Dúvida do Leitor: São Paulo era para ser um deserto?



O leitor Ralph sempre manda umas perguntas muito pertinentes, que me inspiram a escrever posts bem interessantes (leia outras aqui e aqui).

Recentemente ele fez outra pergunta muito boa.

É verdade que todo lugar por onde passa o trópico de capricórnio tende a ser  deserto (deserto da Namíbia, deserto da Austrália) e que SP só não o é por causa da umidade que vem da floresta amazônia canalizada para o sul pelos Andes?

Sim, é verdade!

Mas não vamos acabar o post por aqui. Primeiro vou mostrar um mapa que ilustra o que o Ralph disse na pergunta:

Desertos do mundo. Reparem como há desertos nas regiões próximas do Trópico de Capricórnio e do Trópico de Câncer. Fonte: GROASIS.com
Desertos do mundo. Reparem como há desertos nas regiões próximas do Trópico de Capricórnio e do Trópico de Câncer. Fonte: GROASIS.com

Observando a figura acima, notamos que ao longo do Trópico de Capricórnio temos o Deserto do Atacama, o Deserto de Kalahari e o Deserto Australia. E se rebatermos a observação para Norte, olhando o Trópico de Câncer, notamos o Deserto Norte-Americano (super cenário do livro Desperation), o majestoso Deserto do Sahara e o Deserto da Península Arábica.

E por que isso acontece bem onde passam os trópicos? Isso tem a ver com a circulação global da atmosfera. Nesse post, em que falamos do significado do termo deserto, nós falamos sobre essa característica. Vou copiar um trecho:

As regiões próximas a linha do Equador, apesar de receberam mais radiação solar, não possuem desertos porque temos um forte movimento de convecção. Isso significa que o Sol aquece a superfície da Terra nesses locais  e consequentemente aquece o ar acima dela,  que sobe e forma nuvens (através da condensação do vapor d’água). Na faixa equatorial de nosso planeta é onde encontramos os maiores acumulados de precipitação.

Nos níveis mais altos da atmosfera, o ar que subiu formando as nuvens nas proximidades da linha do Equador movimenta-se em direção aos trópicos e desce nos subtrópicos, próximo dos trópicos de Capricórnio e Câncer. Esse ar então esfria-se na superfície, movimenta-se em direção ao Equador novamente. Isso fecha a Célula de Hadley (ou circulação de Hadley).

Esse ar que desce nos subtrópicos já é bem seco, porque perdeu toda a umidade lá no Equador (com a chuva que caiu).  No seu movimento de descida (movimento descendente), esse ar se aquece um pouco e fica ainda mais seco. O movimento descendente dificulta a formação de nuvens. Os chamados desertos quentes forma-se nessa região de ar descendente, que consistem nas proximidades dos Trópicos de Câncer (Hemisfério Norte) e Trópico de Capricórnio (Hemisfério Sul).

A célula de Hadley é o nome dado a um dos padrões de circulação global (em vermelho, na ilustração). O ar sobe na região do Equador terrestre, provocando convecção (Zona de Convergência Intertropical). Em níveis mais altos da troposfera, o ar desloca-se para os trópicos (próximo as linhas dos trópicos de Câncer e Capricórnio, ou seja, nos dois hemisférios). O ar desce sobre essas regiões e volta, em superfície, para o Equador. Fonte: The COMET Program
A célula de Hadley é o nome dado a um dos padrões de circulação global (em vermelho, na ilustração). O ar sobe na região do Equador terrestre, provocando convecção (Zona de Convergência Intertropical). Em níveis mais altos da troposfera, o ar desloca-se para os trópicos (próximo as linhas dos trópicos de Câncer e Capricórnio, ou seja, nos dois hemisférios). O ar desce sobre essas regiões e volta, em superfície, para o Equador. Fonte: The COMET Program

Uma grande quantidade de umidade vem da Região Amazônica e é canalizada pelos Andes chegando até o Paraguai, norte da Argentina, Região Sul, oeste da Região Sudeste e sul Região Centro-Oeste. Esse fenômeno chama-se Jato de Baixos Níveis (JBN) e é uma caracerística da circulação em diversas regiões do planeta, onde há uma grande fonte de umidade e a presença de cadeias de montanhas que canalizam o vento. Em 2004, eu ainda estava na graduação, e estudei o JBN em um trabalho de Iniciação Científica (IC). Veja a publicação aqui. Confesso para vocês que me arrependo muito de não ter continuado esse trabalho no mestrado.

Em meu trabalho de IC (muito preliminar, claro), concluí que:

A precipitação mostrou-se mais intensa e concentrada (quanto há JBN) corrente abaixo do JBN. Deste modo, o JBN parece favorecer a precipitação no norte da Argentina, Rio Grande do Sul e Uruguai, e desfavorecer esta no centro-oest e e sudeste do Brasil.

Claro que atualmente sabe-se mais sobre este fenômeno, já que novos artigos foram publicados. Inclusive o termo popularizado foi “Rios Voadores“. Houve até uma exposição no SESC sobre esses tais rios voadores.

O principal rio voador do Brasil nasce no oceano Atlântico, bomba de volume ao incorporar a evaporação da floresta Amazônica, bate nos Andes e escapa rumo ao sul do país. “O vapor d’água que faz esse trajeto é importantíssimo para as chuvas de quase todo o Brasil”, afirma o engenheiro agrônomo Enéas Salati, da Universidade de São Paulo (USP). Leia mais aqui.

Acredito que a umidade trazida pelo JBN é mais importante para o oeste da Região Sul, oeste e sul do Estado de São Paulo e no sul da Região Centro-Oeste. Na faixa mais a leste das Regiões Sudeste e Sul, a umidade vinda do oceano tem papel mais dominante, de modo que o próprio formato da América do Sul (que se afunila quando se dirige ao sul), favorece que a região seja abastecida por umidade (falei desse aspecto nesse post).

Sendo assim, são variados os aspectos que fazem com que São Paulo não seja uma região desértica. Acho que os principais foram abordados nesse post. Se alguém tiver alguma observação ou alguma dúvida, basta entrar em contato :).