Resenha de “Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, de Philip K. Dick.



Antes de muitas das minhas resenhas, conto uma história. E esse é o caso.

Em meados dos anos 90 comecei a ter um contato maior com ficção científica. Lá na minha casa algumas séries já eram queridinhas quando eu era criança: Star Trek (TOS), Elo Perdido, Perdidos no Espaço…etc. Mas nos anos 90 meu gosto por ficção científica ficou ainda mais aprofundado. Eu chegava ao ponto de assistir apenas o USA Channel (tinha o tal do Sábado Sci-fi) no final dos anos 90. Nem existe mais esse canal, acho que foi substituído pelo canal Universal Studios (completamente por fora, já que não tenho TV a cabo).

Bom, no final dos anos 90 comecei a ler alguns livros de fantasia e ficção científica (há muitas situações em que esses gêneros se misturam) na biblioteca da minha escola. Quando comecei a estudar inglês, a escola de idiomas também contava com uma pequena biblioteca. Percebi que eu aprendia inglês mais facilmente se lesse livros de ficção científica (rsrs). E um dos livros que li nessa época foi Do Androids Dream of Eletric Sheep?, de Philip K. Dick (PKD). O livro me foi indicado por um colega mais velho, que me contou que foi o livro que inspirou Blade Runner. Por conta desse colega, assisti Blade Runner e li o livro :). Só que acho que o livro era uma versão reduzida para quem está aprendendo inglês. E só fui saber disso mais de 10 anos depois, quando ganhei uma versão em português do livro. Fui ler o livro novamente e fiquei encantada com a quantidade de detalhes que eu não tinha percebido antes (minha memória é muito boa para coisas que li). Então acho que:

a) O livro que li 10 anos antes era uma adaptação para quem está aprendendo inglês;

b) Depois de 10 anos, adquiri mais repertório e consigo notar detalhes da escrita que não percebia antes.

Acho que a a) pode estar correta. E a b) com certeza está correta.

A versão que ganhei de presente é essa:

37019846

[Adquira aqui na Livraria Cultura – rola uma comissãozinha pra mim ;)]

E o que essa versão tem de bom? No final do livro, há alguns extras bem bacanas, como por exemplo:

– uma carta de PKD, onde ele se mostra bem empolgado com a estréia de Blade Runner;

– A última entrevista de PKD, em que ele fala sobre as dificuldades que enfrentou na carreira de escritor. Fala também de sua indecisão com relação a Blade Runner. Ele tinha achado o primeiro roteiro ruim, achou que iria odiar o filme. Depois leu o segundo roteiro e ficou extramente empolgado.

– Um excelente texto de Ronaldo Bressane, fazendo uma análise muito interessante da obra.

Inclusive há um site, onde alguns desses extras estão disponíveis para leitura. E há também um áudio da entrevista que mencionei acima ;). Então se você já tem o livro e quer ver esses extras, acesse o site.

Sendo assim, se você nunca leu o livro e pretende comprar uma tradução bem feita e com extras bacanas no final, aconselho a edição que menciono. Ela pode ser adquirida na Livraria Cultura.

Agora minha resenha: bom, em primeiro lugar, acho que quase todo mundo da minha geração viu o filme primeiro e depois leu o livro. Raros os casos de que o contrário ocorreu. Hipsters dirão que leram o livro primeiro. Os mais hipsters dirão que o livro é ruim. Enfim, eis minha avaliação sincera: os dois se completam!

BladeRunner-Pôster

A adaptação de Ridley Scott é bastante diferente do livro. Quem lê o livro pensando em encontrar tudo igualzinho, vai se frustrar. Muitos aspectos do livro não foram deixados de lado no filme. Isso é absolutamente usual em qualquer tradução, já que tem coisas que funcionam no texto mas não funcionam nas telas (e vice-versa). No filme, o foco principal é Rick Deckard, o caçador de androides. Sua profissão é colocada em primeiro plano e ele é retratado nas telas como um justiceiro/policial, um simples caçador de recompensas.  Para não ficar confuso, tudo que vou discutir a partir de agora trata-se do livro e não do filme.

No livro, outros aspectos da sociedade em que Rick vive são discutidos. Após uma terrível guerra mundial (Guerra Mundial Terminus) que pelo que entendi aconteceu no final do século XX, de acordo com a cronologia do livro. Após essa guerra, uma nuvem radioativa tomou conta de todo o planeta. A maioria das pessoas migraram para Marte. Os que restaram, ficaram confinados em prédios de centros urbanos abandonados. Muitos dos que restaram foram afetados pela radiação e não podem reproduzir ou migrar. São os “cabeças de galinha”, que foram classificados assim porque a poluição fez com que seu QI ficasse reduzido (é o que dizem…).

Esse negócio da Guerra Mundial Terminus certamente tem relação com a época em que o livro foi escrito. PKD concluiu o livro no final da década de 60. Por muitos anos, durante a Guerra Fria, as pessoas temiam uma guerra mundial, em que as armas nucleares seriam as responsáveis por destruir o planeta inteiro. Seria uma ‘Terceira Guerra Mundial’, de proporções e alcance muito maiores que as outras guerras mundiais. Ela traria o apocalipse. Tanto que Do Android Dream of Eletric Sheep? não é um livro otimista, no sentido de considera um futuro feliz para a humanidade, uma utopia, como por exemplo é a ideia da franquia Star Trek. Romances do gênero de Do Android Dream of Eletric Sheep?  são chamados de distopias. A distopia é muito bem retratada na adaptação para o cinema, com um planeta totalmente decadente.

Sobre os tais ‘cabeça de galinha’: nem todos os que ficaram na Terra são cabeças de galinha. Muitos trabalham para manter a falida infraestrutura do planeta. Rick Deckard é um deles. Deckard é um caçador de recompensas da Polícia de São Francisco. Ele captura androides fujões. Esses androides foram inicialmente desenvolvidos para ajudar os humanos nas novas colônias extra-terrenas. No entanto, alguns tem o ímpeto de fugir para a Terra, onde não são bem vindos.

Deckard aplica um sofisticado teste de perguntas e respostas, que testa a reação do androide. Como a maneira de reagir e o tempo de reação dos androides para algumas perguntas é bem diferente do que se espera para um humano, o teste permite identificá-los. O teste é bem questionável, mas é a ferramenta que Deckard tem para desenvolver seu trabalho.

A história desenrola-se ao longo de um único dia na vída de Rick. Um dia em que são apresentados os anseios consumistas de Rick (ele quer um animal de estimação, um animal grande, um animal verdadeiro) e sua relação com o Mercerismo, um misto de filosofia e religião.

Sobre os animais de estimação: na história, eles representam status.  Como hoje: muita gente tem cães ‘de raça’ porque eles representam “algum status”. É como se:

Cães de raça = animais verdadeiros

Vira-latas = animais falsos.

E o que são os animais falsos ou animais elétricos? São cópias muito fiéis dos animais verdadeiros, orgânicos. O próprio Deckard tinha uma ovelha de estimação, uma ovelha verdadeira. A ovelha morreu e foi substituída por uma ovelha elétrica. Seria melhor se ele tivesse um animal verdadeiro, isso garantiria mais status. Seu vizinho tem uma égua verdadeira, que inclusive está prenha.  Em um mundo em que quase toda a vida foi destruída pela contaminação, qualquer forma de vida é valorizada. Animais grandes (como ovelhas ou éguas) são muito valorizados e são muito caros.

Deckard sonha com um animal de verdade. E daí vem o título do livro: Do Androids Dream of Eletric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?). Bom, se humanos sonham com ovelhas de verdade, logo androides sonhariam com ovelhas elétricas.

Fazendo essa rápida sinopse, em primeiro momento pode parecer uma obra de ficção científica sem muita profundidade. Mas há muitos aspectos do livro que fazem o leitor refletir. Em um momento, Isidore, um “cabeça de galinha” começa a falar do Mercerismo. Ele é um praticante devoto dessa religião, um fanático religioso. Isidore começa a falar da bagulhificação. Que bagulho se reproduz, que os locais abandonados ficam cada vez mais entulhado de coisa. Que o bagulho só não “vence” em um local habitado, porque as pessoas limpam o local, removem o bagulho. Essa reflexão dele faz todo sentido, rsrs. Fiquei pensando naquelas histórias bem tristes de acumuladores.

A Terra, um planeta que foi parcialmente abandonado, está cheia de bagulho. Coisas que as pessoas que migraram deixaram para trás. Alguns androides ‘fora da lei’ saem das colônias onde devem permanecer e vem para a Terra. Como se eles fossem  “bagulhos”. E “bagulho chama bagulho”. Enfim, essa questão tem muitas interpretações. PKD deixou a questão bem aberta, para que o leitor pudesse tirar suas próprias conclusões.

Um dos tabus da sociedade de Deckard é o sexo entre humanos e androides. E isso também é discutido na obra. Além disso, muitos androides tem características humanas (como o talento da cantora Luba Luft), enquanto alguns humanos tem características androides (como um outro caçador de recompensas que cruza o caminho de Deckard, que é bastante frio e cruel). Deckard mostra esse conflito ao longo da trama, essa dúvida. Ele está questionando a definição de vida, questionando se está certo ao matar androides.

Nas 24h da vida de Deckard narradas no livro, ele precisa aposentar alguns androides. Cada um deles tem uma característica particular: um é cruel, a outra é talentosa, a outra está apenas assustada, etc. Isidore, o tal cabeça de galinha, eventualmente envolve-se nessa caçada. Uma curiosidade sobre Isidore: há momentos em que o narrador onisciente entra na mente dele. E então ficamos na dúvida: ele tem o QI baixo porque foi exposto a radiação ou porque foi isolado e é tratado como inferior?

E ainda sobre o Mercerismo: nessa crença, há todos os elementos de muitas religiões que conhecemos. Há a figura messiânica e o martírio. As pessoas comunicam-se com essa divindade a partir de caixas e empatia, gadget que permite sentir tudo aquilo que os outros sentem. Até as dores físicas de Mercer são sentidas.  A obra de PKD é recheada de elementos metafísicos. Outro exemplo: Minority Report. O filme foi baseado em um conto do mesmo escritor, abordando a premonição como arma para a prevenção de crimes.

Uma revelação, dada por um âncora da TV/rádio, faz a sociedade da época questionar o Mercerismo.  E Deckard tem uma experiência mística que faz com que ele questione seu trabalho.

Buster Gente Fina
Buster Gente Fina (ou talvez seja o João Kleber).

Para não correr o risco de revelar demais o enredo, paro por aqui. Recomendo muito este livro de PKD que tornou-se conhecido graças ao sucesso de Blade Runner. É uma das obras básicas para quem quer se aventurar pelo mundo da ficção científica.