Resenha de “Viagem ao Centro da Terra”



Eu li Viagem ao Centro da Terra (Voyage au centre de la Terre) em uma semana ou um pouco mais do que isso. Como aprendi a apreciar  Jules Verne, quero ir falando para meus leitores um pouco de minhas impressões sobre o autor.

Jules Verne, como já disse inúmeras vezes, é um dos pioneiros da ficção científica. Acredito que todo fã do gênero deve pelo menos conhecer um pouquinho das obras desse autor, porque são surpreendentes. Você vai notar que obras mais recentes (livros, filme, séries, etc), fazem alusão a elementos mencionados por Verne.

No Meteorópole resenhei outros dois livros de Verne:

Da Terra à Lua (1)

Volta ao mundo em 80 dias (2)

Já fazendo uma comparação: Da Terra à Lua é bem mais “científico” do que “Viagem ao Centro da Terra”. Bom, em ‘Viagem ao Centro da Terra’, Axel e seu tio e tutor, Prof. Lidenbrock, seguem as instruções de um manuscrito codificado. Esse manuscrito é de autoria de um alquimista islandês que viveu séculos antes. Depois de decodificá-lo, entendem que para chegar ao centro da Terra é necessário viajar até a Islândia e adentrar em uma das fendas próximas a cratera de um vulcão, o Sneffels, que não está em atividade naquele momento.

Uma das coisas que gosto muito em Verne é a detalhada descrição geográfica. Eu tenho alguns leitores amigos que são geógrafos, como o Renan, o Beto e a Sybylla e talvez gostem muito das descrições de Verne. O autor dá uma descrição bastante precisa da geografia física dos locais que descreve em suas obras. Eu li em algum lugar (não sei se está correto), que Verne nunca saiu da França. Isso torna tudo muito interessante. Ele provavelmente era um cara que lia de tudo e ouvia histórias de viajantes.

Ok, mas por que Da Terra à Lua é mais ‘científico’ que Viagem ao Centro da Terra? Ora, porque no século XIX a humanidade já tinha um grande e vasto conhecimento sobre astronomia. Ora, a gente olha para o céu desde que começamos a vagar por aí e o começamos a usar como calendário. A previsão dos movimentos dos principais astros que habitam nosso céu noturno já é conhecida há séculos. Em Da Terra à Lua, quando o astrônomo manda uma carta detalhando a melhor época para lançar um projétil em direção a Lua, tudo o que está descrito é muito acurado cientificamente. Além disso, o conhecimento em balística também já era consolidado no século XIX (apesar de não ser possível mandar um projétil para a Lua). E no mesmo livro, há uma descrição muito precisa sobre a construção do telescópio (mencionei muito isso na minha resenha).

Então cientificamente, Da Terra à Lua convence bem mais que Viagem ao Centro da Terra, porque hoje a gente conhece muito mais sobre a estrutura do interior do nosso planeta do que no século XIX. Assim, considerar a possibilidade de viajar para dentro da Terra é absurdo demais e parece não caber no contexto atual. Por isso, na minha opinião, que o filme O Núcleo não fez tanto sucesso e por isso que filmes que envolvem vida em Marte (digo marcianos e não colonização humana em Marte) não fazem sucesso nenhum, pois já sabemos que não há vida (senciente, pelo menos) por lá, como o caso de Missão Marte. Bom, a não ser que avacalhe para o humor  (como Marte Ataca! rs) ou para a fantasia.

Capa de uma edição em inglês de 1874. Jules Verne escreveu em 1864 e logo já virou sucesso. Verne já fazia sucesso quando era vivo. Fonte: Wikimedia Commons
Capa de uma edição em inglês de 1874. Jules Verne escreveu em 1864 e logo já virou sucesso. Verne já fazia sucesso quando era vivo. Fonte: Wikimedia Commons

Para mim, Viagem ao Centro da Terra é mais fantasia do que ficção científica. E isso é ruim? Mas é claro que não! A narrativa de Verne prende qualquer leitor. Sou grande fã de obras de fantasia. O romance já começa com uma ideia de fantasia: um manuscrito secreto, escondido em um livro antigo. Esse manuscrito está codificado com caracteres rúnicos. O Prof. Lidenbrock (renomado geólogo, bibliófilo e poliglota) e seu sobrinho e tutelado Axel conseguem decodificar o manuscrito e descobrem o caminho para o centro da Terra. O que acho bacana em Verne é a forma que ele descreve as preparações para as viagens. Ele narra a viagem de saída da Alemanha, onde Axel e seu tio vivem. Depois ele narra todo caminho pela Islândia até chegar no vulcão Sneffels, falando sobre as paisagens que viram, os locais onde eles pernoitaram, etc.  Assim que eles adentram na cratera do vulcão, a narrativa dos caminhos que eles percorrem poderá deixar criacionistas bem felizes rs. Certamente vão considerar o livro um tratado científico. rs. Há diversas incongruências geológicas na história, o que pra mim torna um trabalho de fantasia e não ficção científica, como mencionei antes. E acho que Verne sabe disso. Tanto que o livro é narrado em primeira pessoa, narrado por Axel, que é um cara totalmente cético com relação a empreitada. Tão cético que direto ele checa o termômetro sempre (eles levam diversos instrumentos científicos) e não consegue acreditar na temperatura indicada.

Caracteres em rúnico que Axel e Prof. Otto Lidenbrock desvendam. Fonte: Wikimedia Commons.
Caracteres em rúnico que Axel e Prof. Otto Lidenbrock desvendam. Fonte: Wikimedia Commons.

Ao longo da história, você não consegue acreditar em como eles conseguem sobreviver a diversos obstáculos. Fome, falta d’água, tempestades (sim, vocês leram certinho: tempestades), quedas e ferimentos, etc. Bom, pelo menos Axel sobrevive, já que é o narrador :-P. O que quero dizer é que vai faltar credulidade para ler o livro até o final, mas vale muito a pena. Desde que você tenha em mente que trata-se de um livro de fantasia.

Viagem ao Centro da Terra é de 1864. Em seguida, veio Da Terra à Lua, que é de 1865 e Volta ao Mundo em 80 Dias é de 1872. O que noto é o seguinte: o primeiro livre é mais fantasia, o segundo é ficção científica e o terceiro é realista (porque tudo que é narrado em Volta ao Mundo em 80 Dias é possível rs). E em todos os livros, há essa encantadora valorização da descrição do espaço físico. Acredito que Verne é um dos autores que fazem isso da melhor maneira possível, sem serem maçantes e com a preocupação de informar.

Sendo assim, recomendo Viagem ao Centro da Terra.

P.S.: O curioso é que recentemente fizeram uma descoberta muito interessante, sobre uma enorme quantidade de água, equivalente a um oceano, que pode existir no interior da Terra (veja aqui). Quem leu o livro, vai identificar o que quero dizer :).