Resenha de Micromégas, de Voltaire



Eu ando fazendo umas pesquisas sobre ficção científica e recentemente aprendi que Voltaire escreveu textos nesse gênero tão amado por mim. Na verdade, eu não conhecia nada sobre Voltaire. Só sabia que ele era como uma Clarice Lispector de a.F. (antes do Facebook), uma vez que todo tipo de citação é atribuída a ele. E diga-se de passagem, muitas citações e aforismos bem interessantes (veja alguns aqui).

Sim, eu me envergonho um pouco dessa ignorância. Eu estudei em colégio técnico e não tive aulas de Filosofia ou Sociologia. Na verdade, acho que era até incutido em nossas mentes que essas matérias não eram importantes. Apesar de já me interessar por ciências da Terra antes de entrar no colegial (amiguinhos, chamávamos o Ensino Médio de colegial no meu tempo), creio que meu interesse por exatas aumentou no colegial justamente por eu cursar ensino técnico na área de exatas (fiz técnico em Eletrotécnica e algumas disciplinas de projetos de mecânica).

Um dos defeitos da formação do cientista aqui no Brasil é que na minha opinião falta interdisciplinaridade. Mas enfim, o post é sobre Micromégas, desculpem pelas divagações.

Como talvez eu faça algumas revelações sobre o enredo nesse post, recomendo que leiam o conto. Há uma versão em português muito boa aqui. E quem tem Kindle e lê em inglês, tem versão gratuita no Projeto Gutemberg (veja aqui). É curtinho, fácil de ler e traz muitos ensinamentos. Você lê o conto mais de uma vez e percebe que a cada vez novas coisas são absorvidas.

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Voltaire foi muito importante para o pensamento ocidental porque em seus ensaios ele falava em liberdade de expressão e tolerância religiosa. Ele viveu durante o século XVIII,  Percebam que esses temas são muito atuais. Quando nossos legisladores, muitos associados à igrejas evangélicas, colocam entraves na aprovação de leis contra a homofobia, a favor da regulamentação da venda de drogas, a favor da legalização do aborto, etc, eles estão tentando impor à todos os cidadãos suas doutrinas religiosas. Então quando lemos as citações de Voltaire, parecem que elas foram escritas semana passada.

Por conta do conteúdo de seus escritos, Voltaire foi encarcerado na famosa prisão Bastilha duas vezes. Foi exilado. Viveu por um tempo na Inglaterra, onde se dedicou ao estudo da literatura daquele país. Voltou para a França, arrumou mais confusão, foi para Berlim e arrumou confusão lá também. Ele era um cara realmente polêmico (por favor, não chamem Alexandre Frota de polêmico, polêmico era Voltaire).

Em Micromégas, um habitante de um planeta que orbita a estrela Sirius (monsieur Micromégas) e seu amigo, um habitante do planeta Saturno, visitam a Terra. E eles então fazem observações sobre a Terra. O nome Micromégas (em português ficou Micrômegas)  é bem curioso: micro e macro. E me lembra um álbum que eu curtia muito na adolescência:

Microscopic View of a Telescopic Realm  é o álbum de uma banda de metal chamada Tourniquet. Estou velha e chata, não consigo mais ouvir. Mas é nostálgico.
Microscopic View of a Telescopic Realm é o álbum de uma banda de metal chamada Tourniquet. Estou velha e chata, não consigo mais ouvir. Mas é nostálgico.

Não tem aquele texto que trezentas mil (trezentos mil é o número que uso para qualquer grande quantidade, rs)  pessoas compartilharam no Facebook sobre um francês que fez observações sobre o Brasil? E o texto vem com a foto do sujeito, com aquela cara escondida atrás dos óculos – valeu Drummond – e com um olhar de certeza e privilégio com cobertura de aparente inteligência? Pois então, esses dois caras alienígenas aí são como esse francês. Voltaire na verdade era francês. Está tudo interligado, meu Deus!!!

Voltaire foi influenciado por outra obra de ficção científica (não sei se posso classificá-la assim): As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. E isso fica claro quando falamos das alturas dos personagens. Micromégas tem 20.000 pés de altura (cerca de 6000m) e o saturniano tem 6.000 pés de altura (cerca de 1800m). O saturniano é um anão perto de Micromegas. Tudo é colossal: eles tem mais sentidos do que os humanos (e consequentemente maior percepção do universo) e tem mais conhecimento (sabem mais leis naturais do que a gente). Micromégas, por ser maior que o saturniano, tem mais sentidos e mais conhecimento que ele.

Há um momento em que o Saturniano tenta “florear” seu discurso, para impressionar Micromégas e uma das frases mais interessantes do conto é dita:

“Não quero que me agradem, quero que me instruam”.

Não posso deixar de me levar pela minha influência feminista aqui. Já perceberam o quanto as vezes querem nos agradar? O quanto querem deixar as coisas “mais fáceis” para a gente? Pois então, a partir de agora usarei esse aforismo. Bom, mas vamos continuar…

Nosso planeta tem um raio de 6000km mais ou menos (um pouco mais que isso). Ou seja, a ilustração acima está bem exagerada. Se Micromégas ficasse em pé e uma bola do tamanho da Terra ficasse em pé ao lado dele (não sei onde tão verificação seria possível rs), seria uma bola de 1000x sua altura. Os dois dão a volta ao mundo em 36h. Bom, os dois desembarcaram no Mar Báltico e imagino pela descrição que deram a volta na Terra mais ou menos naquela latitude. Perto dos circulos polares, a circunferencia da Terra tem cerca de 16.000 km (16.000.000 m). Um passo humano tem em média 0,8m. Portanto, para dar a volta ao mundo numa latitude perto dos círculos polares, um ser humano precisaria 20.000.000 (vinte milhões!!!) de passos.

Vamos supor que o passo seja proporcional a altura. Se um humano de 1,8m de altura tem um passo de 0,8m, Micromégas teria um passo de aproximadamente 2600m. Ou seja, Micromégas teria que dar cerca de 6200 passos para dar a volta ao Mundo. Segundo o conto, o trajeto foi feito em 36h. Então a velocidade média de Micromégas (to ignorando completamente o Saturniano rs) seria de 440 km/h. Para andar a essa velocidade, Micromégas teria que dar 170 passos por hora. Se ele puder viajar sem parar, não me parece um grande problema e ele pode fazer o trajeto sem precisar se apressar, como um passeio no parque. Para andar 1km, o indivíduo tem que dar 1250 passos (passos de 0,8m). E andar 1km não é um problema para uma pessoa saudável.

E na verdade Micromégas e seu amigo apreciaram o passeio. Observaram tudo e reclamaram das montanhas, que machucavam os pés. Mas gente, tem outro exagero aí: as montanhas mais altas do planeta tem uns 7000m-8000m de altura. Ou seja, tem o tamanho de Micromégas. É como pegar algo em cima da geladeira, por exemplo. Tudo bem, montanhas menores claro que podem ter perturbado nossos gigantes.

Há um momento em que o Saturniano fala que os moradores da Terra talvez não tenham bom senso (ora, não me diga rs). Mas ele ainda não viu os habitantes da Terra quando diz isso. Ele diz isso observando a geografia física do planeta:

Mas este globo é tão mal construído – objetou o anão, – é tudo tão irregular e de uma forma que me parece tão ridícula! Tudo parece aqui um pleno caos: não vês estes pequenos arroios que jamais correm em linha reta, esses charcos que não são nem redondos, nem quadrados, nem ovais, nem de nenhuma forma regular; e todos esses grãozinhos pontiagudos de que está eriçado este globo e que me arranharam os pés? (Queria referir-se às montanhas). Repara ainda a forma de todo o globo, como é achatado nos pólos, e a sua maneira inadequada de girar em torno do sol, de modo que a região dos pólos fica necessariamente estéril? Em verdade, o que me faz pensar que não haja aqui ninguém, é que gente de bom senso não moraria em um lugar como este.

Também fala que a Terra parece irregular quando comparada a Júpiter e Saturno. A presença dos oceanos e dos continentes (esses por sua vez com montanhas, rios, escarpas, etc) é o que torna nosso planeta tão diferente dos dois gigantes gasosos mencionados. Um mundo inteiro de gás não tem essas peculiaridades.

Pois bem – disse Micrômegas, – talvez os que o habitam não sejam gente de bom senso. Mas há probabilidades de que isto não tenha sido feito inutilmente. Tudo aqui te parece irregular porque em Saturno e Júpiter é tudo feito a régua e compasso. Exatamente por esse motivo é que há aqui um pouco de confusão. Não te disse eu que nas minhas viagens sempre encontrei variedade?

Após fazer essas observações físicas, os viajantes eventualmente encontram seres viventes do nosso planeta. Havia uma dúvida com relação a existência de seres vivos, mas só conseguiram notar quando os diamantes gigantes do colar de Micromégas caem e é possível ver tudo como se fosse uma lente de microscópio. Acho que a queda dos diamantes tem a ver com abaixar para observar. A gente só consegue ver as formigas levando comida para casa quando olha atentamente para o chão.

Encontram uma baleia. A maior baleia do mundo, que também é o maior animal do planeta, é a baleia azul. Ela tem cerca de 25m. Bom, eu amo hamsters (amiguinhas, que Deus as tenha) e o tamanho delas era de cerca de 15cm (0,15m). Um hamster de Sirius deveria ter cerca de 560m, aproximadamente 22x maior que uma baleia terrestre. Para o gigante, segurar a baleia é como segurar um insetinho.  E é mais ou menos dessa forma que a experiência é descrita.

A propósito, o gigante pesquisava insetos em seu planeta de origem, quando ainda era criança (ah, a infância por lá vai até uns 450 anos nossos). E isso certamente deu ao gigante a experiência necessária para estudar o mundo micro. E como Voltaire, ele arrumou umas confusões por lá, porque andou escrevendo coisas que desagradaram a corte.  Esses fatos são descritos no primeiro capítulo do conto. Aqui fica bem claro para mim que Voltaire se referiu a ele mesmo (todo ser humano tem mania de grandeza, né?), já que ele provavelmente escreveu esse conto quando estava no exílio na Inglaterra (ou quando regressou).

Eventualmente os viajantes encontram os humanos. Encontram na verdade uma embarcação, cheia de cientistas e filósofos. Os pequeninos (o texto é escrito sob o ponto de vista dos gigantes, apesar da narração ser em terceira pessoa), ou seja, os humanos, não conseguem perceber que trata-se de uma forma de vida logo de início. Acham que a embarcação foi movida por uma tormenta. Acho que é assim que uma formiga se sente.

Como comparação: imagine um indivíduo de 2m de altura e um inseto de 1cm de altura. O indivídio no caso é 200x maior que o inseto. Um indivíduo de 6000m de altura face a um indivíduo de 2m, é 3000x maior! Ou seja, esses diamantes aparentemente funcionaram como um ótimo microscópio.

Aparentemente, as vozes dos gigantes estão em uma faixa de frequência  diferente das dos humanos. Os gigantes constroem um conversor de frequência a partir de suas unhas e dessa forma comunica-se com os humanos. Primeiro tem uma conversa sobre medições. Os humanos medem com precisão as alturas dos gigantes. Os gigantes ficam impressionados com o conhecimento do mundo físico que os humanos tinham.Eis que Micromégas diz:

— Já que sabeis tão bem o que se acha fora de vós, decerto sabeis ainda melhor o que tendes por dentro. Dizei-me o que é a vossa alma e como formais as vossas idéias. 

Diante dessa pergunta, cada filósofo dá um tipo de resposta, dependendo do tipo de escola de filosofia que seguem. A resposta que mais agradou os gigantes foi dada por um seguidor de Locke:

Eu não sei como é que penso – respondeu, – mas sei que nunca pude pensar senão com o auxilio de meus sentidos. Que haja substâncias imateriais e inteligentes, eu não duvido; mas também não nego que Deus possa comunicar pensamento à matéria. Venero o poder eterno, não me cabe limitá-lo; nada afirmo, contento-me em acreditar que há mais coisas possíveis do que se pensa.

O ápice do conto acho que fica no último parágrafo, quando um dos passageiros da embarcação diz em outras palavras que “todo o Universo foi feito para que a humanidade desfrute dele”. Bom, eu não tenho condições e nem conhecimento para explorar essa conversa com os filósofos (que acontece no último capítulo do conto). Por isso me ative tanto às questões de medidas. Eu sou bem pé no chão, com certeza isso tem a ver com minha formação mais técnica. No entanto, o conto fornece uma série de situações que nos fazem pensar fora da caixinha.

Aparentemente, Micromégas e o saturniano (isso não te faz pensar em Dr. Who? ) viajam por aí usando gravidade assistida, ou estilingue gravitacional. Eles não utilizam uma nave ou o que valha. Pelo que entendi, podem viajar pelo espaço sem nenhum problema. O estilingue gravitacional é um processo no qual o objeto entra e sai do campo gravitacional de um planeta ou estrela. O objeto (uma espaçonave, uma sonda ou Micromégas) acelera a medida que se aproxima do planeta e desacelera ao escapar de sua atração gravitacional. Para acelerar, o objeto voa com o movimento do planeta (levando uma pequena quantidade de energia orbital do planeta); para desacelerar, a nave espacial voa contra o movimento do planeta. Uma manobra estilingue pode, portanto, ser usado para alterar a trajetória da nave espacial e velocidade em relação ao sol. As sondas Voyager, por exemplo,  utilizaram-se desse princípio físico para deixar o sistema solar, usando os movimentos dos gigantes gasosos. E no filme Apollo 13, que conta a história real da missão de mesmo nome, essa manobra é utilizada para trazer os astronautas pra casa. E essa parte do filme não é ficção, realmente foi assim que os astronautas conseguiram voltar após a fracassada missão.

Concluindo: Por que ainda não criaram uma sonda espacial chamada Micromégas? rsrs

Outro ponto com relação a escalas de tamanho e distância, que ainda não mencionei, é com relação aos oceanos:

Ei-los pois de volta ao ponto de partida, depois de terem visto esse pântano, quase imperceptível para eles, que se chama o Mediterrâneo, e esse outro pequeno charco que, sob o nome de Grande Oceano, contorna o formigueiro. A água nunca passara além das canelas do anão, ao passo que o outro apenas molhara os calcanhares. Fizeram tudo o que puderam, andando em todas as direções, para descobrir se este globo era habitado ou não. Agacharam-se, deitaram-se, apalparam por toda parte; mas, como os seus olhos e mãos não eram proporcionados aos pequenos seres que por aqui se arrastam, não receberam a mínima sensação que lhes fizesse suspeitar que nós, e os nossos demais confrades habitantes deste globo, tivéssemos a honra de existir.

Bom, perto da costa, a profundidade dos oceanos é de menos de 1000m. Para alguém de 6000m de altura, isso é o equivalente a 30cm de água para uma pessoa de 1,8m. E não chega nem nos joelhos. Mas nas planícies abissais dos oceanos, a profundidade pode ser maior que 4000m. Há pontos que passam dos 10000m no oceano pacífico. Daí nossos gigantes teriam problemas. Como uma criança em uma piscina de adulto.

No conto também é dito que a cabeça dos gigante ultrapassa as nuvens. É verdade. A base das nuvens baixas em geral fica em torno de 2000m de altura. A tropopausa tem cerca de uns 18000m de altura nos trópicos e talvez uns 15000m nos subtrópicos. Lembrando que a concentração de oxigênio diminui com a altura. Mas isso não é problema para quem viaja pelo espaço sem nenhum tipo de nave ou roupa de proteção (deduzo)…rs.

Seriam eles como o Q?

P.S.: Fiz várias contas para fazer esse post. Se você encontrar algum erro nas contas, deixe nos comentários. Eu verifiquei, mas como envolvem muitos zeros e escalas diferentes, erros acontecem =).

P.P.S: Esse post demorou uns 300 mil anos para ser concluído. Sério mesmo.