Como é difícil sensibilizar nos dias de hoje



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As duas imagens acima fazem parte de uma de minhas apresentações. A primeira delas é uma foto de julho/2010, tirada em durante enchentes devastadoras que destruiram muitas cidades de Alagoas e Pernambuco (leia mais aqui).

A segunda foto é do Jardim Pantanal, em São Paulo. Não sei quando foi tirada, mas poderia ser qualquer mês de janeiro de qualquer ano. Mostra o triste cotidiano de pessoas que vivem em áreas sujeitas a alagamentos. Pessoas que todos os anos perdem os móveis, correm risco de morrer, correm risco de contrair uma doença grave (como cólera ou leptospirose) e tem um terrível stress psicológico. Imagine viver com medo de que as águas sujas do rio entrem em sua casa. Imaginem ter que dormir com medo da água entrar em casa…

Coloco as imagens nas apresentações para sensibilizar os alunos. Meu objetivo é que eles percebam que faltam políticas de moradias populares, faltam obras de infraestrutura, faltam planos de mitigação e contingência. Enfim, meu objetivo é fazer com que adolescentes de 10-13 anos sensibilizem-se e tornem-se adultos pensantes. Adultos com empatia e que vão pensar na população mais vulnerável quando forem votar.

Muitos dos alunos que atendo em meu trabalho são de escola particular. Outros são de escola pública, e talvez não se encontrem na situação de vulnerabilidade das pessoas nas fotos. O que tenho reparado recentemente é que alguns dão risada quando eu mostro essas fotos. E eu fico profundamente triste.

Não consigo ver o que há de engraçado em um homem que está tentando salvar os poucos mantimentos secos que lhe restam, que certamente foram adquiridos com muito sacrifício. Não consigo ver o que há de engraçado em um pai que todos os anos tem que passar por enchentes, que tem que ver o filho crescer diante dessas circunstâncias, que provavelmente não pode adquirir um imóvel em uma região não sujeita a alagamentos (onde certamente o preço é maior). E eu tenho certeza que meus leitores ficam revoltados diante desses quadros. Mas, porque alguns adolescentes que recebo dão risada?

Psicopatia? Não sei. Li um livro que diz que há estimativas de que até  4% da população é psicopata. Não, não são todos os alunos que riem. Eu diria que são uns 4% mesmo. Mas quando eles riem, eles me assustam.

Talvez não seja psicopatia. Mas tem a ver com algo que me horroriza na sociedade brasileira: a mania de rir de tudo, de achar tudo engraçado. Há um perfil no Twitter chamado Não Sou Racista, mas….Esse perfil dedica-se a procurar todos os comentários racistas feitos por pessoas que fazem parte dessa rede social. Eles então retwittam o comentário, para mostrar que o racismo está na nossa frente.

Muitos dos comentários racistas são, segundo quem os faz, brincadeira. É só zoeira. Ora, o humorista engraçadão Danilo Gentilli faz. Olhem como ele é engraçado, eles dizem. Como a internet muitas vezes parece um grande espetáculo standup de mau gosto, eles acham justo fazer comentários e ‘piadas’ racistas. Quando que oprimir alguém ou um grupo tornou-se engraçado?

Essa sociedade egoísta, em que a auto-satisfação é mais importante do que o bem estar coletivo, acredito que tornou-se comum oprimir e ridicularizar o outro. É quase como uma tarefa do dia a dia, para muitos: fazer comentários jocosos sobre a vida sexual de alguém, falar da aparência, do lugar que o outro vive, etc. Sempre de maneira mordaz e grosseira.

Isso infelizmente é tão cotidiano que mesmo que você repudie tudo isso, acaba se contaminando. É uma pena. Por isso acredito que a gente tem que pegar um período do nosso dia, todos os dias, para analisar nossas atitudes. E espalhar gentileza sempre! Gentileza gera gentileza, e essa é uma das frases mais bonitas e simples que já li.

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Sinceramente, não sei o que fazer para sensibilizar esses adolescentes. Normalmente, após a crise de riso injustificada, tento fazer com eles um exercício de empatia. Alguns ficam sem graça e interrompem o riso. Outros parecem não se importar. E não é a primeira vez que tenho problemas com fotos que apresento. Quando mostro uma foto de um carro após a passagem de um tornado, há alunos que dizem que “foi uma mulher  que o estacionou”. Escrevi um texto sobre esses clichês machistas que as crianças reproduzem aqui.

O Brasil não vai mudar enquanto as pessoas não mudarem suas formas de pensar e de agir. Há algumas atitudes que parecem “inofensivas”, mas na verdade escondem machismo, racismo, outras formas de preconceito e muito egoísmo. Precisamos aprender a respeitar o próximo em todos os aspectos e acho que já passou da hora, na verdade.