Dúvida do leitor: Lisboa x Nova York



A Eliana Macedo me mandou um e-mail com uma dúvida bem interessante:

Lisboa tem as mesmas temperaturas que Nova York? Porque tem tanto vento em Lisboa?

Esse negócio de comparar Lisboa e Nova York é um negócio que faço muito com os alunos que atendo, que faço muito nas conversas de bar (sempre falo de ciência nas conversas do buteco, é conciliador, nunca fale em religião, política ou futebol rs) e que faço muito nos textos que escrevo. Acho que ouvi um professor falar isso durante a graduação e agora fico repetindo como louca. Mas o motivo é muito simples: as duas cidades estão quase que  na mesma latitude e são ambas cidades litorâneas.

Ano passado escrevi esse post, por exemplo, onde uso o exemplo das duas cidades. No post em questão, apresentei a seguinte figura:

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Figura 1: Mapa mundi que indica as correntes marítimas e os climas. Fonte: GROASIS

Usei o mapa para destacar principalmente a Corrente do Golfo,  uma corrente quente que leva águas mais quentes do Golfo do México para a costa da Península Ibérica  e para a costa atlântica da Europa. E também destaquei o clima de Nova York e o clima de Lisboa. Nova York possui o clima indicado como “Marine” (marinho), enquanto Lisboa é o que chamam de “Clima Mediterrâneo”. Eu pessoalmente não conheço muito essas classificações. Não sei qual o sistema de classificação de climas é usado no mapa acima. Acreditem, nós da Meteorologia vemos isso bem pouco. Os colegas da geografia tem mais contato com esse tipo de classificação. Resgatando aqui na minha memória de uns 10 anos, sei que prendemos o Sistema de Köppen (ou Köppen-Geiger) no curso.

Estas classificações não são vistas tão aprofundadamente no curso de Meteorologia  porque nosso curso é mais quantitativo que o curso de Geografia (de um modo geral, claro que cada disciplina de sua particularidade): aprendemos a calcular, observar, prever, etc.

E falando na mencionada classificação de Köppen-Geiger, temos abaixo um mapa feito pela Universidade de Melbourne:

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Figura 2: Climas mundiais de acordo com a classificação Köppen-Geiger. Fonte: Universidade de Melbourne e Wikimedia Commons

Obtive o mapa nesse verbete da Wikipedia, sobre o sistema de classificação climática mencionado.  Esse mapa está mais claro que o outro mencionado anteriormente, talvez porque esteja com uma resolução melhor e possua apenas as informações relacionadas ao tipo de clima.

Pelo sistema Köppen-Geiger, a cidade de Nova York é Dfa e a cidade de Lisboa é Csa. O que essas siglas significam?

A sigla Dfa é um dos Climas Continentais Úmidos (Dfa, Dfb, Dfc e Dfd fazem parte desse grupo de Continental Úmido).  E Csa é referente a Climas Mediterrâneos (Csa e Csb são climas mediterrâneos, mesmo que não tratem-se de cidades localizadas em torno do Mar Mediterrâneo, mas possuem climas que se assemelham ao encontrado nesse local).

Como disse anteriormente, não tenho familiaridade com esse tipo de classificação. Para falar um pouco mais sobre as temperaturas, vou construir gráficos de temperatura e precipitação para cada uma das cidades e assim poderemos discuti-los.

Primeiro vamos comparar os dados de chuva.  Separei as médias de precipitação mensal das duas cidades.

Figura 3:
Figura 3: Médias mensais de precipitação para a cidade de Nova York. Fonte: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).
Figura 4:
Figura 4: Médias mensais de precipitação para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

Para os dados de Nova York,  a fonte é: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).

E para os dados de Lisboa, as fontes são: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

Observando o gráfico de chuva de Nova York (Figura 3), nota-se que não há uma estação chuvosa definida. Chove um pouco menos no mês de fevereiro, final do inverno, mas nada significativo se a gente comparar com os outros meses do ano.

No entanto, se notarmos o gráfico de chuva de Lisboa (Figura 4), é possível notar uma estação seca/chuvosa definida. A estação seca ocorre durante os meses de verão. O clima de Lisboa é aquele que os turistas mais gostam: verão sem chuvas, ideal para atividades ao ar livre e ir à praia.

Observe que os dois gráficos estão com a mesma escala. Isso é importante quando a gente pretende comparar dois gráficos. Ah sim, o período das médias e a metodologia de cálculo é diferente para cada um dos casos. O ideal seria que nos dois casos fossem médias do mesmo período (por exemplo, de 1960-1990), com dados de pelo menos 30 anos (já que estamos falando em médias climatológicas). Mas tudo bem, para a comparação meramente expositiva que quero fazer no post está bom :). Para um trabalho científico rigoroso (uma publicação, por exemplo), eu teria que tomar muito cuidado com essas questões.

No WeatherSpark encontrei dois mapas bem interessantes, falando da distribuição média do tipo de precipitação:

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Figura 5 : Distribuição do tipo de precipitação para Nova York. Fonte: WeatherSpark, usando dados do Aeroporto JFK
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Figura 6: Distribuição do tipo de precipitação para Lisboa. Fonte: WeatherSpark

Percebam que nenhum tipo de precipitação relacionada a neve aparece na Figura 6, que é referente a Lisboa. Em Nova York, 17% das precipitações envolvem neve (pouca ou muita neve), conforme vemos na Figura 5.

Agora vamos observar os dados de temperatura.

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Figura 7: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Nova York. Fonte: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).
Figura 5: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.
Figura 8: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

 

Observe que nas Figuras 7 e 8 apresento 4 linhas em cada um dos gráficos:

– Temperatura Máxima Registrada: recordes absolutos de temperatura máxima em um determinado intervalo de tempo (no caso da NOAA, é no período de 1981-2010).

– Temperatura Máxima Média: média de todas as temperaturas máximas diárias em um período

– Temperatura Mínima Registrada: recordes absolutos de temperatura mínima  em um determinado intervalo de tempo (no caso da NOAA, é no período de 1981-2010).

– Temperatura Mínima Média: média de todas as temperaturas mínimas diárias em um período

Essa quantidade de informações, que pode parecer grande inicialmente, mostra até onde os extremos de temperatura já chegaram (Temperatura Máxima Registrada e Temperatura Mínima Registrada) e até onde costumam chegar (Temperatura Máxima Média e Temperatura Mínima Média).

As fontes dessas informações são dos mesmos locais das de precipitação. Os dados de temperatura das duas cidades são muito interessantes de se comparar. Observe que para facilitar, os dois gráficos estão na mesma escala.

Uma coisa que é fato: quando as temperaturas médias (ou média máxima, média mínima,  máxima ou mínima) mensais  formarem um “sino”, mais bem marcada são as estações do ano em termos de temperatura (a velha divisão primavera, verão, outono, inverno). Observe que as linhas dos gráficos para Nova York (Figura 7)  formam um sino mais bonitinho.

E observe também os extremos mínimos  de Nova York e Lisboa. Reparou que em Nova York (Figura 7) é mais frio que Lisboa (Figura 8)? Em NY, é mais comum o registro de temperaturas abaixo de zero durante o inverno. E a ocorrência de nevascas também é muito mais comum. Na verdade, neve é um acontecimento bem raro em Lisboa. Já perguntei sobre isso para vários portugueses e também vi aqui.

Com relação as temperaturas máximas durante o verão, fica muito claro que as duas cidades são bem quentes, com máximas que chegam na casa dos 40°C.

O que quero mostrar é que a variação anual de temperatura em Lisboa é menor do que em Nova York, e em Lisboa também faz menos frio no inverno. Por isso é popular dizer que o clima em Lisboa é mais ameno.

As duas cidades estão aproximadamente no nível do mar, estão relativamente próximas do oceano e estão na mesma latitude. O que explica essa variação toda? É a Corrente do Golfo. Ela leva calor da região tropical em direção ao litoral português. Se a gente pegar um gráfico de temperatura média da superfície do mar:

Figura 7: Temperatura média da superfície do mar, considerando o ano todo. Fonte: GISS-NASA
Figura 9: Temperatura média da superfície do mar, considerando o ano todo. Fonte: GISS-NASA

A Figura 7 foi obtida no site do GISS-Nasa (veja aqui). No link há diversas informações sobre as características dos oceanos. Veja que a Figura 9 mostra uma média anual. Se considerássemos médias mensais de temperatura da superfície do mar, teríamos variações sazonais normais.

Vamos ver que em média a temperatura da costa portuguesa é maior, em média, que a temperatura da costa nova-iorquina (Figura 9 ). O oceano é um importante motor do clima: ele redistribui o calor ao longo do globo e influencia os climas em cada uma das regiões. O caso das duas cidades que discutimos nesse post, ilustra isso muito bem.

Com relação aos ventos que a Eliana observou, bom, já digo que registrar o vento é a maior complicação. O vento em si já e uma variável complicada, é um vetor, e as operações de soma, média, etc  são bem diferentes.

O vento sofre influências locais muito fortes. Nova York tem muitos prédios, prédios muito altos, o que altera a percepção que temos do vento. Os prédios podem funcionar como “canalizadores” de vento ou como barreiras.

Os anemômetros normalmente são instalados em pontos elevados. Como exemplo, o anemômetro da Estação Meteorológica do IAG-USP está instalado a 10m de altura. Se quisermos saber o vento próximo a superfície, digamos, 2m de altura, há equações que fazem essa aproximação, já que a intensidade do vento é reduzida logaritmicamente da altura de 10m até 2m (na equação, é levado em conta também a rugosidade do solo).

O vento a 2m de altura é mais próximo daquilo que uma pessoa sente. Ok, eu não tenho nem 1,60m de altura, mas vamos dizer 2m rs.

Fui pesquisar essa questão do vento. Antes da gente falar da questão local, separei um mapa que mostra a direção e a intensidade média anual do vento em todo o globo:

Figura 8 : vento médio global para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA
Figura 10 : vento médio global em em 1000hPa para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA
Figura 9:
Figura 11: vento médio global em 1000hPa  para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA

 

Sobre os gráficos de vento: tratam-se das Reanálises do NCEP. O site pode ser um pouco complicado de navegar, sobretudo para quem tem pressa e precisa de uma informação rápida. Para quem tem interesse em ver mais mapas de médias globais ou regionais, recomendo o site Climate-Charts.

As Figuras 10 e 11 mostram apenas o vento global, em dois meses do ano (Janeiro e Julho, pois são bem distintos, estações do ano totalmente opostas). Como disse anteriormente, o vento tem muita influência local: construções, vegetação, topografia, orientação da costa, etc. O que gosto de mostrar no vento global (e por essa razão postei aqui) é que há alguma correspondência com as correntes marítimas (veja a Figura 1).

Outra questão a se levar em consideração é a época do ano. Fui pesquisar e descobri que em NY os ventos são mais intensos no início da primavera (Figura 12), enquanto em Lisboa os ventos são mais intensos no verão (Figura 13). E se a gente levar em consideração o valor máximo, o vento é mais intenso em NY!

Figura 12:
Figura 12: Velocidade média do vento em mph (milhas por hora) para a cidade de Nova York. 1mph = 1,61 km/h (aproximadamente). Fonte: WeatherSpark
Figura 13:
Figura 13: Velocidade média do vento em mph (milhas por hora) para a cidade de Lisboa. 1mph = 1,61 km/h (aproximadamente). Fonte: WeatherSpark

Bom, os dados foram obtidos do WeatherSpark. Como eu disse, vento é uma grandeza que sofre a influência local. Estou supondo que os anemômetros responsáveis pelas médias das Figuras 12 e 13 estavam bem instalados, distantes de grandes obstáculos (árvores ou prédios). Sendo assim, se uma pessoa visitou Nova York e Lisboa em julho, ela terá notado que venta mais em Lisboa, mas essa observação não é totalmente correta, já que a intensidade do vento depende da época do ano.

Eu aproveitei a dúvida da Eliana para fazer um post mais completo. Espero que vocês tenham gostado. Eu tenho recebido muitas perguntas pelo formulário. E se algum leitor tiver alguma, pode mandar =). Vou tentar responder ou procurar saber se alguém pode me ajudar.