Poeira do Saara atravessa o Atlântico



Sempre que surge uma imagem de satélite em que é possível observar a poeira do Deserto do Saara atravessando o Atlântico ou chegando até o sul da Europa (dependendo da direção do vento), a imagem vira destaque na imprensa.

Aqui no Meteorópole mesmo já destaquei uma viagem dessa poeira até a América do Sul (veja aqui), ou viajando até o sul da Europa (veja aqui) ou sendo responsável pelo fenômeno Chuva de Sangue, no Reino Unido (veja aqui).

No final do mês passado, a EUMETSAT divulgou o vídeo abaixo em seu canal:

EUMETSAT (European Organisation for the Exploitation of Meteorological Satellites ) é uma organização científica com vários países europeus participantes. Eles são os responsáveis pelo lançamento dos satélites Meteosat. E o vídeo acima foi feito a partir de imagens obtidas pelo Meteosat-10, um desses satélites. Essas imagens são do período entre 22 e 25 de Junho de 2014.

É possível ver a jornada da poeira do deserto. Acompanhando os ventos, minúsculas partículas de poeira chegam até a América. São importantes núcleos de condensação,  ou seja, superfícies nas quais o vapor d’água presente na atmosfera vai se condensar para formar as gotículas das nuvens.

Assim, a poeirinha que veio lá do Saara pode ser uma das responsáveis por aquela tempestade da tarde, típica de cidades da Região Norte, como Belém e Manaus.

Estima-se que 40 milhões de toneladas de areia do Deserto do Saara chegue até a Bacia Amazônica todos os anos. Isso mesmo! Quarenta milhões de toneladas. Confesso para vocês que enquanto escrevia esse post, reli a matéria várias vezes para ter certeza que eu tinha entendido corretamente.

Assim, além da disponibilidade de vapor d’água, decorrente da evapotranspiração da floresta e também devido ao fato de a floresta estar em uma zona tropical (onde há naturalmente mais calor e mais evaporação), também temos a presença de eficientes núcleos de condensação. A água precisa se condensar em uma superfície e encontra na poeira do deserto condições ideais para isso.

Aparentemente, a quantidade de poeira que vem do deserto do Saara tem aumentado nos últimos anos.  Cientistas tem investigado se a poeira do deserto causa algum dano para a vida animal e vegetal. Alguns estudos indicaram possíveis relações entre poeira do deserto e o clareamento dos corais no Caribe e entre o aumento na quantidade de certos tipos de algas (veja as referências e leia mais aqui).

Além disso, a ‘nuvem de poeira ‘ passa sobre  a região onde os furacões ‘nascem’, que é bem no litoral noroeste da África. A poeira pode refletir a luz solar, reduzindo a temperatura do oceano no local, o que faria com que menos furacões nascessem. Por outro lado, uma maior quantidade de poeira faria com que existisse mais núcleos de condensação sobre a região, favorecendo a formação de nuvens e assim favorecendo o nascimento dos furacões. Sendo assim, o efeito dessa poeira na formação de furacões ainda é incerto.

Uma das paisagens do Deserto do Saara. Foto de Luca Galuzzi - www.galuzzi.it
Uma das paisagens do Deserto do Saara. Foto de Luca Galuzzi – www.galuzzi.it