena finalmente se consome. Claro que certamente isso é somado ao momento ruim da economia. O circo vai ficando cada vez mais pobres e Blackie tem jogado muitos trabalhadores para fora do trem. Tio Al tem pressionado Jacob para que convença Marlena a ficar com August. Claro que ele não faz isso, não é de seu interesse. Além disso, Jacob teme pelos seus amigos. Camel está muito doente, envenenado por bebida adulterada (nessa época, vigorava a Lei Seca lá nos EUA e o pessoal bebia muita porcaria adulterada). Jacob teme pelos seus amigos e ao mesmo tempo quer vingar-se de August. Em uma noite, dois de seus amigos são jogados do trem. Jacob sabe que será o próximo, ouve conselhos de Earl para fugir na próxima parada, mas ele não quer sair sem Marlena.

Nesse momento, fiquei imaginando dois desfechos:

– Marlena morria durante a fuga;

– A fuga dá certo e todos são felizes para sempre até a velhice de Jacob no asilo.

Mas nada disso acontece. Não, não temos o clássico clichê do mocinho salvando a mocinha. Eis que acontece um novo deus ex machina. Alguns trabalhadores que foram jogados do trem acabaram sobrevivendo. E decidem voltar para tocar o terror, soltando todos os animais da jaula. No meio dessa confusão, August acaba sendo morto por Rose. Jacob vê tudo, mas nunca conta para Marlena. Porque ele quer que ela acredite que Rose é uma boa elefanta. O casal também consegue salvar alguns animais do circo, incluindo Rose. Eles entram para o circo rival, onde trabalham por alguns anos. Depois aposentam-se do circo para ter uma vida mais tranquila, em que Jacob passa a trabalhar como veterinário em um zoológico. Ah sim, o reitor da Universidade permite que Jacob faça as provas finais para finalmente obter seu diploma.

É, eu sei. Isso virou um grande resumo do livro. Mas eu queria comentar os principais aspectos do livro. Eu queria contar porque gostei desse best seller e por que ele me surpreendeu.  Não é o tipo de livro que eu leio, sou grande consumidora de ficção científica. Mas é bom varias, lendo coisas diferentes e se surpreendendo. Eu recomendo :).

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