Cherry 2000: eis um filme que gostei e não gostei



Eu tenho mixed feelings por uma infinidade de livros, séries e filmes. Como mencionei Cherry 2000 em um post sobre consentimento no Discurso Retórico, pensei: que tal escrever um post sobre essa maravilha da ficção científica dos anos 80?

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Cherry 2000 é um filme de 1987 e foi lançado no Brasil como Boneca Mecânica. Eu sei, agora você deve estar rindo descontroladamente (bom, eu ri rs). Quando vi esse filme, por volta dos anos 2000, minha família assinava TV a cabo. Tempos péssimos sem Netflix, eram aqueles. E eu estava meio sem o que fazer e queria ver um filme. Peguei a revista da programação, quando vi essa pérola de nome. Depois de rir descontroladamente, li a sinopse e resolvi dar uma chance. Como não lembro da sinopse que li na época, copiei essa da Wikipedia (deve ter sido algo parecido):

No futuro, os homens podem ter esposas robôs que são programadas de acordo com os desejos do dono. Quando ocorre um defeito com a esposa robô de Sam Treadwell, ele precisa contratar os serviços de uma guia para atravessar uma região perigosa em busca de uma nova esposa, em uma fábrica desativada, que é controlada por um grupo de criminosos.

A guia em questão é ‘E’, ou Edith Johnson, interpretada por Melanie Griffith. O final é extremamente previsível, mas quero falar do enredo. Uma mulher que é programada de acordo com os desejos masculinos. Ora, não é o que acontece desde muito tempo atrás? Em diversos momentos da história, as mulheres lutaram para serem livres. Atualmente, vivemos o que as feministas teóricas chamam de terceira onda do feminismo. E as feministas se organizam e protestam o tempo todo por diversas razões, todas convergentes: para que sejamos livres. Para que possamos ser quem a gente queira. E muitos homens manifestam-se contra, criando grupos machistas e até misóginos pela internet. Muitas mulheres que trabalham com homens ainda sofrem assédio ou ouvem absurdos, como piadas horríveis envolvendo agressão contra a mulher ou estupro. E não são apenas os homens que perpetuam essas coisas: outras mulheres, não educadas com relação ao feminismo, também oprimem ou fazem piadas machistas.

Mas vamos voltar a pérola cinematográfica. Não seria o sonho de muitos homens heterossexuais poderem programar uma mulher para que elas agissem da forma que eles quisessem e atendessem todos os seus desejos. Vamos ser sinceras: muitas mulheres pensam o mesmo. Esse filme talvez seja um reflexo do egoísmo da nossa sociedade. As pessoas querem que tudo, incluindo outras pessoas, atendam suas necessidades. Parece ser tão difícil dialogar e chegar em um consenso! O mundo não está pronto pra gente.

Logo no começo do filme, a boneca do cara dá problema. Ela estava lavando a louça (acho que a louça estava em uma máquina, não lembro bem, vi o filme há mais de 10 anos rs) e o cara chegou. Eles começam a se agarrar, a boneca diz que o ama e etc. Só que a água com sabão transbordou e entrou nos circuitos dela. Daí ela ‘morre’. Irônico ela estar lavando a louça. Em diversas discussões pela internet, quando o machinho não tem mais o que argumentar, começa a atacar. Muita gente faz isso em debates. Um dos ataques consiste em perguntar sobre a louça.  Pois então, Cherry estava lá lavando a louça e preparando o jantar e olha o que aconteceu…

Esse filme também me faz pensar naquelas Real Dolls, bonecas eróticas que podem ser muito realísticas. Outro dia vi a propaganda de uma feira erótica e falavam sobre essas bonecas. Diziam que era possível levá-las ao motel sem quem ninguém notasse que tratava-se de uma boneca. Pois bem, para isso o cara teria que fazer uma identidade falsa para a boneca, mas parece que esse seria o menor dos problemas.

Essas Real Dolls me incomodam muito. Elas são o sonho de muitos homens: transformar mulheres em meros objetos. Não querem nos escutar, conversar ou estreitar laços de amizade. Querem apenas o sexo. A boneca é literalmente a materialização disso, além de serem a materialização do sonho da “mulher sempre jovem a disposição”. Ah, a supervalorização da juventude. É como se mulheres de meia idade não pudessem ter desejo ou se relacionar sexualmente. Observem os relacionamentos com homens mais novos de algumas mulheres famosas (como Susana Vieira) sempre são mais julgados do que os relacionamentos que muitos homens mais velhos tem com moças bem mais novas. A fórmula homem mais velho + mulher mais nova é tolerada e até incentivada (sendo mais velho, pode dar uma vida mais confortável, pois a definição é que o homem é o provedor).

Já a fórmula mulher mais velha + homem mais novo é menos tolerada. É comum chamarem a mulher de “assanhada” (como se isso fosse ruim rs) ou dizerem que ela “não tem vergonha na cara”. Ou dizerem que ela é trouxa, que o cara está se aproveitando (e ela não está aproveitando também rs?).

Sam Treadwell ama a boneca. É um filme de sci fi, um futuro distópico. Não é como hoje que a maioria dos consumidores de Real Dolls apenas veem nelas um objeto. O filme deixa claro que há alguma afeição, que provavelmente foi construída em cima do fato de a mulher ser bem comportada e responder todas as expectativas de seu marido/dono. O que me faz pensar: será que a gente deve gostar apenas daquilo que é previsível, apenas daquilo que responde como gostaríamos em 100% do tempo? Na minha opinião, não. Mas infelizmente pensamos assim na maioria das vezes.

Eu não lembro desse detalhe do filme, mas lembro que na ocasião pensei muito sobre isso: por que ele não arruma uma mulher real? Daí por alguma razão cheguei a seguinte conclusão: porque as mulheres reais já não querem mais nada com esses homens. Talvez todos os homens tenham se convertido em homenzinhos de merda nesse futuro distópico.

No resumo em inglês, há mais detalhes sobre o filme. Como a Terra está muito sem recursos, ele pretende consertar Cherry ao invés de simplesmente comprar outra boneca (acho que nem tem mais disponível). E rola um negócio de chip de personalidade da boneca, que ele pretende colocar em outra igualzinha, compatível com o tal chip. Para chegar até o local onde há mais bonecas, ele precisa atravessar um deserto. Só que o lugar é tomado por criminosos (que enredo maravilhoso, hahahaha). E então que entra na história a personagem da Melanie Griffith, uma mulher badass, uma guia, capaz de levá-lo até um antigo depósito onde há várias Cherry 2000.

Lembram do tempo em que colocar “2000” na frente de qualquer coisa garantia uma conexão com o futuro, um toque de modernidade? Eu tinha um tênis chamado M2000, para vocês terem uma idéia. E quem é do meu tempo lembra-se desse tênis. rs

Outro filme com androide feminino (tambem chamado ginoide) da mesma época é Mulher Nota 1000 (Weird Science). O filme é de 1985 e conta com a estonteante Kelly LeBrock, que na época era um símbolo sexual. Em Mulher Nota 1000 uma criação computacional de dois garotos ganha vida depois de uma tempestade. Ela não foi “criada” como ginoide, ela estava dentro do computador e saiu de lá de dentro como mulher perfeita. Nos anos 80, havia essa obsessão sobre entrar/sair de computadores, só pensar em Tron, grande sucesso da época (o filme é de 1982). Tanto que o Tron (2010), continuação do filme da década de 80, já não fez tanto sucesso, apesar das adaptações que foram feitas para atender a realidade atual.

Observem os androides são criados para serem mais fortes ou mais inteligentes e não necessariamente são mais bonitos, bom há raras exceções como o  Gigolo Joe, em A.I. – Inteligência Artificial (2001). Mas apelaram escolhendo Jude Law [suspiros]. Já as ginoides de diversos filmes, séries e livros são criadas com intenção de seduzir. E mesmo quando a intenção não é seduzir, há uma preocupação excessiva com a sua aparência.  Há um episodio de Star Trek – Nova Geração em que o Data demonstra o desejo de continuar sua espécie e ‘cria’ uma filha androide. A garota, Lal, que aparece no episódio The Offspring é mais ‘bonita’ que Data: não possui uma pele amarelo-pálida-dourada, que em nada lembra a pele de um ser humano. Lal possui a pele branca, de uma humana caucasiana.

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Concluindo, é tão naturalmente aceito que nós mulheres precisamos ‘agradar’ os homens que até as ginoides, mulheres-robô da ficção, são criadas com esse propósito, diretamente como em Cherry 200o ou Mulher Nota 1000 ou até mesmo indiretamente. Cherry 2000 é tão descaradamente machista em tantos pontos que vale a pena assistir para dar muitas risadas e para encontrar semelhanças com a vida real.

Ah sim, eu recomendo muito esse post da Sybylla que fala as diferenças entre robô, ciborgue e androide. Além disso, ela separa os adoráveis sintéticos, aquelas imitações humanas que amamos amar ou odiar =).

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Achei a tal cena da ‘morte’ da Cherry no Youtube. A palavra bizarro não pode descrever a cena, veja com seus olhos e encontre uma definição: