Climatologia tradicional x Climatologia Moderna

Quando eu estava no primeiro ano da graduação, no início dos anos 00, muita gente me perguntava se o curso de meteorologia era na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP. Eu sempre explicava que não, que a sede do curso é no prédio do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas  – embora o C.A. não esteja na sigla, esse é o nome completo do instituto). Mas a dúvida é bastante pertinente. No prédio da FFLCH, é onde estão os cursos de Letras, Filosofia, Ciências Sociais, História e Geografia. E as pessoas sempre confundiam Meteorologia e Geografia. Confundiam inclusive as atribuições dos profissionais, que são bem diferentes.

Essa confusão é bem natural: os fundamentos de climatologia, que a gente aprende no Ensino Fundamental e Médio, são ensinados pelos professores de Geografia. Para ser bem justa, muitos fundamentos de Ciências da Terra são ministrados com muito carinho pelos professores de Geografia: temos noções de astronomia, geologia e meteorologia nas aulas de Geografia.

Já mencionei na fanpage que lembro sempre com muito carinho de meus professores de geografia, em especial da Prof. Palmira. Ela me deu aulas na quinta e na sexta série. Eu fazia muitos mapas (a gente usava o Atlas Geográfico e folhas de papel vegetal) e escrevia muitos textos sobre Geografia Física, onde descrevia o relevo, os recursos minerais e o clima de uma certa região.

Essa professora em particular foi muito importante para mim porque ela foi uma grande incentivadora. Gostaria de re-encontrá-la. Talvez ela não se lembre mais de mim, mas lembro dela com muito carinho. Talvez esse reencontro nem seja possível no momento, porque ela já estava quase se aposentando na época. E isso já faz 20 anos.

Por conta dessa professora pensei em prestar Engenharia Cartográfica. Pensei em prestar Geografia também. Acabei me interessando por Astronomia e Física. No fim das contas, fui cursar Meteorologia. E foi a melhor coisa que fiz, pois uniu meu amor por Física com meu amor pelos mapas e pela Climatologia.

Enfim, é preciso entender que a abordagem de Climatologia que os alunos do curso de Bacharelado em Geografia têm é um pouco diferente da que os alunos do Bacharelado em Meteorologia  têm. Resumindo de maneira muito geral, os geógrafos veem a Climatologia de forma mais qualitativa, enquanto os Meteorologistas aprendem Climatologia de maneira mais quantitativa. Isso significa que os geógrafos aprendem a interpretar alguns gráficos e aprendem a descrever os diferentes climas da Terra. Já os Meteorologistas aprendem a fazê-lo utilizando cálculos e fazendo simulações.

É por essa razão que tive dificuldade de escrever aquele texto em que menciono a classificação Climática de Köppen-Geiger. Nós vemos muito pouco de classificação climática na graduação em Meteorologia. O foco dado em Climatologia, como mencionei anteriormente, é completamente diferente nos cursos de Meteorologia e Geografia.

Por isso eu imagino que se um colega de profissão, após o Mestrado e o Doutorado em Meteorologia também, for dar aula de Climatologia para alunos de Geografia, enfrentará algumas dificuldades e terá que se esforçar ainda mais para cumprir as expectativas do seu departamento e dos alunos.

Enfim, estou lendo um livro chamado Introdução à Climatologia para os Trópicos, de J.O. Ayoade. O livro é da Bertrand Brasil e está sendo vendido na Oficina de Textos. Não vou dar meu parecer final sobre a obra porque ainda não acabei de ler. Mas posso dizer algumas coisas que já observei:

– Se você quer aprender Climatologia e detesta Matemática, o livro pode te interessar;

– Apesar do nome, o livro não tem exemplos brasileiros, o que é fácil de entender: J.O. Ayoade é professor do Departamento de Geografia da Universidade de Ibadan (Nigéria). Ainda assim, o livro não deixa de ter o seu valor;

– Muito bacana conhecer a produção acadêmica de um país africano. Eu estou gostando muito dessa experiência;

– Se você é um meteorologista mais clássico (que paga pau pra Rossby, Bjerknes, etc), talvez não goste do livro;

– Alunos de Geografia talvez tenham muito interesse na obra.

– Se você gosta de livros de climatologia com ilustrações coloridas e muito detalhadas, vai se frustrar. As ilustrações desse livro são bem simples e em pouco número. É um livro bastante descritivo.

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Mas veja bem, essas observações citadas acima ainda estão em construção. Eu recebi o livro há 2 semanas e essa semana consegui pegá-lo para ver com atenção, ler os capítulos e tudo mais. Pretendo ler a obra completamente para ressaltar com mais cuidado os pontos negativos e positivos. E eu ainda preciso resenhar Admirável Mundo Novo (acabei de ler ontem!). É gente, aqui no Meteorópole vocês podem ler todo tipo de resenha, desde que tenham paciência (nunca fiz curso de leitura dinâmica rs).

Um dos pontos tratados no primeiro capítulo do livro é a diferença entre Climatologia tradicional x Climatologia Moderna. E é bastante fácil a gente saber o que é climatologia tradicional. Para isso, posto aquele mapa com os climas do mundo de acordo com a Classificação Köppen-Geiger (falei dele aqui).

 

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Climas mundiais de acordo com a classificação Köppen-Geiger. Fonte: Universidade de Melbourne e Wikimedia Commons

 

O que a gente vê no mapa acima? A gente nota que cada regiãozinha do planeta tem uma cor específica. E cada uma dessas cores está associada a um tipo de clima. Essa é a abordagem da Climatologia Tradicional: pegamos mapas e gráficos e explicamos os climas das várias regiões. O uso de climogramas também é parte da Climatologia Tradicional. A seguir, temos um climograma de São Paulo. São médias mensais de temperatura e chuva para um período de mais de 70 anos de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP.

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

Climograma de São Paulo. Dados da Estação Meteorológica do IAG-USP

A propósito, todo post em que comparei Lisboa e Nova York (leia aqui) é um post em que uso a abordagem tradicional da Climatologia. Eu usei mapas e gráficos para comparar os climas dessas duas cidades. A Climatologia que aprendemos lá no Ensino Básico também é uma abordagem tradicional. Ok, mas o que seria a Climatologia Moderna?

Acontece que a Climatologia Tradicional tem algumas deficiências. Atkinson (1972) conseguiu listar quatro principais limitações da abordagem tradicional da climatologia:

1) É descritiva e não explicativa: os mapas de médias (médias de temperatura, por exemplo), descrevem a variação espacial da variável, mas não dão uma ideia dos processos que original essa descrição.

2) Dá a impressão de atmosfera estática:  as características da atmosfera em um dado momento e em um dado local tendem a mudar em escalas que variam de microssegundos até centenas de anos. Um exemplo bem claro disso, é quando a gente pega médias de precipitação em períodos diferentes em um mesmo local:

Fig6

Precipitação mensal acumulada nos anos de 2012 e 2013, além das normais e da média climatológica.

A figura acima é do Boletim Climatológico de 2013 da Estação Meteorológica do IAG-USP e pode ser consultado aqui.  São dados de uma estação meteorológica localizada na cidade de São Paulo-SP.  O que quero mostrar? Repare que além dos totais mensais dos anos de 2012 e 2013 (barras azuis e vermelhas respectivamente), também temos 3 linhas que representam as médias mensais em 3 intervalos de tempo distintos: normal climatológica entre 1933-1960 (linha verde), normal climatológica entre 1961-1990 (linha roxa) e média total entre 1933-2013 (linha laranja). As 3 médias mostram muito bem o período chuvoso e o período seco, mas repare que as médias são ligeiramente diferentes, indicando que no passado (normal climatológica entre 1933-1960) chovia menos. Sendo assim, apesar das características do clima serem “estáticas”, há uma variação na escala de vários anos também. E esse ponto vem sendo muito discutido recentemente, nas discussões sobre mudanças climáticas.

3) A climatologia tradicional tende a ignorar as interações, ou seja, os mecanismos de feedback. Na climatologia tradicional, por exemplo, ignora-se o que o desmatamento pode provocar no clima de uma região em longo prazo.

4) Quando os alunos veem um mapa de diferentes climas (como o mapa que coloquei como segunda imagem do post), eles tendem a pensar que a atmosfera é estática, não varia e que há uma espécie de “limite” entre os climas. O que existe é uma alteração gradual entre um clima e outro. Além disso, é como se um clima fosse uma “entidade separada” e não tivesse nenhuma relação com o clima de uma região vizinha.

Acredito que um grande desafio para um professor de geografia é entrar nesses detalhes com seus alunos, para que o aprendizado de climatologia seja mais proveitoso e mais “real”. Claro que os professores tendem a simplificar os modelos, simplificar as explicações sobre a natureza para que o próprio aluno vá formando sua opinião e organizando o conhecimento ao longo dos anos de estudo. Mas acredito que o ensino moderno de climatologia tem que ser além do mapinha com os climas do mundo.

O livro Introdução à Climatologia para os Trópicos, de J.O. Ayoade, pode ser muito interessante para professores de geografia que desejem preparar suas aulas levando em conta esses pontos. Como disse para vocês, ainda estou lendo o livro e não formei totalmente minha opinião. Apenas apresentei aqui alguns julgamentos preliminares.

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 Fontes mencionadas além de Introdução à Climatologia para os Trópicos, de J.O. Ayoade:

Atkinson, B. W. The atmosphere. In: Bowen, D. Q. (ed.), A Concise Physical Geography. Londres, Hilton Educational Publications, 1972.