A exposição dos Maias na Oca, Ibirapuera



No último domingo fui ver a exposição dos Maias na Oca, lá no Parque do Ibirapuera. Vocês não vão ver fotos aqui porque era proibido tirar fotografias na exposição. Logo na entrada, o visitante recebe um guia bem interessante falando de cada um dos 8 “setores” da exposição.

Acordamos bastante cedo em pleno domingo (virou hábito). E isso foi muito bom, porque quando saímos da exposição (por volta das 13h), a fila para entrar era enorme. Marido e eu chegamos lá por volta das 10h da manhã e não havia filas, pudemos entrar sem nenhum problema.

A fila certamente era para controlar a quantidade de pessoas dentro da exposição. O fato de ser gratuita certamente fez com que muita gente que não tem o costume de visitar museus pudesse ter essa oportunidade. Uma coisa bacana da cidade de São Paulo é isso: muitos eventos culturais gratuitos ou com preço popular. Uma pena que infelizmente essas exposições em geral estão localizadas em bairros mais elitizados, distantes da periferia.

A exposição está dividida em 8 “setores”, que nos ajudam a compreender o estilo de vida do povo maia pré-colombiano. Cada um desses setores aborda um aspecto da vida dos Maias. O cotidiano, a vida religiosa e a relação com a morte são abordados em cada um desses setores. Então se você for visitar a exposição (fim de semana que vem termina!) acompanhe a numeração, pois certamente ela vai tornar a exposição mais didática e proveitosa.

Eu achava que os maias pré-colombianos haviam habitado apenas a península de Yucatán. Na verdade, o território maia avançou também mais para dentro do continente, compreendendo partes  de Belize, Guatemala e Honduras, por exemplo. Abaixo, um mapa mostrando os domínios dos Maias.

Mapa que mostra a área da Civilização Maia no período pós-clássico. Fonte: Wikimedia Commons
Mapa que mostra a área da Civilização Maia no período pós-clássico. Fonte: Wikimedia Commons

Estou aqui tentando deixar claro que a exposição trata dos Maias pré-colombianos porque a cultura maia persiste até os dias atuais. Muitos grupos maias ainda vivem nos territórios indicados acima, conservando parte da cultura ancestral. E claro, acabaram absorvendo a cultura européia, principalmente a religião. A exposição tem alguns painéis multimídia mostrando retratos do povo maia atual.

O maior destaque que dou aos Maias é sua relação com a Astronomia e com a Matemática, ciências que relacionam-se. Eles tinham dois calendários: um civil e outro para as festividades. Eles tinham meses de 20 dias e seus calendários lidavam com ciclos de “coincidência”: como o ano civil tinha duração diferente da duração do ano religioso, chegava um período em que as datas coincidiam e um novo ciclo iniciava-se. Sim, foi daí que veio aquela lenda do fim do mundo. Os Maias lidavam com ciclos de destruição e criação. Quem leu Von Daniken vai ficar achando que que eles sabiam do Big Bang porque eram na verdade alienígenas. E quem viu o quarto filme do Indiana Jones vai achar que as cabeças alongadas dos maias são mais um indício rsrs.

Essa conversa de fim de mundo surgiu com um boato de que uma profecia Maia dizia que o mundo seria destruído em 21 de dezembro de 2012. Acontece que segundo o Dr. John Carlson, diretor do Centro de Arqueoastronomia  da NASA não existe tal profecia. Na verdade, segundo o Dr. Carlson, a verdade é mais interessante que a ficção.

Carlson é um cientista da área de radioastronomia e ganhou seu título de doutorado com o estudo de galáxias distantes. Ele se interessou por arqueoastronomia e pela história da civilização Maia lá pelos anos 70, quando viu uma palestra sobre o assunto.

Os Maias foram uma civilização muito rica e viveram na América Central. Construiram várias cidades, templos e pirâmides. No seu auge, por volta do ano 800, a população era de aproximadamente 800 pessoas por km² (como comparação, a densidade demógráfica de São José dos Campos-SP é de 575 pessoas/km²). Ou seja, as cidades maias eram pequenas metrópoles  cheias de vida. Os Maias desenvolveram a astronomia, uma elaborada linguagem escrita e deixaram um legado arqueológico que compreende diversos artefatos.

O desenvolvimento da contagem do tempo e de calendários está diretamente relacionado com o avanço da astronomia. Os maias desenvolveram um calendário complexo, que consistia em um sistemarotativo de base 20, com rotação de dígitos representando um ciclo de 20 dias. Essa repetição de 20 em 20 dias é a chave para o que julgam ser o ‘fim do mundo’.

De acordo com a teologia maia, o mundo foi criado 5125 anos atrás, uma data que usando nosso calendário corresponderia a 11 de agosto  de 3114 a.C. Naquele tempo, o complexo sistema de rotação do calendário maia indicava: 13.0.0.0. 0. Acontece que em 21 de dezembro de 2012, como o calendário tende a se repetir devido sua rotação, teremos a mesma marcação: 13.0.0.0.0.

Na linguagem usada pelos Maias, 13 13 Bak’tuns ou 13 vezes, 144,00 dias ocorreram entre as duas datas acima. Esse número é significativo para a teologia Maia, mas, segundo Carlson, não significa destruição. Nenhuma das inscrições encontradas nas ruínas e templos da civilização Maia faz qualquer alusão ao fim do mundo!

Acima, um trecho do post que escrevi em 19/12/2012, alguns dias antes do “suposto fim do mundo” previsto pelos maias (leia na íntegra aqui).

Fonte: Melhor página do Facebook, a do George Takei
Fonte: Melhor página do Facebook, a do George Takei

Esses calendários eram muito precisos pois precisas eram as observações dos astros. Os Maias levavam observação muito a sério e conheciam os ciclos dos eclipses, o ciclo de Vênus, o ciclo do Sol, da Lua e de outros astros. Vênus em especial aparece bastante na produção artística maia.

Os maias usavam base 20 e usavam o conceito de "zero". Os numerais eram escritos da maneira expressa na figura acima. Fonte: Wikimedia Commons
Os maias usavam base 20 e usavam o conceito de “zero”. Os numerais eram escritos da maneira expressa na figura acima. Fonte: Wikimedia Commons
Torre que fazia observações astronômicas maias, localizada no mesmo complexo onde está o famoso templo de Chichen Itzá. Fonte: Daily Mail
Torre que fazia observações astronômicas maias, localizada no mesmo complexo onde está o famoso templo de Chichen Itzá. Fonte: Daily Mail

Claro que não havia uma separação clara entre ciência e crença, como era comum em praticamente todas civilizações ancestrais. Os astros representavam divindades. O ‘principal’ era Hunab Kú, o criador. Coloco ‘principal’ porque ele tem importância na cosmogonia maia, mas na verdade eles eram politeístas.

Eles acreditavam que os astros, que “sumiam” de noite (Sol) ou “sumiam” de dia (Lua, planetas e estrelas”), estavam na verdade fazendo uma passagem pelo inframundo, ou o ‘mundo além deste’.

A exposição contava com diversos calendários maias. Na verdade, depois entendi que os círculos não são exatamente calendários, mas sim ‘marcos’ indicando uma determinada data.  Nessa determinada data um acontecimento importante aconteceu e por isso esse círculo representava uma comemoração, um marco. Como se fosse uma capa de jornal ou uma entrada de blog.

Eles escreviam usando glifos, representações gráficas de ideias/deuses/etc. As mulheres tinham importante papel social e muitas eram escribas (e ser escriba era uma atividade muito importante).

Estátua de mulher maia que exerce trabalho de escriba. Uma pequena estátua muito parecida com essa está na exposição. Essa eu vi aqui.
Estátua de mulher maia que exerce trabalho de escriba. Uma pequena estátua muito parecida com essa está na exposição. Essa eu vi aqui.

A relação deles com os seus deuses era bem dramática, digamos assim. Como oferenda aos deuses, eles ofereciam a própria vida. Ou ofereciam o próprio sangue. Os homens mutilavam ritualmente o pênis. E o uso de alucinógenos era bem comum em rituais. Alguns alucinógenos, por serem indigestos, eram introduzidos no ânus.

Quando morriam, alguns de seus pertences iam com o morto até a tumba. O cachorro do defunto era sacrificado, para acompanhá-lo pelo inframundo. Em alguns casos, até familiares eram sacrificados e enterrados junto.

Os Maias tinham uma importante relação com os animais. O Popol Vuh, um dos livros sagrados dos maias, narra a criação da natureza e do homem. Na narrativa, os animais foram criados primeiro, depois as plantas e da planta de milho saiu o homem. Sim, o milho é muito importante em diversas civilizações pré-colombianas. Os povos indígenas que habitam o território brasileiro também possuem lendas sobre o milho, colocando nele um aspecto divino, pois é a base alimentar, a principal fonte de energia deles.

As aves por exemplo ‘manifestavam’ um aspecto divino para os Maias, já que elas podiam voar. E eles comparavam o mundo como um jacaré: as protuberâncias das costas do jacaré seriam o relevo e a boca do jacaré seria a passagem para inframundo. Os xamãs da cultura maia podiam transfigurar para animais, segundo acreditava-se.

No final da exposição, havia alguns livros (a maioria em espanhol) para vender. Fiquei interessada no Popol Vuh,mas não comprei. Vi na Amazon para vender, mas não está em minhas ambições de leitura no momento. Vi também as seguintes versões na Livraria Cultura: essa em espanhol e essa outra em espanhol também (só que mais barata). Os vendedores da exposição disseram que há a versão em português também. Encontrei no catálogo da Livraria Cultura, mas está esgotada.

Adorei a exposição. E a fila gigante que vi logo que saí dela mostrou o quanto a cidade é carente de eventos culturais populares. Uma pena. Do lado de dentro, estava tudo muito cheio. E fiquei muito indignada com a falta de educação das pessoas. São Paulo é uma cidade de 11 milhões de habitantes e tem gente que acha que está sozinha na cidade, ignorando completamente os outros. Passam na sua frente quando você está lendo uma legenda ou observando um item, deixam as crianças correrem livremente, falam alto, atendem celular, não respeitam a sinalização da exposição, etc. É vergonhoso. Isso talvez acontece porque ainda não há a cultura de “ir em museus” aqui em nosso país e talvez esse hábito esteja, vagarosamente, ficando comum. Eu sei do que estou falando, sempre fui considerada a esquisita por gostar dessas coisas.

O comportamento das crianças me chocou bastante. Os pais não sabem impor limites e talvez não sejam suficientemente polidos para transmitir alguma coisa para eles. Acho que nossa sociedade está egoísta demais e muito ‘criançocêntrica’ também. A SuperNanny precisa trabalhar muito rs.

Muitos pais que vi durante a exposição não conversam com os pequenos, não ensinam como se comportar em um museu, não mostram as coisas para a criança, para prender a atenção delas e tornar o passeio proveitoso. Como não fazem nada disso, vi várias crianças andando livremente, fazendo pirraça, se jogando no chão, etc. Talvez porque sejam pais sem cultura, que não conheçam a civilização Maia. Mas tudo bem, a exposição serve para instruir também. Eu não sabia também e acabei aprendendo enquanto observava os itens na exposição. Fiquei com a impressão que esses pais que me refiro não convidam os filhos para observarem, aprenderem juntos. Lamentável. Por essas razões as vezes tenho preguiça de fazer um passeio aqui em São Paulo. As pessoas não tem muita consideração, meu marido fica irritado com isso, fico tentando acalmá-lo e isso estraga um pouco o passeio.

Então a Meire compartilhou uma frase bem legal no Instagram:

Be-kind-to-unkind-people.-They-need-it-the-most.

Não era exatamente essa imagem, mas a mensagem é a mesma: Seja gentil com pessoas que não são gentis. Elas são as que mais precisam.

Que esforço diário, não? Mas é o certo.

Bom, só há mais um fim de semana de exposição. Se as filas estavam gigantes no último domingo, fico imaginando como será no próximo.

Esse vídeo bem legal da TV Cultura mostra um pouquinho do que tem na exposição: