Resenha de ‘Da Terra à Lua’, Jules Verne

Aqui no blog apresento para vocês algumas das minhas “divindades” rs. São os nomes que se repetem no blog, a todo momento. Jules Verne é um desses nomes. Adoro Jules Verne porque ele foi um dos pioneiros da ficção científica. Além disso, ele usava a ficção científica para divulgar ciência. Divulgava meteorologia, astronomia, geologia, geografia, balística, etc. Ele era um grande divulgador do estado-da-arte da ciência na época. Além disso, muitos de seus personagens entravam debates científicos. Ou seja, as obras ajudam o leitor a ter espírito crítico.

Quando as obras de Verne foram escrita, em muitos países elas foram tidas como “livro para crianças/adolescentes”. Eu diria que ainda são ótimos livros para adolescentes, ajudam a despertar o gosto pela leitura e pela ciência. Principalmente porque mostram também a realidade de uma outra época. Uma época em que as grandes guerras mundiais ainda não tinham acontecido e o ser humano se maravilhava pelas conquistas tecnológica da Revolução Industrial.

Já escrevi a resenha de “Volta ao Mundo em 80  dias” (leia aqui) e agora vou falar brevemente sobre “Da Terra à Lua” (De la Terre à la Lune).

Da Terra à Lua se passa nos Estados Unidos. Um grupo de “heróis de guerra” e “cientistas da guerra”  de Baltimore forma o Gun Club, um clube com muitos associados espalhados pelos Estados Unidos. Esse clube começou logo após a Guerra da Secessão. Como não há mais guerra, esses senhores não tem muito mais o que fazer e sentem-se desmotivados. Muitos dos participantes do grupo tem sérias cicatrizes e amputações, causados pela guerra. O armistício era o que os motivava. Agora em tempos de paz, não há o que fazer. Desenvolveram os melhores canhões do mundo durante a guerra, que hoje são meros objetos de decoração.

Eis que o presidente do clube, Barbicane, tem uma ideia para motivar os participantes: montar um canhão (o maior já feito) para lançar um projétil para a Lua. Depois de um acalorado discurso, astrônomos são consultados para determinar a melhor época do ano para se fazer isso. Resumidamente,a  Lua precisa estar na fase cheia e precisa estar no zênite. E Verne é bem descritivo. Há na obra uma carta de um astrônomo, que explica a melhor época do ano para fazê-lo e o melhor local. Isso precisa ser feito em latitudes baixas (perto do Equador). E acabam escolhendo a Flórida (depois de um enorme embate com o Texas). E a coincidência é que o Kennedy Space Center fica mais ou menos nas mesmas latitudes descritas por Verne.

Na linha do Equador, a velocidade de rotação da Terra é maior do que qualquer outra região do planeta. Assim, os foguetes ganham um impulso extra durante o lançamento e isso gera uma economia de combustível. O local mais “perto” da linha do Equador e que reúne melhores condições para lançamento nos EUA é a Flórida. Aqui no Brasil, temos o Centro de Lançamento de Alcântara, bem próximo da Linha do Equador.

Essa carta detalhada do astrônomo na obra mostra o claro objetivo de Verne: instruir. Ele queria, além de entreter o público com a história, fazer com que esse público conhecesse mais sobre ciência. E ao longo da obra, discussões sobre balística, química e física em geral são muito comuns. Essas discussões aparecem como debates ou reuniões entre os personagens.

Em um curto período de tempo (acho que era um ano, mais ou menos), os operários precisam fabricar um enorme canhão. Como o local da Flórida onde o projeto é implantado recebe um grande número de pessoas, a região acaba se desenvolvendo e uma pequena cidade se forma na proximidade do canhão. O objetivo é lançar um projétil com tamanho suficiente para que seja visto por um telescópio aqui da Terra. Ah sim, paralelamente ao projeto do canhão, um telescópio refletor de grandes dimensões também está sendo construído. E nesse momento o narrador dá uma básica e importante explicação sobre telescópios. O narrador fala das vantagens e desvantagens do telescópio refrator (luneta) e do telescópio refletor (Newtoniano).

O projeto fica ainda mais complexo quando um corajoso francês, Miguel Ardan, surge. Ele atravessa o Atlântico com um firme propósito, que não foi objetado pelos membros do Gun Club: ele quer que o projétil seja adaptado para que ele possa entrar dentro dele e então chegar até a Lua. Ardan logo torna-se bastante popular, como foram populares muitos dos astronautas da época da Corrida Espacial (como Yuri Gagarin). Inclusive acho que Ardan, assim como Passepartout, são “faces” de Verne, que também era francês.

Ilustração de 1872, feita por Henri de Montaut. O livro foi publicado pela primeira vez em 1865. Aqui é possível ver o projétil adaptado, para  que fosse possível entrar dentro dele.

Ilustração de 1872, feita por Henri de Montaut. O livro foi publicado pela primeira vez em 1865. Aqui é possível ver o projétil adaptado, para que fosse possível entrar dentro dele.

Um rival do presidente do Gun Club aparece, falando da loucura da ideia. Todo tipo de objeção é feita: não há atmosfera na Lua, o homem pode morrer no impacto ou mesmo na fricção com nossa atmosfera, etc. Esse rivalidade é antiga: esse homem, Capitão Nicholl, é fabricante de chapas metálicas de navios. Enquanto os membros do Gun Club desenvolviam a melhor artilharia, Nicholl desenvolvia as melhores maneiras de se defender. Sei que é spoiler, mas eventualmente os dois homens acabam juntando as forças.

Bom, não vou contar o final do livro, que basicamente é se a empreitada foi ou não um sucesso. Só digo que vale muito a pena ler esse livro. Sou muito a favor de que quem gosta de ficção científica leia os clássicos do gênero. Como é comum na nossa cultura, muitas referências a obras passadas são feitas em trabalhos mais recentes e é bom ficar por dentro 🙂

E para finalizar, gostaria de abordar cada um dos temas científicos tratados na obra, só que é muita coisa para um post só. Já tenho um rascunho quase pronto e em breve vou publicar :).

Ah, e tem Da Terra à Lua no Projeto Gutemberg. Uma pena que é uma tradução muito antiga, do final do século XIX (Verne já era um sucesso enquanto vivo). Quem frequenta sebos (lojas de livros usados), deve encontrar esse título com muita facilidade. E certamente há diversos pdf’s pela internet :).